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Todo relacionamento dói quando termina. A cicatrização é parte do processo, mas a esperança pelo reencontro continua cortando

Quando – e se - acabar o namoro, a gente vai se encontrar num supermercado. Numa terça-feira, de tardezinha. Vou te abraçar e pronto: a gente vai voltar. Como se nada tivesse acontecido.

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O fim de um namoro pode ser apenas um próximo passo
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O fim de um namoro pode ser apenas um próximo passo

Sabe, Gui. É normal fazer planos quando tudo está bem. Acho que todo casal faz. Você vê: essa frase era uma forma de garantir o renascimento do namoro , se um dia terminasse. Uma autoproteção. Um jeito de reatar depois de um tempo, como se não tivesse morrido o amor. De tentar de novo, apesar de tudo. Ninguém começa pensando na possibilidade do fim. Começa para abraçar como se fosse a última vez, mas com a certeza de que vai ter outro abraço depois, entende? Terminar dói.

Machucou. Mas sabe de uma coisa? Eu tô bem. Já faz bastante tempo que nosso relacionamento acabou. Fiquei sem chão quando ele disse que eu não estava mais no contexto dele, na vida dele, nos planos dele. Ele alegou dor de cabeça, cansaço, saco cheio. E eu aceitei, claro. Na verdade ele queria que eu terminasse. De um jeito sutil, talvez. Até hoje eu não sei quem foi que terminou.

Eu segui minha vida. Já não sou a mesma pessoa. Pode parecer bobagem, mas me vejo completamente diferente. Muita coisa mudou nesses meses. Nem as músicas que ouço são as mesmas, nem os tipos de filme que eu vejo, nem muitos dos meus amigos são os mesmos. Meu cabelo mudou, minha rotina mudou, os livros que estou lendo também mudaram. Se antes doía qualquer sinal que me remetia ao meu namoro, hoje me causa um sorriso. Mas sorriso de canto de boca, sabe? Leve. O sorriso de canto de boca é sutil. Tenho em mim que todo fim pode ser sutil. Por mais que tenha cortado e machucado, cicatriza com o tempo. Cicatrizar – recomeçar – é uma prova de amor próprio.

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É meio maluco pensar que a mesma música já não diz o mesmo. Que o mesmo refrão já não aguça e nem sensibiliza como antes. Que o filme preferido leva a uma lembrança boa, mas não ao mesmo sentimento. O pôr do sol de hoje já não é o mesmo que se colocou na semana passada, apesar do mesmo brilho e da mesma intensidade. Posso voltar mil vezes para o mesmo lugar, ver e ir embora mil vezes seguidas. Mas daquele jeito, do jeito que eu vi naquela vez, nunca mais. E o pior é a pressa. Terminar é ter pressa para ficar bem.

A pressa faz a gente não perceber o que está acontecendo agora. Ter pressa para sair de férias, para chegar o final de semana, para esquecer o que aconteceu de ruim. A gente engole o tempo como se fosse um copo de cerveja. E o fim de um relacionamento – disse uma vez alguém – é uma gaveta trancada dentro da gente. Você sabe que ela está lá, mas não tem coragem de abrir. E nem deve. Pra que se machucar mais, afinal? É algo natural que só o tempo redefine, dá outro significado. Também não é justo jogar pela janela. Vivo mais o hoje do que o ontem.

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Hoje – olha só – eu vi ele num supermercado. Não era terça-feira, você sabe. Eu estava prestes a ser atendida, nos abraçamos apertado e falamos o que bons amigos falam depois de muito que não se encontram. Foi rápido: tipo uns trinta segundos, talvez. A moça do caixa chamou o próximo. E era eu a próxima. Assim foi nosso reencontro. Beijei ele. Abracei de novo. Sorri com o canto da boca e saí. Nos despedimos como bons amigos – é verdade: amigos distantes agora – que nos tornamos. Ela repetiu: próximo cliente, por favor. Agilizei e fui.

Descobri que o próximo passo é continuar em frente. Todo fim (de namoro ) é um próximo passo. E nem todo passo precisa ser planejado na primeira caminhada.

*Guilherme Cimatti é colunista do iG Esporte

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