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Promotora afirma que depressão, alterações de peso, úlcera e doenças de pele podem ser consequências do assédio sexual

Vídeo com pedido de desculpas de MC Biel divide opinião dos fãs na internet
YOUTUBE / REPRODUÇÃO


Há uma semana, uma repórter do Portal iG relatou a situação constrangedora pela qual passou no início de maio enquanto entrevistava o cantor Biel. Na ocasião, ele a chamou de “gostosinha” e disse que “a quebraria no meio”  caso mantivessem relações sexuais.

+ Tudo sobre a denúncia de assédio contra Biel

No boletim de ocorrência registrado como assédio sexual na 1ª Delegacia da Mulher de São Paulo, a jovem de 21 anos ainda relata que ouviu: "queria que a sua entrevista fosse a última do dia, te levaria para um hotel e te estupraria rapidinho".

“A entrevista terminou, peguei minhas coisas e fui embora. Entrei no táxi e tremia. Aí, comecei a chorar. Lembrei das pessoas da sala que estavam rindo, de tudo que ouvi uma vez, duas vezes, quatro vezes. Quando saí, percebi tudo que aconteceu, e tantas coisas que ouvi em dez minutos e é aí que você percebe o absurdo da situação", lembrou a repórter em matéria sobre o caso .

Outros casos

O assunto se manteve entre os mais comentados nas redes sociais e a divulgação do caso promoveu inúmeros desabafos e outras denúncias .

Mesmo assim, parte dos internautas ainda demonstra não ver a situação como algo ofensivo ou constrangedor e é recorrente a ideia de que casos de assédio no trabalho como esse são isolados. 

Vergonha e medo são alguns dos sentimentos mais comuns entre as vítimas de assédio sexual no trabalho
Getty Images
Vergonha e medo são alguns dos sentimentos mais comuns entre as vítimas de assédio sexual no trabalho


Números do assédio sexual no Brasil

A procuradora Valéria Diez Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo , afirma que, segundo estudos, 52% das mulheres já passaram por situações que configuram assédio sexual.

No âmbito do jornalismo, os números são ainda mais alarmantes: de acordo com uma pesquisa realizada pelo Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal , 77,9% das profissionais dizem que já sofreram assédio pela chefia ou por colegas de trabalho .

Outra pesquisa, realizada pelo International News Safety Institute e pela Women's Media Foundation , aponta que mais de 60% das entrevistadas que sofreram assédio relatam que o episódio ocorreu dentro da própria empresa .

O que é assédio sexual 

Afinal, quais atitudes podem ser consideradas assédio sexual? 

“Pela lei penal, o assédio é o constrangimento de uma pessoa com a finalidade de obter uma vantagem ou favorecimento sexual em situação de trabalho em que o agente se prevalece da sua condição de superior hierárquico ou ascendência por cargo, emprego ou função”, afirma Valéria ao Delas . Ela ressalta que há diferenças entre o conceito de assédio como abordagem sexual inadequada (que pode justificar uma indenização ou uma rescisão de contrato) e o assédio de fato. Para que seja configurado como tal, é preciso haver uma proposta clara por parte do assediador. A procuradora explica ainda que, apesar da alta incidência de casos, a grande maioria das vítimas segue sem denunciá-los.

Vítimas que se calam

“O silêncio que existe em todas as formas de violência vem da incerteza por parte da vítima quanto ao tipo de abordagem, o medo da exposição, o medo de perder o emprego e não ser novamente empregada, medo da revitimização, do julgamento moral que a sociedade ainda faz a respeito das vítimas”, explica Valéria.

"Ele começou a insistir para a gente dormir junto"

A publicitária Júlia Balista relata que, aos 19 anos, passou por uma situação desconfortável com seu ex-chefe, um dia após ser demitida. Ela falou pela primeira vez sobre o caso no ano passado, quando o movimento “#meuamigosecreto” tomou conta das redes sociais com relatos anônimos sobre abusos, mas nunca denunciou. “A gente combinou de se encontrar para ele me dar dicas de mercado. Fomos num bar na Vila Mariana. Em determinado momento da conversa, ele começou a flertar e insistir para a gente dormir junto. Eu recusei e perguntei o que a mulher dele ia achar disso, já que ele era casado, e ele falou que a mulher não precisava ficar sabendo. Fiquei bêbada, ele me deixou no ponto de ônibus e tentou me beijar antes de eu sair do carro. Acho que ele ficou com medo de dar em cima de mim enquanto eu trabalhava lá”.

“Desmotiva, irrita e cansa”

Com a autoconfiança abalada, Júlia conta que, após o ocorrido com seu ex-chefe, ficava insegura quando tinha de fazer entrevistas de trabalho. “Eu achava que, caso fosse entrevistada por um homem, ia ser muito mais importante minha aparência física do que minha inteligência. Uns dois meses depois voltei a trabalhar”. 

Às vezes, as mulheres adoecem sem identificar a causa da doença”

Segundo Valéria, é comum que algumas vítimas deixem o emprego ou a carreira após o assédio: “Os estudos apontam que as mulheres normalmente suportam o assédio em razão de necessidade econômica, ou elas se calam e simplesmente abandonam o serviço”. 

Constrangimentos por ser mulher

Após ser colocada em situações constrangedoras por seus próprios chefes e por entrevistados, a jornalista Priscila Tuna Quintal chegou a pensar em desistir da carreira. 

“Desmotiva, irrita e cansa. Nessa época, chorava horrores e pensava em largar tudo, era testada todos os dias”, diz Priscila.

Pricila é cinegrafista e acredita que os constrangimentos pelos quais passou se deram, em grande parte, por ela ser mulher. “No meu primeiro emprego, davam-me os equipamentos mais pesados e os caras ficavam olhando para ver se eu conseguia carregar. Uma vez, entrevistei um cara que tentou tirar o microfone da minha mão. Quando recuei delicadamente, ele falou para uns quinze homens que estavam sentados na mesa com ele que era melhor que eu segurasse o microfone porque eu devia ser boa nisso, que estava acostumada. Fiquei muito chateada”, desabafa. 

Rolaram muitas intimidações nesse dia, fiquei inconformada, nervosa e o artista até conseguiu o telefone da minha mesa de trabalho. Foi constrangedor, mas eu o cortei de diversas maneiras até que ele desistiu das investidas"

Marcas físicas e psicológicas 

Tanto Júlia como Pricila persistiram em suas carreiras, mas, para mulheres que continuam trabalhando no mesmo ambiente que o assediador, o efeito causado pelo episódio pode evoluir e ter efeitos psicológicos ruins. “A probabilidade de trazer ansiedade e insegurança na relação de trabalho é alta. As consequências são mais intensas dependendo do tipo de relação que existe entre os dois (vítima e assediador) e é mais complicado ainda em relações hierárquicas”, explica a psicóloga Hebe Mancini Nicolau ao Delas .

Pânico, alterações de peso, úlceras e mais doenças

Acostumada a tratar os casos em seu consultório, a especialista ressalta ainda que, assim como mostra uma pesquisa feita pela Universidade de Cambridge, mulheres são naturalmente mais suscetíveis a distúrbios de ansiedade. Segundo ela, situações traumáticas podem torná-las ainda mais propensas a essa condição que, muitas vezes, vem acompanhada de aceleração cardíaca, pânico e pode precisar de tratamento medicamentoso.

Depressão, transtornos psicossomáticos, alterações relevantes de peso, doenças crônicas, úlcera, doenças ligadas à endocrinologia e doenças de pele acometem as vítimas"

Vítimas de assédio sexual frequentemente são aconselhadas a ignorar ou a não denunciar, ou seja, guardar para si mesmas o que aconteceu e seguir em frente. Porém, além do trauma, elas podem carregar consigo consequências que vão além de distúrbios de ansiedade, de acordo com Valéria. “Muitas vezes se diz que um trauma físico traz consequências psíquicas, mas nem sempre se reconhece que traumas psíquicos trazem consequências físicas".

"Depressão, transtornos psicossomáticos, alterações relevantes de peso, doenças crônicas, úlcera, doenças ligadas à endocrinologia e doenças de pele  acometem as vítimas", segundo a procuradora.

Alterações de peso, úlcera e outras doenças podem acometer mulheres após assédio sexual
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Alterações de peso, úlcera e outras doenças podem acometer mulheres após assédio sexual

Assédio de apresentador

A jornalista Thays Almendra cobre a editoria de entretenimento há 7 anos. "Lidar com artistas é supergostoso, dinâmico e gratificante, mas nem sempre é uma tarefa fácil e exige jogo de cintura. A maioria, e enfatizo uns 95% desses famosos, respeitam e valorizam as jornalistas mulheres de uma forma extremamente profissional. Temos assessorias muito boas que dão treinamentos incríveis para que os artistas não pequem na hora de lidar com os jornalistas", relata.

'Como você é gata. O que acha de dar uma chance para mim?'. Eu o questionava sobre o programa que estava sendo lançado e ele dizia: 'Se você der uma chance, vai saber mais detalhes. Que tal um selinho? Me passa seu telefone que te conto tudo'"

No entanto, segundo a profissional, é possível esbarrar com alguns artistas que não levam a sério o trabalho de jornalistas que tratam de assuntos um pouco mais leves e com certa descontração. "Assédios acontecem, sim. É hipocrisia dizer que passamos ilesas. Passei por isso umas duas vezes - felizmente - sem me dar conta que era assédio", lembra Thays.

"Em uma delas, um artista ficava com sorriso nos lábios enquanto eu fazia as perguntas para ele e dizia: 'Como você é gata. O que acha de dar uma chance para mim?'. Eu o questionava sobre o programa que estava sendo lançado e ele dizia: 'Se você der uma chance, vai saber mais detalhes. Que tal um selinho? Me passa seu telefone que te conto tudo'. Seu parceiro dava umas risadas de vergonha, mas em nenhum momento pediu para ele parar", recorda.

"Guardei pra mim e até me culpei"

"Rolaram muitas intimidações nesse dia, fiquei inconformada, nervosa e o artista até conseguiu o telefone da minha mesa de trabalho. Foi constrangedor, mas eu o cortei de diversas maneiras até que ele desistiu das investidas. No final, preferi não falar para a chefia porque pensei que podiam achar que eu teria dado algum tipo de abertura para isso acontecer. Guardei para mim e até me culpei por ter sugerido aquela pauta", lamenta a jornalista.

Mulheres adoecem sem saber a causa da doença

A promotora observa ainda que os sintomas podem se manifestar antes mesmo da vítima perceber o assédio. “Nem sempre a conduta do assediador é tão expressa. Muitas vezes, a mulher nem se dá conta até que é feita uma proposta. Mesmo que ela não tenha percebido, o corpo mostra sinais dessa resistência. O organismo apresenta uma resistência física, que se transformam nas doenças citadas. Às vezes, as mulheres adoecem sem identificar a causa da doença”.

Assédio sexual no trabalho: 'Às vezes, as mulheres adoecem sem identificar a causa da doença'
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Assédio sexual no trabalho: 'Às vezes, as mulheres adoecem sem identificar a causa da doença'




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