Especialista do riso explica como a prática da gargalhada pode melhorar o rendimento escolar, as relações entre alunos e até a vida familiar

Riso: arma poderosa contra o bullying reforça as relações sociais infantis
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Riso: arma poderosa contra o bullying reforça as relações sociais infantis
Como seria melhor começar um dia escolar: com aulas de matemática ou com sessões de riso em grupo? Se o seu filho prefere a segunda opção, ele não está sozinho. É o que pensa o fundador do Espaço do Riso e do Clube da Gargalhada de São Paulo, Marcelo Pinto, também conhecido como Dr. Risadinha e criador do programa “InseRIR nas Escolas”. A meta do projeto é colocar o riso dentro da educação. Segundo ele, esta proposta começou na Índia em 1995 e hoje já está presente em mais de 60 países. “O objetivo é despertar a consciência das pessoas para a importância do riso”, afirma. E colocar crianças que acabam de entrar no Ensino Fundamental a par disso é o primeiro passo.

“Nesta idade as crianças estão mais dispostas a rir”, explica. Por isso, inserir brincadeiras e jogos no ambiente pedagógico, além de estimular o riso em grupo, são algumas das atividades do programa criado por Marcelo, que está para ser apresentado para a Secretaria da Educação. “No início das aulas, a proposta é formar um círculo e induzir todos à risada, para que todos riam coletivamente”, diz. Mas como isso irá mudar o dia a dia escolar? O Delas conversou com o Dr. Risadinha e descobriu o que está por trás do riso.

iG: Como surgiu e qual o objetivo do programa InseRIR nas Escolas?
Marcelo Pinto: Dizem que a criança ri em média 300 vezes ao dia e o adulto, 17 vezes. E nós vemos que atualmente o riso está em crise, tanto que a depressão é a doença do século e as pessoas estão rindo muito pouco. Com isso, fiquei pensando: como será que conseguiríamos fazer com que os adultos rissem um pouco mais, tanto quanto as crianças? Para chegar a esse ponto as pessoas teriam que crescer com a consciência dos benefícios que o riso traz. Mas para isso teríamos que desenvolver um trabalho de concentração com crianças, e daí surgiu a ideia de inserir o riso na escola, para que elas cresçam com essa consciência da importância do riso. O riso também ajuda no processo de conhecimento, já que uma aula dada com alegria consegue prender a atenção do aluno com mais facilidade e o ajuda a reter melhor o conhecimento. É uma técnica que professores de cursinho pré-vestibular utilizam com maestria, e funciona.

Marcelo Pinto, o Dr. Risadinha
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Marcelo Pinto, o Dr. Risadinha
iG: E como você acha que o riso pode influenciar o comportamento das crianças, dentro e fora da escola?

Marcelo Pinto: O riso traz benefícios tanto físicos como psicológicos, desde estimular o organismo a liberar endorfina até promover o estreitamento das relações com os professores e os colegas de classe. E o riso é contagiante, então queremos despertar a consciência para isso. É uma forma generosa de partilha social. Com rápidas sessões de gargalhada na escola, por exemplo, o riso ajudará a criança a relaxar e a começar o dia acadêmico mais leve, mais entrosada, se sentindo parte do grupo. E o professor que souber usar essa interação conseguirá captar a atenção delas com mais facilidade. Com o riso em coletividade, a criança percebe que as relações dela com os outros melhoram e se torna uma pessoa com autoestima maior. Há relatos de que o riso na educação reduz a taxa de absenteísmo escolar e a taxa de “presenteísmo” escolar, que é a criança que está na classe apenas fisicamente, mas com a cabeça em outro lugar. O riso faz com que ela tenha uma predisposição maior para aprender, já que ela começa a perceber como isso é gostoso. É o chamado riso cognitivo, o famoso “eureka!”: quando você consegue um conhecimento novo, a primeira reação é o sorriso.

iG: Quais as atitudes que os professores devem ter com seus alunos para que o riso ajude a melhorar o relacionamento em sala de aula?
Marcelo Pinto: O riso não tem cor, não tem sexo ou classe social, então ele nivela aluno e professor também. Quando você ri junto com o professor, está todo mundo no mesmo nível. O que é um desafio neste programa é que algumas escolas ainda cobram uma postura autoritária dos professores, para não perder o respeito. Mas a partir do momento em que o professor entende que é justamente o contrário, por que não se divertir com as crianças enquanto elas recebem conhecimento? O que ele precisa é saber estabelecer os limites, a hora do silêncio e do estudo, e as crianças vão se relacionar melhor com os professores mais bem-humorados. O professor nunca deve obstruir o riso: quando a criança ri, ele não pode ceifar isso. Ele deve entender e aceitar que o riso faz bem e aprender a estabelecer os limites de maneira adequada, sem inibir a postura da criança. Então, se eu faço sessões de gargalhada, o professor tem que estar rindo junto das crianças. Estamos habituados a entender a sala de aula como um lugar de silêncio e seriedade, mas isso está ultrapassado e se mostra ineficaz muitas vezes.

iG: Você acha que o riso pode diminuir a ocorrência do bullying?
Marcelo Pinto: O bullying é algo muito abrangente e não está ligado somente ao psicológico. Mas o riso pode, sim, ajudar a reduzi-lo. O problema, na verdade, sempre esteve presente, mas o termo acabou ficando famoso e as pessoas estão tomando mais conhecimento dele atualmente. O bullying nada mais é do que uma violência gratuita e repetitiva para com quem não sabe se defender. Mas é possível fazer com que a criança perceba o mal que determinadas brincadeiras podem causar. O riso, dependendo de como é demonstrado, pode ser também uma forma de bullying: é aquele riso depreciativo, malicioso. Quando tratamos essa relação, conseguimos lançar um dos valores do Espaço do Riso: é preciso rir com as pessoas, e não das pessoas. Também devemos refletir sobre a questão de rir de si mesmo. Quando isso acontece, conseguimos nos distanciar do problema que está acontecendo. Tanto que vira e mexe falamos: “a gente ainda vai rir muito disso”. Se a criança que for alvo de bullying tiver a oportunidade de fazer essa reflexão, de que é importante rir de si mesma também, ela vai entender a atitude dos que tiram sarro dela como algo desprezível e sem caráter, o que fará com que ela aumente sua autoestima e saiba que as pessoas são diferentes umas das outras. E elas precisam ser mesmo diferentes enquanto cada um deve respeitar as diferenças dos outros: é com grupos diferentes que podemos ter uma diversidade muito rica de atitudes e ideias.

iG: E os pais, como podem usar o riso para melhorar a relação com os filhos?
Marcelo Pinto: Primeiramente, os pais devem entender que a família é o principal bem. Porque é muito comum o marido ou a esposa voltar para casa depois de um dia de trabalho e soltar os cachorros em cima da família, tratá-la a pontapés, mas é preciso começar a ter consciência de que o filho vem em primeiro lugar e de que ele é o reconhecimento de uma boa educação. É necessário cultivar alguns hábitos, como almoçar ou jantar com toda a família unida, procurar saber como foi o dia de cada um, o que houve de divertido na escola. Os pais nunca perguntam se teve algo divertido: então a criança passa seis horas dentro da escola sem expectativa nenhuma de se divertir? É preciso refletir sobre esse conceito para que as crianças passem a rir mais também quando adultas. Isso vai se refletir no emprego, no humor, nos relacionamentos. Por essas e outras, os pais devem dar uma resposta positiva em relação ao riso para os filhos. Hoje em dia a gente só cobra das crianças e não reconhece o que elas conquistam, por isso é preciso estimular o riso. E, se não for possível, que pelo menos não haja boicote a ele.

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