
A relação das mulheres com a própria imagem tem ultrapassado o espelho e alcançado o ambiente digital. Impulsionada pela exposição nas redes sociais, a autoimagem passou a influenciar escolhas cotidianas, inclusive decisões simples, como publicar ou não uma foto.
Nesse contexto, um levantamento da GoldIncision, realizado com cerca de 500 mulheres, aponta que 41% já deixaram de publicar uma foto por causa da celulite.
A percepção também muda conforme o meio: 62% afirmam notar mais o aspecto da pele em imagens do que diante do espelho, enquanto 48% dizem avaliar o corpo antes de postar.Além disso, 36% relatam aumento do incômodo após comparações com outras mulheres nas plataformas digitais.
Embora não tenha caráter científico, o levantamento sugere um padrão: a percepção surge na imagem, se intensifica na análise e ganha força na comparação.
Especialistas apontam que a mudança não está no corpo, mas na forma como ele é visto. O médico Roberto Chacur, que atua na área de tratamentos corporais, observa esse comportamento com frequência no consultório.
“Eu vejo pacientes que sempre tiveram celulite e passaram a se incomodar mais depois que começaram a se ver em fotos. A imagem congela o corpo, aproxima, evidencia textura. O que no movimento não chama atenção, na foto ganha outro peso.”
Segundo ele, o ambiente digital altera parâmetros de referência. “A celulite não aumentou. O que aumentou foi o nível de observação. A mulher se vê parada, ampliada, e passa a usar essa imagem como parâmetro. Isso muda completamente a percepção.”
Para o especialista, esse processo desloca o foco do desconforto. “A frustração deixa de estar só no corpo e passa a estar na expectativa. A referência deixa de ser o corpo real e passa a ser uma imagem construída.”
A médica Nívea Bordin Chacur, à frente do Grupo Leger, também identifica esse padrão na prática clínica.
“Muitas mulheres relatam que não se incomodam no dia a dia, mas passam a se incomodar quando se veem em uma foto. Isso mostra que a percepção não é contínua. Ela depende do contexto.”
Ela destaca ainda que o tema ultrapassa a estética e entra no campo comportamental.
“Se a imagem interfere em decisões simples, como publicar ou não uma foto, estamos falando de comportamento. E comportamento impacta diretamente a forma como a mulher se relaciona com o próprio corpo.”