Você sofre da “Síndrome da Mãe Perfeita”?

Cuidado: a ânsia de perfeição pode acabar pondo em risco o desenvolvimento dos seus filhos e o seu próprio equilíbrio

Renata Losso, especial para o iG São Paulo | 03/12/2010 16:24

Compartilhar:

Que os filhos devem ser prioridade na vida de uma mãe, disso não há dúvidas. Mas quando a vontade de sair para fazer as unhas se torna quase impossível de ser atendida – por razões que vão desde falta de tempo ao sentimento de culpa por deixar o filho em casa –, pode ser que a tal prioridade esteja mais para exclusividade, e que a “Síndrome da Mãe Perfeita” já tenha invadido a rotina materna. Prioridade e exclusividade são bem diferentes. E, de acordo com a psicoterapeuta Denise Pará Diniz, Coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp, dedicar-se por tempo integral aos pequenos não é necessário – nem indicado.

“É preciso tratá-los com prioridade, principalmente nos primeiros anos, mas não se pode esquecer que os filhos também precisam conhecer a mãe como uma pessoa real, que possui qualidades, desejos e necessidades pessoais”, diz Denise. No entanto, por nem sempre ser fácil manter esse equilíbrio, é comum encontrar mães que organizam o dia a dia sempre em razão das atividades dos filhos e, entre elas, há até mesmo as que se esquecem ou acabam deixando de lado os papéis anteriormente desempenhados, como o de esposa e de profissional, por exemplo.

Há aquelas que procuram controlar todas as variáveis da vida para que o filho tenha tudo em mãos e não sinta falta de nada, mesmo quando a criança já está mais velha, e aquelas que, mesmo com os filhos mais crescidinhos, acabam deixando muitas outras atividades de lado por preocupação e sentimento de culpa. Estas atitudes, se não forem policiadas, podem gerar diferentes complicações na vida do filho. E também na vida da mãe.

Foto: Fabio Guinalz/AgNews

Heliana brinca com Brunna e Lívia: "não deixava a babá fazer nada"

Dedicação em xeque

De acordo com a antropóloga Gilda de Castro Rodrigues, autora do livro “O Dilema da Maternidade” (Editora Annablume), há muitos aspectos positivos trazidos pela maternidade. Mas um negativo pode ser crucial: a patrulha social. “A sociedade fica vigilante para qualificar as mães como boas ou ruins, e isso causa uma enorme angústia”, explica. Além disso, na maioria das vezes, o vínculo entre mãe e filho é muito forte e incondicional, e por serem elas as principais responsáveis pelo processo de socialização da criança, já é possível imaginar o quanto algumas acabam exigindo de si mesmas. No caso de Heliana Gabriel da Cunha, 41 anos, não há arrependimento na dedicação.

Mãe de Brunna e Lívia, de 10 e três anos, respectivamente, Heliana deixou de trabalhar quando recebeu o pedido da mais velha para que ficassem mais tempo juntas. “Ela ficava com a avó e eu a buscava depois do trabalho, então acabava participando pouco da vida dela”, conta Heliana. Atualmente, já não é o que acontece: “Eu praticamente vivo em função delas. Até arrumei uma babá quando a mais nova completou nove meses, mas sou eu que tenho que dar banho, dar comida, não saio de perto nenhum minuto. A babá acaba servindo para alguma possível emergência. Não as deixo sozinhas nunca, só quando elas vão para a escola”.

Embora faça tudo isso com satisfação, Heliana confessa que passou os últimos três anos sem dormir uma noite inteira. Sua filha mais nova sempre teve o sono muito inquieto e, se ela chora, a mãe precisa estar por perto. “Eu durmo com a babá eletrônica ao lado e qualquer barulhinho que ouço vou correndo até ela, com medo de que esteja vomitando”, explica. E ela nem é a primeira filha: “Dizem que segundo filho é mais fácil, mas para mim as duas estão sendo da mesma forma. Sou um pouco neurótica, mesmo”, admite.

Fantasia e exagero

Mas, para a psicoterapeuta Denise Pará Diniz, é realmente no início da criação do primeiro filho que mora o maior perigo. “É quando você começa a aprender a ser mãe, então a mulher pode ficar excessivamente preocupada”. Segundo Heloísa Schauff, psicóloga clínica especialista em Terapia de Casal e Família, é comum que as mães de primeira viagem fantasiem que tudo seja perfeito e acabem não conseguindo distribuir o tempo e atenção entre outras funções, além das que exigem os filhos. “Não é exatamente o desejo de ser perfeita, é um sentimento de não se achar boa o suficiente, de não estar fazendo o melhor que pode”, explica. E isso pode acontecer tanto para a mãe que não trabalha fora de casa quanto para a que trabalha.

Foto: Fabio Guinalz/AgNews

Alice e a mãe, Paula, assistem TV: "quero que ela cresça e seja feliz, mas ao mesmo tempo tenho vontade de não soltá-la mais"

“Para quem vive em cidade grande, por exemplo, sempre haverá a sensação de pouco tempo com a criança pela correria do dia a dia, mas é preciso lembrar-se dos limites que a mãe precisa ter”, recomenda a especialista. O conselho também é válido para as mães que estão sempre à disposição dos filhos – e acabam passando da conta. De acordo com Schauff, conforme a criança vai crescendo e adquirindo maior autonomia, algumas utilidades que a mãe possuía antes vão ficando para trás. “Apesar de sermos mães a vida inteira, independentemente dos outros papéis que estejam sendo desempenhados, é preciso permitir que a criança também experimente e amadureça”, explica.

É o que procura alcançar a professora Paula Belmino, de 35 anos. Há quatro anos cumprindo o papel de mãe de Alice com esmero, Paula conta que até hoje ainda fica ao lado da filha até que ela adormeça e, quando a deixa na escola, sofre até de taquicardia por medo do que pode acontecer enquanto estão separadas. “Ao mesmo tempo em que quero que ela cresça e seja feliz, também tenho vontade de querer grudar e não deixar mais crescer”, confessa. A filha se faz presente até nos momentos que ela tem para si só: “Eu me martirizo por sair sem ela. Quando vou ao shopping, por exemplo, ao invés de comprar coisas de que preciso, compro tudo para ela. Acho que toda mãe é um pouco louca”, observa.

Limite para o filho, limite para a mãe

E as crianças, o que ganham com a “Síndrome da Mãe Perfeita”? Nada de muito bom. “Se a mãe é muito permissiva e mima demais os filhos, eles crescem sem saber lidar com frustrações e têm dificuldades maiores que as outras crianças para lidar com as regras fora de casa”, diz Schauff. Se a criança não enfrenta estes desafios ainda dentro de casa, pode se acostumar a obter tudo como quer – e não é bem isso que acontece fora de casa. Na escola, por exemplo, ela tem que aprender a esperar sua vez e a dividir a atenção da professora com os colegas. O mesmo efeito de despreparo infantil pode acontecer se a mãe nunca sair de perto: “A criança vai precisando de outras relações e outras vivências em que sinta que faz as coisas por si só e se supera por si só”, completa Denise.

O mesmo problema pode acontecer com as mães. A mulher que fica cada vez mais em casa com os filhos – ao invés de assumir outras atividades à medida que eles vão crescendo – também pode estar com dificuldades para ter outras vivências, como voltar ao trabalho, e se adaptar a elas. Mas é preciso prestar atenção para certificar-se de que ser mãe em período integral é um plano pessoal, não apenas um esforço para seguir um valor cultural. “Se ela se organizou e quer viver aquilo, não faz mal. O que faz mal é passar dos limites e ter somente isso de dedicação exclusiva”, explica a psicoterapeuta.

Há também o caso de mães que, por terem questões mal-resolvidas com o trabalho ou com o marido, por exemplo, acabam focando somente na maternidade e tornam os pequenos o único mundo a ser vivido – um grande peso e até uma injustiça com a criança. “Por essas e outras que o comportamento de mãe e filho deve ser observado: se a mãe está mais depressiva e cansada e se o filho anda muito egocêntrico, birrento e sem amigos”, explica a psicoterapeuta.

A principal questão a ser esclarecida, porém, é de que a perfeição não existe. Segundo Schauff, o que mais importa é a qualidade do tempo passado com o filho, e não necessariamente a quantidade. “Existe o melhor que a gente pode dar e a necessidade do olhar com parcimônia: é importante ter o tempo para si mesmo, para a relação conjugal, e transitar com saúde e qualidade em todas as esferas. Só assim a criança verá a mãe feliz e satisfeita, o que é muito importante de ser notado”, explica a psicóloga. A partir da percepção de que não há exatamente uma medida ideal, é possível libertar-se das próprias expectativas exageradas e fazer o que é possível pelos filhos, acompanhando-os sempre com carinho e afeto, ultrapassando as fantasias para se tornar uma boa mãe de fato.

    Notícias Relacionadas


    9 Comentários |

    Comente
    • Bergilde Croce | 06/12/2010 08:53

      Sou mãe de duas crianças(ele5 anos e meio,ela-2 e meio) e acredito ser demasiadamente imperfeita porque vivo questionando se estou certa ou errada quanto aos tantos Nãos que uso com eles por aqui! Prefiro ser assim que ser uma mãe suficientemente boa(ou good-enough mother como a chama Winnicott).
      Bom artigo,mas vejo que é somente no dia a dia que cada mãe deve saber reconhecer os próprios defeitos e ver se eles estão influenciando e como no comportamento dos próprios filhos.Não é fácil para uma mãe reconhecer que está exagerando na idealização do ser do(a) próprio(a) filho(a).Nesse caso é importante um olhar externo a essa relação que acaba por se tornar uma forma por vezes prejudicial ao desenvolvimento da criança.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Paty | 05/12/2010 12:34

      Tenho três filhos, o mais velho com dezeseis, o do meio com treze e o pequeno com quatro. Sempre passei a maior parte do meu tempo me dedicando aos meus filhos. Quando os mais velhos eram pequenos dava aulas de duas a três vezes por semana. Nos últimos seis anos tenho me dedicado integralmente aos meus filhos e percebo que , aceitam com muito mais tranquilidade regras e limites, assim como , convivem muito melhor com outras crianças, do que crianças que ficam sob o cuidado de outas pessoas. Acho mais provável, uma mãe que passa a maior parte do tempo longe dos filhos, seja pela sua profissão ou mesmo pelo desejo de um tempo para si mesma,(respeito todas as escolhas) ser mais permissiva e mimar mais os filhos do que aquela que decidiu viver em função de seus filhos.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • valéria | 05/12/2010 12:06

      Pobres de nós,mães,por sempre sermos criticadas,se nos dedicamos totalmente aos filhos,somos mães perfeitas e acabamos "por ser neuróticas',se deixamos um pouco os filhos pra satisfazermos outras necessidades,somos mães desnaturadas,negligentes...
      UFA!!! o que será de nós...tentaremos então SER BOA O SUFICIENTE,dando aos nossos filhos
      o melhor que poderemos dar!!!

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • simy lamego | 05/12/2010 08:03

      A maternidade é muito especial, é muito bom ser mão, mas não podemos focar nossas vidas apenas na criação dos nossos filhos! Tive a sìndrome quando meu filho nasceu, ele está com 11 anos e quase meu casamento acabou, alem de ter tido um grave comprometimento na minha carreira profissional!! Hoje stou melhor, faço terapia, mas ainda falho, querendo dedicação exclusiva na vida do meu filho!!! muito bom o artigo, parabéns, grata, simy

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • MARRY HELENA | 05/12/2010 04:42

      mães devem criar filhos livres, mas com toda a informaçõa dada por ela mesmo.
      assim serão sempre amigos um do outro.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • marisa | 04/12/2010 19:21

      Achei excelente a matéria sobre a síndrome da mãe perfeita e isto me trouxe mais certeza que fiz e escolha e o caminho certo em voltar ao trabalho, em ter tempo para os meus mimos pessoais, esposo e amigos. Nos momentos em que estou com minha filha me dedico totalmente a ela e por muitas vezes a incluo em outras atividades como em minhas atividades esportivas e passeios com família e amigos.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Kika | 04/12/2010 14:40

      Este texto só reforça o machismo e a cobrança contra mulher, no tempo das nossas mães ,elas se dedicavam a nós e a mulher não era tão atuante no mercado de trabalho como hoje, ninguém ligava para quanto tempo a mãe passava com os filhos. Hoje a mulher é marginalizada por homens e por outras mulheres quando ela diz que não trabalha fora. A mulher sempre tem tripla jornada o homem uma só e porque a mulher também não pode ter só uma que é o papel de mãe?Não é fácil decidir ficar em casa ao invés de ter uma vida profissional, mas também nos dias de hoje vendo a violência contra a criança, todos os dias vemos um caso novo, o mais correto é cuidar dos filhos para que eles se tornem pessoas de caráter e tenham uma infância feliz, trabalhar fora não tem idade para ter filhos tem. Quem não quer cuidar dos filhos que não os tenha só para lustrar seu ego e ter o título de mãe. Este texto só mostrou mães neuróticas e que grudam nos filhos, não é porque se dedica aos filhos que tem que ser louca assim.Que preconceito.

      Responder comentário | Denunciar comentário
      Valéria | 07/12/2010 11:42

      Pois é o que eu fale,Kika...As mães sempre serão cobradas e criticadas,façam a escolha que fizerem...só tenho uma filha com dez anos e ainda tenho vontade de ter outro filho,mas,
      quando vejo as barbaridades que acontece quando se entrega um filho aos cuidados de terceiros,desisto...Também não posso me dar ao luxo de largar meu emprego.E nessa luta entre razão e emoção,decidi "adormecer' meu desejo de ter outro filho.

      Denunciar comentário
    • Sueli | 04/12/2010 13:20

      Achei muito bacana esse assunto, eu sou mãe de duas crianças, um menino de 11 anos e de uma menina de 4 anos. Trabalho fora e atualmente to de férias, e percebo que eles querem chamar a minha atenção a todo momento. Talvez por não ficar todos os dias o dia inteiro com eles. Ai lendo sobre este assunto, eu fico pessando será que eu sofro da Síndrome da Mãe Perfeita? Eu tenho medo que eles sofram ou que passem por problemas que não consigam resolverem no futuro, pois agora eu faço que posso para eles viverem da melhor maneira possivel.

      Responder comentário | Denunciar comentário

    Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




    *Campos obrigatórios

    "Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"

    Ver de novo