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Quando se separam dos companheiros ou simplesmente não têm um, as mães solo já começam a ser julgadas. Para as que querem manter uma vida sexual após isso, então, o preconceito está apenas começando

Quando uma mulher se torna mãe, é praticamente impossível que a vida continue exatamente como era antes. O corpo, as prioridades, as preocupações a rotina e o orçamento sofrem mudanças, ainda mais quando a mulher não está em um relacionamento; para a mãe solteira, além das dificuldades e responsabilidades naturais da maternidade, há também o julgamento da sociedade, que vem tanto pela ausência de um parceiro quanto pela vontade de retomar a vida amorosa e sexual. 

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É natural que, em um primeiro momento, a mulher fique tão ocupada com as necessidades da criança que realmente não tenha olhos para si, mas, eventualmente, ela pode, sim, sentir vontade de voltar a se enxergar como a mulher que ainda existe paralelamente à maternidade. Quando há um parceiro por perto, o casal pode trabalhar essa questão em conjunto, mas, no caso de uma mãe solteira , as coisas podem ser bastante diferentes.

Julgamento de todos os lados

Para Bianca de Souza, o período que viveu como mãe solteira após Rafaela nascer foi repleto de julgamentos, não só por não se relacionar com o pai da criança, mas por ter escolhido voltar a sair retomar a vida amorosa pouco tempo após dar à luz
Arquivo pessoal
Para Bianca de Souza, o período que viveu como mãe solteira após Rafaela nascer foi repleto de julgamentos, não só por não se relacionar com o pai da criança, mas por ter escolhido voltar a sair retomar a vida amorosa pouco tempo após dar à luz

Em grande parte dos casos, retomar a “vida de solteira” envolve sair para se divertir, conhecer pessoas novas e, eventualmente, torná-las parte da vida. Se a mulher é mãe solteira, porém, sair significa não estar com o filho, e envolver-se com uma nova pessoa significa trazê-la para o convívio da criança, impactando a vida dela de alguma forma. E, além desses obstáculos que a mulher encontra, a especialista em sexualidade e relacionamentos Cátia Damasceno explica que há ainda a questão do julgamento alheio.

“Infelizmente, ainda existe, sim, um preconceito – às vezes até velado – sobre as mães solos, como se elas não tivessem direito a uma vida sexual. É machismo puro. A mãe continua sendo uma mulher e, como tal, tem o direito de se satisfazer, de ser desejada. Ser uma boa mãe não quer dizer que você precisa anular o resto de você e da sua vida”, explica a criadora do projeto “Mulheres Bem Resolvidas”.

Ainda que a mulher tenha consciência disso, porém, falar é muito mais fácil do que fazer. Para Bianca de Souza, mãe de Rafaela, a questão da liberdade sexual da mulher nunca foi um mistério, mas a moça conta que, mesmo assim, sentiu o peso dos olhares, perguntas e imposições de quase todos à sua volta após a gravidez.

Houve momentos em que estávamos eu e o pai dela na mesma balada e nossos amigos me perguntavam onde a nenê estava. Eu falava: ‘Você já fez essa pergunta para o pai dela?’"

Bianca tinha 17 anos e ainda estava cursando o ensino médio quando engravidou da filha. Hoje, aos 24, ela conta que tudo aconteceu quando ela estava trocando uma pílula anticoncepcional por outra e que, de início, ela não queria seguir com a gravidez de forma alguma.

“Eu estava com intercâmbio pago, não pude fazer a faculdade que havia planejado... Eu não queria perder os planos que já tinha. Não queria ter filha, bati o pé nisso, mas, quando fiz meu primeiro ultrassom e ouvi o coração dela, desisti”, relata.

Quando descobriu que estava esperando um bebê, Bianca estava há apenas três meses namorando o pai de Rafaela. Os dois tentaram permanecer juntos, mas ela conta que, devido ao nervoso por enfrentar preconceito extremo na escola, largar os estudos e deixar os planos para trás, a relação entre os dois ficou abalada e, assim que a pequena nasceu, eles decidiram terminar. Ainda que não fossem mais um casal, os dois não pararam de se falar e Rafaela não deixou de conviver com o pai ou com a família dele.

A moça explica que, como ainda era adolescente quando engravidou e estava em um ambiente escolar muito conservador e preconceituoso, ela não sabia muito bem o que era ser uma mulher independente. Sendo assim, ela conta que não teve medo de perder a “liberdade de solteira” quando soube da gravidez simplesmente porque ainda não tinha começado a descobri-la. Porém, depois, quando ela voltou a ser solteira, as coisas mudaram.

Segundo Bianca, Rafaela desmamou aos três meses e, logo, a avó paterna da criança quis começar a levar a neta para passear e viajar. “Eu fui bem liberal e deixava eles saírem com ela, aí aproveitava esse tempo para sair. Quando ela tinha seis meses, eu comecei a me envolver com um antigo colega de escola”, explica, ressaltando que, nesse momento, enfrentou o julgamento da própria família – por ter voltado a sair com alguém “tão rápido” – e da família do rapaz, que não caía de amores pelo fato de que ela tinha uma filha.

As pessoas têm dificuldade de entender que sou mãe e sou mulher com desejos e vontades, e que é possível, sim, separar essas duas esferas"

O relacionamento deles durou cerca de um ano e, depois do término, a mãe solteira realmente se jogou na vida de solteira – e se deparou com mais preconceito.

“Comecei a sair mais, ir para baladas, e minha filha ficava com a avó paterna enquanto isso. Houve momentos em que estávamos eu e o pai dela na mesma balada e nossos amigos em comum me perguntavam onde a nenê estava. Eu falava: ‘Você já fez essa pergunta para o pai dela?’. Isso me irritava profundamente”, relata Bianca.

A questão do preconceito contra o fato de a mãe solteira querer aproveitar a vida além da maternidade não se limita a mulheres que curtem badalar. A educadora Juliana (nome fictício), que também cria um filho sozinha por não se relacionar com o pai da criança e não ter um relacionamento fixo, por exemplo, teve de lidar com algo parecido mesmo não sendo muito festeira.

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“Eu sempre fui uma pessoa mais caseira, nunca fui de sair muito, mas realmente não é muito tranquilo conciliar a maternidade com o lado mulher. Em primeiro lugar, se você sai com algum homem, as pessoas já ficam desesperadas achando que você vai engravidar de novo. Se você sai com uma mulher – porque sou bissexual –, tem todo o preconceito de como se explica isso para uma criança. As pessoas têm dificuldade de entender que sou mãe e sou mulher com desejos e vontades, e que é possível, sim, separar essas duas esferas”, relata.

Culpa, medo e momento de se (re)conhecer

Tanto Juliana quanto Bianca enfrentaram preconceito em vários âmbitos da vida, mas nenhuma das duas se deixou abalar por isso. Ainda assim, porém, há outros fatores que impedem a mãe solteira de ter paz quando decide ter uma vida amorosa paralela à maternidade . Bianca conta que, durante o primeiro relacionamento que teve após a chegada de Rafaela, ela tinha dificuldade em realmente se aproximar do rapaz.

“A relação dele com a minha filha era ótima e ela era bem pequena, então não entendia o que ele era, mas eu tinha medo de não dar certo e eu ter envolvido minha filha”, conta. Alguns anos após terminar esse relacionamento, Bianca – ainda driblando o preconceito – chegou a ficar noiva de um rapaz e, com ele, tentou se soltar um pouco mais.

Ainda assim, como engravidou cedo, teve de adiar todos os planos que tinha de uma futura carreira, e está fazendo faculdade só agora, Bianca seguia morando com a mãe. Desde a gravidez, porém, a relação das duas não era das melhores e outros fatores tornaram a situação em casa insustentável. “As coisas estavam muito conturbadas e o pai da Rafaela estava me chamando para morar com ele. Eu terminei meu noivado e, há dois anos, vim morar com ele mesmo estando separada dele”, afirma.

Apesar de ser um caso particular, isso mostra como a vida de uma mãe solteira que tem vontade de voltar a se envolver com as pessoas pode se complicar facilmente. “Faz dois anos que moro na casa dele e essa parte é bem difícil. É difícil me relacionar com alguém dizendo que moro na casa do meu ex”, desabafa Bianca.

Assim como Juliana, Bianca também é bissexual e passou a se assumir mais na época em que foi morar com o pai de Rafaela; outra questão que, para uma mãe solteira, é ainda mais difícil do que o normal.  “Comecei a ficar com mais mulheres, procurar um círculo em que eu me encaixasse mais, e aí é que veio a parte difícil, porque como é que eu vou contar para os outros que eu fico com mulher sendo que todo mundo só me conhece ficando com homem?”, explica.

Relacionamento é possível, mas não necessário

Apesar de todo o julgamento da sociedade e do medo que mães solteiras podem ter de ter relacionamentos após a maternidade, tanto Cátia quanto a psicóloga Livia Marques incentivam que elas sigam seus desejos, independentemente de quais forem. “A mulher precisa se sentir bem e ser feliz também. Às vezes, um relacionamento pode trazer esse bem-estar, ela pode se sentir completa do lado mulher, ser amada e desejada”, afirma a psicóloga.

Cátia afirma que, se há vontade, não existe um momento certo para começar, mas que a “falta de prática” e as novas obrigações podem deixar muitas delas sem saber o que fazer. A especialista então aconselha começar devagar, respeitando o próprio tempo. “É ir retomando pouco a pouco os hábitos de antes da maternidade, ir a lugares que te faziam feliz, aos quais você costumava se arrumar para ir e se divertia”, explica ela, além de aconselhar que a mulher procure criar momentos em que deixe um pouco o “papel de mãe” de lado.

Não se esconda. Você é uma mulher e merece ser feliz, seja com um parceiro ou uma parceira. Esteja bem consigo mesma e sua relação com seu filho ou filha fluirá”

Para Livia, é importante que, nessa hora, a mãe se cerque de amigos – algo que pode, inclusive, facilitar a retomada da vida amorosa e sexual. “Conversar e se distrair faz bem. Caso a mulher deseje conhecer alguém, ela pode estar entre as pessoas de quem gosta, pois a possibilidade de conhecer alguém que possa ser um bom companheiro ou companheira podem ser boas”, afirma a psicóloga.

Outro aspecto que Cátia ressalta quanto a sexualidade é a necessidade de a mulher ficar “a sós consigo mesma” e se redescobrir antes de partir para a conquista. “Outra dica legal é voltar a se tocar, a reconhecer suas necessidades sexuais, sentir o próprio corpo, entender o que mudou, se os mesmos toques ainda excitam... Isso com certeza vai ajudar a relaxar quando ela estiver na cama com alguém”, explica.

Quando essa vontade surge na vida de uma mãe solteira, outro fator que a impede de agir é a eventual culpa por deixar a criança “de lado” para se divertir. No entanto, as especialistas afirmam que, se a situação for bem pensada, isso não precisa ser um problema. O ideal é deixar a criança com pessoas que façam bem para ela e usar momentos como aqueles em que ela está na escola para “dar uma escapada”.

De acordo com Cátia, a criança não precisa saber de detalhes enquanto a mãe estiver envolvida em situações mais casuais, com pessoas que provavelmente não farão parte da vida dela por muito tempo. No entanto, se a brincadeira ficar séria, é preciso decidir os próximos passos com responsabilidade.

“Em primeiro lugar, é preciso ter um bom diálogo com a criança. Além disso, acredito ser importante conhecer essa pessoa. Não conhecemos ninguém 100%, mas é necessário diálogo para sabermos se confiamos ou não, sempre trabalhando com cautela”, explica Livia. Assim como o diálogo com a criança, a honestidade com a outra pessoa também é algo essencial, então nada de esconder o fato de ser uma mãe solteira.

Tanto Juliana quanto Bianca afirmam que seus filhos estão crescendo conscientes de que não há problemas em mulheres ficarem com mulheres e homens ficarem com homens, mas a mãe de Rafaela ainda não contou à filha sobre o fato de que, hoje, ela está se relacionando com uma mulher. Como sempre, a escolha deve partir da mãe, mas Livia afirma que não há problema algum em se abrir caso haja vontade. “Não se esconda. Você é uma mulher e merece ser feliz, seja com um parceiro ou uma parceira. Esteja bem consigo mesma e sua relação com seu filho ou filha fluirá”, aconselha a psicóloga.

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Ao mesmo tempo, também não há problema algum caso a mulher queira curtir a vida de mãe solteira sem o objetivo ou a vontade de voltar a ter um relacionamento. É o caso de Juliana, que não tem a intenção de ser tão próxima de alguém novamente, e Livia apoia a decisão. “Se a própria mulher quiser ficar sozinha, não há problema. Nossa vida é feita de escolhas, não precisamos nos perturbar com o que as outras pessoas nos impõem, e sim analisar o que é melhor para nós”, explica a psicóloga.

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