Detectar a doença e iniciar o tratamento antes dos três anos aumenta chances de uma vida funcional. Veja alguns sintomas comuns

Autismo: diagnóstico antes dos três anos aumenta chances de vida funcional
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Autismo: diagnóstico antes dos três anos aumenta chances de vida funcional
Pouco contato visual, baixa interação, rejeição a toques, comportamento repetitivo, isolamento. Esses são alguns dos sinais mais comuns em crianças que sofrem de autismo. Se esses sinais forem percebidos logo nos primeiros anos de vida da criança, as chances do tratamento ter sucesso e da criança evoluir são muito maiores.

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Porém isso raramente acontece. Na maioria das vezes, esses sinais passam despercebidos nos primeiros anos de vida e as crianças autistas são encaminhadas a acompanhamento especializado quando já estão na idade escolar – período em que o tratamento se torna mais difícil.

Quanto mais cedo a criança iniciar o tratamento do autismo, mais chances ela tem de sucesso. Isso se traduz em maiores probabilidades de ter um bom desenvolvimento intelectual, podendo tornar-se mais independente e realizar conquistas como entrar na faculdade, conseguir um emprego e dirigir. Mas isso acontece apenas em 30% dos casos, segundo os especialistas. O diagnóstico precoce, que permitiria o tratamento desde cedo, pode ajudar a aumentar esse número.

Como detectar?

Diagnosticar uma criança como autista não é uma tarefa fácil. Alguns sinais são muitos sutis e podem passar despercebidos, levando os pais a buscar ajuda muito tempo depois que a doença começou a se manifestar. Além disso, existem dezenas de subtipos da doença em diferentes graus, do mais leve ao mais severo. O acompanhamento de um especialista, em longo prazo, é essencial para se ter certeza do diagnóstico.

Uma das maiores dificuldades em se diagnosticar o autismo reside justamente na falta de informação: a família geralmente não sabe quais são os sinais a que deve estar atenta e quando procurar ajuda profissional. Muitas vezes os pais subestimam esses sinais, tomando-os como coisas “típicas da idade” ou “apenas uma fase”.

Mas, de acordo com pesquisadores do Instituto Kennedy Krieger, em Baltimore, nos Estados Unidos, a maioria das crianças autistas podem ser reconhecidas logo no primeiro ano de vida. Se os pais estiverem atentos aos sinais de autismo e a criança for encaminhada antes dos três anos de idade, o tratamento será muito mais eficaz.

Dificuldade de relacionamento e tendência a se isolar são algumas das características da doença
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Dificuldade de relacionamento e tendência a se isolar são algumas das características da doença
Os primeiros sinais

O primeiro sinal é a falta de contato visual. O bebê não olha nos olhos da mãe; seu olhar fica vagando, sem se fixar. Outros sinais de alerta são a falta de resposta de bebê a estímulos do ambiente – ele não dá “tchauzinho”, não manda beijos, não se vira quando é chamado, assim como raramente sorri ou balbucia. Também é comum que uma criança autista não goste de ser tocada, esquivando-se e até mesmo tornando-se agressiva para evitar o contato físico.

Robson aponta outros sinais, como a criança preferir o isolamento e agir como se fosse surda. “Ela não responde ao próprio nome e não se importa com barulhos, além de engajar-se em comportamentos repetitivos, como mover os braços para cima e para baixo, enfileirar objetos ou olhar fixamente para objetos que giram, como rodas de carros e ventilador”.

De acordo com Ana Beatriz Freire, psicóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, a criança ainda pode apresentar “angústia em situações aparentemente normais, dificuldades frente a mudanças, rigidez corporal, pouca expressão de dor, auto-agressão e agressão aos outros que o cercam”.

É importante notar que esses sinais são comuns em autistas, mas não é necessário apresentar todos para ter a doença. Tampouco a criança que apresenta alguns desses aspectos é autista. É preciso ficar atento à frequência com que ocorrem e procurar um especialista para que o diagnóstico seja feito.

15 sinais comuns do autismo

1. Pouco ou nenhum contato visual
2. Dificuldade de relacionamento e tendência ao isolamento
3. Aversão ao contato físico, reagindo muitas vezes com agressividade
4. Repetições de sílabas ou palavras isoladas e sem contexto
5. Manipulação de objetos fixos e circulares, aparentemente sem finalidade
6. Rodopios com o corpo ou membros como os braços
7. Risos e gritos inapropriados
8. Observação fixada em máquinas e aparelhos domésticos que se movimentam e rodopiam, como ventiladores e motores em geral
9. Aparição de angústia em situações aparentemente normais
10. Dificuldades frente a mudanças e de ser contrariado
11. Pouca expressão de dor
12. Cheirar ou lamber os brinquedos, fixação inapropriada em objetos
13. Insistência em repetição, resistência à mudança de rotina
14. Age como se estivesse surdo, não respondendo a comandos ou não atendendo ao próprio nome
15. Auto-agressão e agressão aos outros que o cercam

Sucesso do tratamento

O autismo não tem cura. Mas um autista pode se desenvolver, tornar-se independente e se relacionar com outras pessoas, embora seja preciso um tratamento demorado – em muitos casos, para a vida toda – e levado a cabo por uma equipe multidisciplinar. Psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, médicos e profissionais da educação são alguns dos especialistas que fazem parte da equipe.
Um dos fatores responsáveis pela vantagem do tratamento precoce é a plasticidade do cérebro, mais apto a se adaptar até os três anos da criança, a partir dos estímulos recebidos. Assim, quanto mais estímulos a criança autista receber nessa fase, mais ela poderá se desenvolver.

Outro é que, depois dessa idade, os sintomas já podem estar cristalizados, dificultando a intervenção do psicanalista. “Quando as crianças chegam para o tratamento com o psicanalista os problemas estão mais sedimentados, o que dificulta ou até mesmo impossibilita a intervenção, pois muito tempo foi perdido, com consequências que podem vir a ser irreparáveis”, afirma a psicóloga Rita Vasconcelos. A psicóloga ainda ponta que é necessário trabalhar com a criança a partir dos primeiros sinais perceptíveis, para evitar que a doença evolua e até mesmo se agrave.

Mas não significa que diagnóstico tardio seja sinônimo de “tarde demais”. Mesmo que os sinais de autismo sejam detectados depois dos três anos (o que acontece na maioria esmagadora das vezes), ainda pode-se ter uma grande evolução. “Iniciar um tratamento tardio não é sinônimo de insucesso. Muitas crianças, adolescentes e adultos autistas obtêm resultados terapêuticos excelentes independentemente da idade e do histórico que tenham”, afirma o psicólogo Robson Brino Faggiani. O que não pode é ficar sem ajuda.

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