O caso da psicóloga Karen Tannhauser, desaparecida e depois localizada no porta-malas de um carro, acende o alerta contra a doença

A psicóloga Karen Tannhauser (esquerda) assustou os familiares com seu desaparecimento. Ela sofre de depressão e estaria apresentando comportamento agressivo
Reprodução/Flickr
A psicóloga Karen Tannhauser (esquerda) assustou os familiares com seu desaparecimento. Ela sofre de depressão e estaria apresentando comportamento agressivo
Na tarde do dia 31 de dezembro, a psicóloga Karen Tannhauser, de 37 anos, foi deixada em casa pelo namorado, no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. Ficou três dias desaparecida, quando finalmente foi encontrada dentro do porta malas do carro da síndica, na garagem do edifício onde mora, em estado de choque.

Segundo os policiais que investigaram o caso, a moça ficou perambulando pela garagem até entrar no carro, na tarde em que foi encontrada. Ao ser resgatada, ela estaria completamente suja e muito perturbada, inclusive se comportando de forma agressiva.

Durante as apurações, a Polícia Civil recebeu informações de que a psicóloga é uma pessoa fechada, sofre de depressão e vinha tomando medicamentos para tratar o problema. O namorado de Karen, que é médico, confirmou que ela estava deprimida havia duas semanas. Ela também havia escrito um bilhete de despedida em sua agenda: "Eu não me acho no direito de ser feliz. Mas não levo ninguém junto. Vivam suas vidas e nunca se culpem".

Assim como Karen, pelo menos 121 milhões de pessoas sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Até o ano de 2030, a depressão se tornará a segunda doença incapacitante (pelo menos temporariamente, enquanto não for tratada) mais recorrente do mundo, atrás apenas da aids, de acordo com o estudo Global Burden of Disease, promovido em conjunto pela OMS, a Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard e o Banco Mundial.

Também é fato que a depressão é duas vezes mais frequente entre mulheres do que homens – 9% delas contra 4% deles sofrem com a doença, de acordo com estatísticas mundiais. Fatores biológicos, hormonais e psicossociais colaborariam para essa diferença.

Não é só tristeza

Muita gente confunde depressão com tristeza. “A tristeza faz parte da condição humana, todos nós sentimos”, diz o psiquiatra Marcos Pacheco Ferraz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E tristeza geralmente tem uma causa definida – uma perda, uma decepção, um problema familiar -, tem duração limitada e não afeta a auto-estima e os hábitos cotidianos.

“Depressão é doença, cujo agente causador não conhecemos com clareza”, reforça o especialista. É um estado emocional de negatividade que se prolonga por meses, no qual se destacam sentimentos pessimistas diante da vida (culpa, desesperança, pensamentos ligados à morte), perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas, assim como queda de autoestima e autoconfiança. 

Podem aparecer também dificuldades de concentração e de tomada de decisões, distúrbios do sono, falta de energia (cansaço permanente), desleixo com aparência, desajustes alimentares (diminuição ou aumento do apetite), confusão mental, irritabilidade e agressividade.

Com tudo isso, o comportamento do deprimido pode se alterar ainda mais. E as reações no dia a dia acabam variando de acordo com a personalidade prévia da pessoa, que vai reagir segundo seu temperamento. Por exemplo: se você é tímida e apresenta um quadro depressivo, a tendência é fugir ainda mais do convívio social; se é explosiva, pode se manifestar agressivamente diante de uma cobrança pelo baixo rendimento no trabalho. É bom lembrar que os quadros podem ser leves, moderados ou graves.

Não passa sozinho

“Quando uma pessoa tem febre, não adianta você apenas querer que a temperatura baixe. Com a depressão é a mesma coisa”, compara Marcos Ferraz. Ou seja, as batidas frases de “estímulo” do tipo “tenha um pouco de força de vontade”, “vamos passear no shopping que melhora”, “você tem uma vida tão boa, está com depressão por quê?” ou “se ocupe com outras coisas que você não terá tempo de pensar em bobagens” não resolvem.

“Muitas vezes o cônjuge do paciente me procura e sugere fazer uma viagem para tirar o parceiro daquele estado. Costumo dizer que a depressão também compra passagem. Não é assim que se resolve o problema”, diz o psiquiatra Marcos Ferraz.

O tratamento da depressão geralmente envolve remédios e terapias. É preciso ter paciência tanto por parte do doente quanto de seus familiares e amigos. Afinal, os medicamentos costumam começar a fazer efeito após 15 ou 20 dias. E quanto antes se iniciar o tratamento, melhor. “Se você não afasta o paciente com alguma rapidez desse quadro, pode acabar gerando outros problemas nos relacionamentos e na vida profissional”, completa o professor da Unifesp.

Cão que ladra, morde

É importante que a família fique atenta ainda ao comportamento do deprimido e se envolva no tratamento. E fique alerta em relação à sua segurança, especialmente em casos mais extremos, quando o paciente começa a dizer que não vê sentido na vida ou tem pensamentos relacionados à morte. “Em se tratando de depressão, cão que ladra, morde”, avisa o especialista.

A boa notícia é que depressão tem tratamento. Ao notar sinais da doença – especialmente apatia, perda de energia e de prazer em atividades antes apreciadas -, procure ajuda. O ombro amigo dos familiares e conhecidos pode ajudar, mas só uma intervenção especializada – com indicação inclusive do medicamento mais adequado ao seu caso – a ajudará a enfrentar e vencer o problema.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.