Em entrevista, a “Supernanny” Cris Poli explica porque seu maior desafio é mudar os adultos e ensina como lidar com a birra sem bater

Cris Poli:
Decio Figueiredo
Cris Poli: "pais têm muito dificuldade em assumir a autoridade"
A criança quer um brinquedo. A mãe fala que não pode. O pai fala que pode. No final, o filho acaba em um pingue-pongue – e os pais, em uma enrascada. Este é o mecanismo desvendado pela educadora Cris Poli, a “Supernanny” brasileira, em seu livro “Pais Responsáveis Educam Juntos“ (Mundo Cristão), lançado este mês.

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Em seu programa no SBT, a pedagoga já atendeu 105 famílias desesperadas com o mau comportamento das crianças. Uma delas pegou uma faca de cozinha para ameaçar os pais ao ouvir um “não”. Segundo Cris, os pais precisam descobrir em conjunto que tipo de educação querem dar aos filhos. E, acima de tudo, precisam ter convicção de sua escolha e perder o medo de assumir a autoridade. Confira a entrevista concedida ao Delas.

iG: Como os pais podem educar os filhos juntos? E quando há um impasse?
Cris Poli:
Pais com o mesmo olhar sobre a educação conseguem um resultado de comportamento mais rápido do que aqueles com opiniões divididas. O segredo é conversar sobre a educação que eles gostariam de dar para seus filhos. Parece meio óbvio, mas não é. Eles devem conversar sobre as experiências individuais, sobre a educação de cada um deles, o que pode ser aproveitado e mudado. Nenhum dos dois pode impor sua visão à força.

iG: E quando os pais não concordam, qual o impacto sofrido pelas crianças?
Cris Poli:
Elas ficam confusas, não sabem que direção tomar. O pai fala ‘branco’ e a mãe fala ‘preto’. A criança fica no meio da duplicidade de opinião e se inclina para aquilo que convém no momento. Se ela quer sair sem hora para voltar, vai pedir a um dos pais que a deixe fazer isso. A criança não aprende o que é certo e o que é errado. Ela aprende só o que convém.

Vi crianças pegarem uma faca da cozinha para ameaçar o pai e a mãe por eles terem dito ‘não’

iG: Quais os maiores erros que os pais cometem com relação à disciplina dos filhos?
Cris Poli:
Hoje em dia, os pais têm muita dificuldade em assumir a autoridade. Têm muitas dúvidas, estão inseguros. Acham que os filhos não vão gostar deles se eles disserem ‘não’. Há muita dificuldade em colocar limites e dizer ‘não’. Alguns pais não sabem bem como colocar limites, pois tem pouco tempo para ficar com os filhos. Voltam do trabalho cansados e acham que não devem ficar falando ‘não’. E ainda deixam o filho fazer o que quer. São coisas muito sérias e preocupantes. Com isso, estes pais acabam vendo em seus filhos comportamentos que eles não suportam.

iG: Como mudar essa situação?
Cris Poli:
Vi crianças pegarem uma faca da cozinha para ameaçar o pai e a mãe por eles terem dito ‘não’. O que fazer neste momento? É ignorar a birra e tomar a atitude com firmeza. A criança precisa entender que você não vai fazer a vontade dela. Os pais têm que tomar as rédeas da casa e assumir a autoridade. Dar limites, regras, rotinas, ou seja, assumir a responsabilidade e não a delegar para outras pessoas. Muitas crianças ficam na escola período integral ou com outras pessoas, como babás e avós. Mas os pais não podem delegar a autoridade para outras pessoas. Quando os pais entendem que o comportamento de seu filho é insuportável, precisam assumir a responsabilidade.

iG: Qual a diferença entre autoridade e autoritarismo?
Cris Poli:
Pai autoritário é déspota e arrogante, impõe a força, usa o medo, bate, grita e se descontrola. O pai que tem autoridade tem convicção daquilo que está fazendo, está no comando da situação, sabe o que é melhor para os seus filhos. Ter convicção daquilo que se está fazendo faz a diferença. Quando uma criança vê um adulto com autoridade não acha ruim, pode espernear, chorar e resistir, mas, no final, acaba acatando e gostando. Autoridade não é uma coisa ruim, autoritarismo sim.

iG: E se a convicção falhar e os pais tiverem dúvidas?
Cris Poli:
Dúvidas todos nós devemos ter. Assim como uma criança não pede pra nascer, pai não nasce sabendo ser pai. Vai aprender, vai errar e vai mudar. No momento de tomar a decisão, os pais precisam ter convicção de que aquilo fará bem para o filho. E a convicção vem a partir de conceitos. Por exemplo, se uma mãe quer que seu filho coma legumes, como ela pode fazer isso? A primeira coisa a entender é que o filho só aprenderá a partir de exemplos, então ela precisará comer legumes também. Os pais não podem impor algo que não praticam. Assim, a convicção da mãe passará para a criança.

iG: Quando o limite é apropriado e quando ele é inapropriado?
Cris Poli:
Limites precisam ser estabelecidos de maneira consciente e normal. Colocado arbitrariamente, só porque se está cansado e a criança está incomodando, é inapropriado. Um limite é colocado de maneira racional e consciente, junto com a criança, estabelecendo o que ela pode e não pode fazer. A partir dos dois anos a criança já entende o que são regrinhas. Tem uma reclamação muito comum nas famílias que é “a criança não quer guardar os brinquedos”. Eu coloco uma regrinha: “você pode brincar, bagunçar, mas quando terminar, tudo tem que estar de volta em seu lugar”, e isso é algo que sempre tem que acontecer. Em qualquer situação e dia, exijo que a criança faça isso. Ou seja, é um limite colocado de maneira consciente.

Se um dia eu chego em casa nervosa e vejo meu filho com todos os brinquedos no chão, dou um berro e obrigo ele a guardar todas as coisas de maneira autoritária e, no outro dia, entro numa boa e não falo nada sobre os brinquedos, é algo arbitrário. Ele não saberá o que quero dele, se aceito ou não que ele deixe os brinquedos espalhados.

iG: Você tem alguma dica para os pais lidarem com a birra dos filhos?
Cris Poli:
Birra e manha fazem parte do amadurecimento e do desenvolvimento da criança. Toda criança faz birra. A atitude do pai em relação a isso é que a faz parar. Se você faz a vontade da criança para ela não chorar, pode ter certeza que, em pouco tempo, ela vai fazer isso de novo. O melhor a fazer é ignorar. Quando o pai ou mãe entende que se trata de uma manha, deve ignorar e se posicionar. Falar ‘sim’ ou ‘não’ e deixar chorar, deixar se jogar no chão. A criança vai entender e vai parar.

Se acontece fora de casa, é porque a criança fez exatamente isso dentro de casa e deu certo. Quando eu falo ignorar não significa virar as costas, mas não deixar aquilo ter o efeito que a criança quer. Então o pai precisa deixar a criança chorar e tomar uma atitude. Se estiver em casa, levá-la até o cantinho da disciplina e explicar a ela o porquê de ela estar lá. Se você corta a birra, toma uma atitude firme a respeito, ela não terá continuidade. Entrei em casas com sofás esfaqueados, boxes de banheiros arrebentados por crianças que fizeram birra. Se não cortar, o negócio fica cada vez pior!

iG: Por que os pais custam a admitir que são eles os responsáveis pelo comportamento de seus filhos?
Cris Poli:
Não gosto de usar a palavra ‘culpa’, pois acredito que nenhum pai faz mal aos filhos de propósito. Mas a educação e o comportamento insuportáveis são uma consequência de atitudes que os pais tomaram ou deixaram de tomar. Se consigo fazer os pais entenderem isso, as mudanças na criança acontecem rápida e facilmente. A mudança nos pais é a mudança nos filhos. Muito mais do que mudar o comportamento dos filhos, meu desafio é mudar o dos pais.

iG : Você é a favor da “lei da palmada”, que proíbe pais de baterem em seus filhos?
Cris Poli:
Não. Sou contra bater, mas não acho que com uma lei você resolverá o problema. Para mim, o mais interessante é educar os pais para eles poderem educar os filhos de maneira diferente. Como vão administrar essa lei? Vai ter inspetores pelas ruas? Não sei como o governo vai fazer isso. É possível, sim, educar sem bater. O método de disciplina usado no meu programa de TV interrompe o mau comportamento e ensina o comportamento certo com firmeza. São 105 famílias visitadas – e mais de uma centena de crianças que mudaram de comportamento.

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