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Pernambucana conta que levou um ano para se recuperar das complicações após um procedimento para empinar o nariz - a rinomodelação - e, ainda assim, tem cicatrizes que não devem desaparecer; contém imagens fortes

Empolgada com a viagem dos sonhos, a jornalista Priscila Aguiar, de 33 anos, aproveitou que iria fazer um passeio pela Europa e quis dar um “up” no visual antes de sair do Brasil. Faltando uma semana para as férias, ela decidiu fazer um procedimento estético à base de ácido hialurônico que prometia “empinar” seu nariz - mas não contava que a técnica resultaria em necrose e estragaria todos os seus planos.

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cirurgia no nariz
shutterstock
Na matéria, Priscila mostra evolução de necrose nos primeiros dias desde que fez o preenchimento com ácido hialurônico

Mais de um ano depois do dia em que realizou o preenchimento com ácido hialurônico , conhecido como rinomodelação, só agora a pele do nariz de Priscila está começando a voltar ao normal. Apesar da sensibilidade e das cicatrizes - que ela acredita que vão ficar para sempre -, hoje, a pernambucana já está liberada para tomar sol e banho de mar.

A recuperação, no entanto, já pareceu muito distante, quando o quadro de necrose tomou conta de seu nariz. “Eu estava apavorada. Meu nariz estava preto, necrosado, e eu não sabia como ele ia evoluir”, lembra. 

Ela conta que tudo aconteceu muito rápido. Três dias depois da rinomodelação , ela foi internada com infecção e necrose em três áreas do nariz.

“No dia em que fiz o preenchimento, meu nariz ficou esbranquiçado, mas achei que era normal. No segundo dia, já começou a ficar bem feio e enviei fotos para a biomédica esteta, que disse ser normal também. No terceiro dia, comecei a ter dores fortes e avisei a especialista, que me mandou colocar gelo. Pronto. A partir daí, só piorou e eu tive que ser internada”, conta.

Os médicos que a atenderam explicaram que o ácido foi inserido em um vaso que faz ligação com o cérebro e o olho, entupindo-o e causando uma oclusão arterial. Como a biomédica esteta que realizou o procedimento não identificou o problema, o caso evoluiu para a necrose.

Apesar de perder a viagem, Priscila conta que poderia ter perdido muito mais se não tivesse ajuda de bons profissionais e um pouco de sorte, já que, por causa do erro da profissional, ela poderia também ter tido um AVC e ficado cega.

Para reverter o caso, ela precisou mudar seu estilo de vida e investir em tratamentos. De início, fez aplicação de hialuronidase, uma enzima que quebra o efeito do ácido hialurônico.

Depois, foi submetida a oxigenoterapia hiperbárica, mas precisou interromper a terapia porque desenvolveu um quadro de otite média supurativa. Daí em diante, ela ainda continuou a recuperação com o uso de antibióticos.

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É preciso falar sobre as complicações do uso do ácido hialurônico

Evolução da recuperação do nariz com necrose
Arquivo pessoal/Priscila Aguiar
A recuperação de Priscila demorou um ano, mas ainda assim, o nariz ficou com cicatrizes que podem ser permanentes

Quando procurou pela intervenção estética, a jornalista fala que pesquisou bastante sobre a clínica e sobre a rinomodelação, que parecia ser simples. “Por causa da minha profissão tenho contato com as notícias 24 horas por dia, estou sempre bem informada e, mesmo assim, eu não sabia dos riscos. Mesmo pesquisando, eu só encontrei informações positivas, nenhum relato sobre qualquer tipo de complicação”, conta.

A profissional escolhida por Priscila para fazer o procedimento foi uma indicação, o que passou mais confiança para realizar o procedimento, mas ela admite que não chegou a pesquisar muito sobre a biomédica.

Contudo, antes de comprar o serviço, ela teve o cuidado de questionar a clínica sobre os perigos da técnica e, inclusive, informar sobre sua viagem, que aconteceria em uma semana. “Cheguei a pesquisar no site do Conselho de Biomedicina Estética se a clínica tinha autorização e pensei que, como eles tinham, seria tranquilo”, afirma. 

Apesar de ter tomado os cuidados recomendados, a pernambucana não conseguiu evitar que um problema acontecesse. Por isso, no dia em que deveria estar preparando suas malas para viajar, ela resolveu, da cama do hospital onde estava internada, escrever um desabafo nas redes sociais para alertar outras pessoas.

O depoimento viralizou e ela conta que ficou surpresa com a quantidade de mensagens que recebeu de gente que havia passado por situações semelhantes, mas não tinham compartilhado suas experiências.

“Quando aconteceu comigo eu senti muita vergonha e culpa por não ter escolhido bem o profissional, então eu sei porque essas pessoas não contaram e entendo completamente. Mas também me senti na obrigação de expor o caso para levar informação e alertar."

Além da responsabilidade do paciente

Ainda que o paciente tome todas as precauções que estão ao seu alcance, os riscos continuam existindo. Preocupada com isso, neste mês, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) protocolou no Ministério Público Federal um documento apontando denúncias contra atos praticados por não-médicos na área da estética e da cosmiatria que resultaram em complicações à saúde de terceiros.

“Essa é uma situação que deve ser coibida por dois motivos. Em primeiro lugar, a realização desse tipo de procedimento por não-médico é vedada em lei. Então, falamos de um ato ilegal que deve ser coibido pelas autoridades”, aponta o presidente da SBD, Sérgio Palma.

“Por outro lado, e ainda mais grave, é a situação de risco aos quais milhares de pessoas estão sendo expostas cotidianamente. Não são poucos os casos de sequelas e doenças causados por erros cometidos por essas pessoas. Em algumas situações, até mortes já foram registradas”, completa.

Priscila finaliza o apelo pedindo que as pessoas procurem toda e qualquer informação não só sobre o local onde irá realizar o procedimento, mas também sobre o profissional responsável pela técnica para evitar problemas como os que ela enfrentou ao realizar o preenchimento com ácido hialurônico .

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"Escolha aquela pessoa que você tenha certeza de que vai identificar uma complicação e tratar na mesma hora, porque elas podem ser devastadoras na vida do paciente". E completa: "Você precisa pensar que está colocando não a sua testa, não o seu nariz, não a sua olheira, mas a sua vida nas mãos desse profissional. Por isso, vale o questionamento: 'Quanto vale a sua vida?'."