Em seu livro, Julie Goldchmit, busca conscientizar para inclusão de autistas e PCDs no mercado de trabalho
Fabio Melo
Em seu livro, Julie Goldchmit, busca conscientizar para inclusão de autistas e PCDs no mercado de trabalho










O Brasil apresentou em 2021 um déficit de 46% no preenchimento de vagas de profissionais portadores de deficiência, segundo o Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho (RADAR SIT). Isso significa que dos 774.695 postos reservados para Pessoas com Deficiência (PCDs) e/ou reabilitadas pelo INSS, somente 418.138 foram preenchidos. Dentro do grupo de PCDs estão inclusos os profissionais com Transtorno Espectro Autista (TEA), tema que em abril ganha luz com as ações do Dia Mundial de Conscientização do Autismo (dia 2), dando origem a campanha do Abril Azul.

Os desafios para conseguir oportunidades no mercado de trabalho, a importância e os benefícios da inclusão de PCDs para as empresas e a sociedade, são os temas abordados no livro ‘Imperfeitos: Um relato íntimo de como a inclusão e a diversidade podem transformar vidas e impactar o mercado de trabalho’, de Julie Goldchmit, profissional autista que atua como assistente de marketing em uma empresa multinacional. 

“Quando eu nasci, os médicos disseram aos meus pais que eu jamais seria capaz de andar, falar ou me desenvolver. Hoje, aos 25 anos, eu trabalho, estudo idiomas, amo ler livros e estou sendo preparada para ser analista na empresa onde trabalho. Eu a prova que nós, PCDs, somos capazes de somar e muito com a sociedade, desde que tenhamos a oportunidade”, diz.  


O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) de Julie só veio aos 15 anos, e além das dificuldades de aprendizagem, teve que conviver com bullying, exclusão e assédio no ambiente de trabalho – temas que são contados e debatidos no livro. 

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“Mesmo com os desafios, aprendi a tamanha importância de sermos protagonistas da nossa própria história. Acabei me tornando um símbolo e minha missão hoje é contribuir para gerar uma mudança efetiva na sociedade e torná-la mais inclusiva. Eu quero que as pessoas tenham a mesma oportunidade que eu tive e que, um dia, elas possam viver em um mundo onde sejam livres para ser quem são”, diz a escritora.

Ao longo das 192 páginas, Imperfeitos discute ainda o papel da família na inclusão social, o assédio e a discriminação no mercado de trabalho, a importância de programas de aprendizagem para a inclusão nas empresas e como a diversidade é benéfica para o mercado de trabalho, dando chance para que negócios aumentem não só seus lucros, mas também estimulem e priorizem sua cultura organizacional. A obra segue a diagramação recomendada por especialistas em acessibilidade e inclusão, com letras grandes, fonte serifada com o intuito de facilitar a leitura, texto justificado e cores em preto e branco.

Confira a seguir a entrevista que Julie Goldchmit e seus pais, Mauro e Dafne, concederam por e-mail ao iG Delas.

DELAS : Em primeiro lugar gostaria saber como foi o processo de escrita do seu livro e como foi esse processo criativo, o que você pretendia quando concebeu o "Imperfeitos".

JULIE GOLDCHMIT : "Do início até o lançamento foi praticamente um ano dedicado a esse projeto, que contou com o envolvimento da minha editora, a Maquinaria, minha família e profissionais especializados da área de inclusão. O livro foi baseado no meu diário, onde escrevi toda a minha experiência profissional e desafios enfrentados para a inclusão no mercado de trabalho, e coisas boas e ruins que aconteceram comigo. Esse diário foi apresentado para a minha editora e juntos construímos um trabalho de equipe que envolveu mais de 20 profissionais.

O livro conta com o meu relato pessoal, mas não só isso. A gente queria que o livro aprofundasse no tema, por isso contamos com a participação de psicólogos da área, ativistas, especialistas em inclusão, de colegas do meu trabalho e chefes que participaram desse processo. Tem também muitos dados, que ajudam as pessoas a se informarem sobre o autismo e PCDs. O objetivo é contar o meu olhar, mas trazer também um panorama da inclusão das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), na sociedade, vida escolar e principalmente o mercado de trabalho no Brasil".

DELAS - O espectro autista costuma ser muito associado ao sexo masculino. Ao mesmo tempo, pessoas diagnosticadas tardiamente relatam que muitas vezes tiveram de consultar vários profissionais até receber uma resposta. Como foi esse processo pra Julie e para família?

MAURO E DAFNE GOLDCHMIT - "A Julie sempre teve pequenas questões que os psicólogos e neuropediatras da época não conseguiam reunir e enquadrar no diagnóstico do Transtorno de Espectro Autista. Até que aos 15 anos um psiquiatra pediu uma avaliação específica com uma neuropsiquiatra. Foi através desse teste que foi possível diagnosticar alguns pontos que se encaixavam no Espectro Autista.

Para a Julie esse diagnóstico não mexeu com seu emocional ou dia a dia, fomos mais nós, os pais que sentimos essas mudanças. Com o diagnóstico correto, nós passamos a adaptar a rotina dela em cima do que ela realmente precisava. Então, por exemplo, antes ela tinha muitas aulas extras para desenvolver o pedagógico que ela não conseguia acompanhar na escola, com a vinda do diagnóstico nós adaptamos essas aulas ao que ela realmente tinha necessidade e assim, a vida dela passou a ser mais tranquila.

Para nós, os pais, descobrir o diagnóstico foi um alívio. Nós tivemos então uma compreensão da nossa realidade, o que nos ajudou a buscar formas para lidar com essas questões, trouxe um norte para adaptar as necessidades da Julie ao que ela realmente precisava, tanto em questões de currículo pedagógico quanto pessoais".

DELAS - Hoje o TEA é mais debatido e já temos séries com personagens no espectro, algumas com atores neuro típicos fazendo papel de autista (The Good Doctor,  Atypical) e outras com pessoas com TEA  (Amor no Espectro, As We See It). Você costuma assistir a essas séries? Gosta? O que acha de atores não autistas interpretando alguém no espectro?

JULIE GOLDCHMIT - "Eu assisto e gosto dessas séries. Eu não vejo problemas de atores não autistas interpretarem esses personagens, desde que eles realmente entrem na pele do autista e entendam como nós nos comportamos, nossas questões.  É importante que o ator se coloque no lugar do outro. Eu me identifico com o ator do Atypical (Keir Gilchrist), acredito que ele fez uma boa representação e realmente ‘vestiu’ a camisa para interpretar um personagem com o TEA (Transtorno do Espectro do Autista)".

DELAS - Para terminar, gostaria de saber sua opinião sobre o que pode ser feito em termos de acessibilidade/inclusão para autistas e outras pessoas PCD em espaços públicos e mercado de trabalho. 

JULIE GOLDCHMIT - "Eu não tenho muita experiência ou dimensão dentro do assunto da acessibilidade para os autistas em espaços públicos, mas dentro do meu lugar de luta que é a questão da inclusão das pessoas com TEA (Transtorno do Espectro do Autista) dentro do mercado de trabalho. Existem algumas medidas que eu posso dizer, e pelas quais luto, que melhoram essa inclusão.

As empresas precisam entender que cada colaborador tem necessidades específicas e assim, criar processos de inclusão nas empresas. Isso envolve observar as necessidades de cada profissional, valorizar e reconhecer as suas habilidades e haver um acompanhamento no dia a dia desse colaborador para a empresa extrair o melhor dele.

Assim como qualquer pessoa que está começando em um trabalho novo, o profissional PCD também vai precisar de tempo para se adaptar as novas atividades, espaço, equipe e ambiente. Não adianta só abrir as vagas. É necessário que as empresas realmente ofereçam um ambiente saudável para o crescimento do profissional. Nós não queremos apenas entrar nas empresas, mas assim como qualquer outro funcionário, queremos oportunidades de crescimento, de promoções e de desenvolvimento dentro desse emprego".

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