Sinais do dia a dia demonstram se o adolescente está pronto ou não para sair só com os amigos, sem os pais. Entenda melhor como se dá esse processo de autonomia

É importante que os pais imponham limites de horário para voltar da balada, diz especialista
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É importante que os pais imponham limites de horário para voltar da balada, diz especialista

"Ele será sempre o meu bebê”. Por mais que alguns pais e mães gostem de pensar dessa maneira e de fato enxerguem o filho como uma criatura frágil para sempre, a verdade é que ele amadurece e, gradativamente, deixa de depender dos adultos para desenvolver suas atividades cotidianas. Isso se manifesta notoriamente na questão da sociabilização. À medida que faz amigos na escola e em outros lugares que frequente, ele passa a dar preferência à companhia de quem tem a mesma idade, não mais dos pais. E quando chega a adolescência – ou até um pouquinho antes – vem o que muitos consideram uma bomba: os pedidos para começar a ir a baladas.

A surpresa não deveria ser tão grande, de acordo com Paola Vargas Barbosa, mestre em psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e integrante do núcleo de pesquisa Dinâmica das Relações Familiares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde é doutoranda em psicologia. “O processo de autonomia pode começar em qualquer fase da vida. Aos dois anos, a fase do ‘não’ já é uma tentativa de autonomia. E isso é bom, porque não adianta os pais quererem segurar os filhos o tempo todo e acharem que vão encontrar uma forma tranquila de liberar na adolescência. Tem que ser gradativo”, afirma.

Não existe uma idade exata para o jovem querer ir a baladas com os amigos. Até aparecer o primeiro pedido, o caminho dentro de casa deve ter como palavras de ordem afeto, regras e diálogo. “Os conflitos dessa fase surgem porque ele não consegue argumentar. Se há uma relação de dialogar e negociar com a família desde a infância, será mais fácil negociar quando chegar esse momento. E se as regras são argumentadas, as chances de o filho obedecê-las, mesmo que não concorde com elas, são maiores”, diz a psicóloga.

Esse hábito inclusive ajuda os pais a perceberem se o filho é maduro o suficiente para entrar em uma balada, ainda que matinê, sem a companhia de adultos – porque também não há uma idade pré-determinada para isso, o que conta é a maturidade. “Famílias abertas ao diálogo, às diferenças e mais propensas ao desenvolvimento individual dos membros podem ter mais sensibilidade para captar a tendência do comportamento dos filhos”, explica Patrícia V. Spada, psicóloga clínica atuante nas áreas de vínculo mãe/filho e dinâmica familiar e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Sinais de maturidade e os limites da família

Patrícia enumera alguns sinais para ajudar os adultos a detectar a maturidade nos filhos: “O jovem estabelece uma conversa franca com os pais, se mostra responsável pelas escolhas diárias que faz em casa e na escola ou com os amigos, assume uma posição clara frente às situações conflituosas, pede ajuda aos pais quando precisa, avisa aos pais se há mudanças no combinado [quando já estiver fora de casa], não desliga o celular e responde às mensagem que os pais enviam”.

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Arquivo pessoal
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E, por outro lado, lista que dificuldades de sociabilização, isolamento, comportamento hostil, timidez extrema, falta de diálogo com os pais, não avisar quando sair de casa ou para onde vai e não respeitar horários combinados podem ser indicativos de que o filho não esteja preparado para sair sozinho. “São pontos que devem ser discutidos para que se chegue a um consenso”, afirma.

Paola defende que tudo deverá ser validado pela experimentação: “O que funcionar em cada núcleo familiar deve ser mantido. Cada família precisa ter condições de não ultrapassar seus próprios limites e de não se forçar a imitar outras famílias, pois são dinâmicas diferentes. Não adianta querer ser moderninho e não estabelecer horários para o filho voltar, por exemplo, só porque os pais do amigo dele agem assim. Pais e filhos não ficarão confortáveis”.

Sem padronização

Muitas vezes, não é necessário sequer sair de casa para perceber que cada caso é um caso. A empresária Patrícia Bastos vive isso ao analisar como foi com seus filhos mais velhos – Leandro, de 19 anos, e Ygor, de 18 – e como está sendo com o caçula – Felipe, de 14.

“O Leandro e o Ygor são mais calmos, começaram a sair com 15 anos, e sempre foram de ir mais a festas nas casas dos amigos do que a baladas. Já o Felipe começou muito cedo, com 12 anos já queria ir para a balada. Acredito que tenha sido porque hoje em dia a divulgação é muito massiva pela internet e pelas redes sociais. Mas não deixei, ele era muito pequeno e decidi que com 13 anos poderia”, conta.

Por causa da idade, o garoto frequenta matinês. Na primeira a que foi, na rua Augusta (região central de São Paulo), a mãe quis entrar para ver como era. “Uma amiga, mãe de outro dos meninos da turma, foi comigo. Estávamos com medo de deixá-los lá sozinhos. Não ficamos perto deles, porque senão seria o maior mico, então eles entraram e depois foi a nossa vez. Combinamos um horário para nos encontrarmos no estacionamento, para irmos embora sem precisarmos nos falar lá dentro”, lembra, aos risos. Depois dessa experiência, ela sentiu-se confiante e nunca mais entrou em uma balada dele.

Atualmente, Patrícia e seu marido, Rogério, condicionam as idas de Felipe às baladas ao desempenho escolar e conversam muito com o filho sobre tudo que envolve esse universo. “Falamos com ele sobre álcool, drogas, sexo. Às vezes, ele acha um absurdo, porque adolescente tem certeza de que sabe tudo, mas falamos mesmo assim”, diz ela. E, por enquanto, ir e voltar é com a carona deles ou de pais de amigos. “Sozinho mesmo, só depois dos 16 ou 17 anos, como foi com os mais velhos”.

Aproximação de pais e filhos

A forma como Patrícia e Rogério agem com os meninos é considerada ideal pelas especialistas. “É importante os pais levarem e buscarem, ainda que os filhos não queiram, assim como é bom impor limites de horário. Isso significa amor. Eles podem e devem acompanhar os programas, perguntar onde é, quem vai, qual a idade permitida. A orientação dos pais deve ser constante, no sentido de estarem próximos da vida do filho”, aconselha Patrícia Spada.

Paola Barbosa complementa, explicando que isso não é sinônimo de ser o melhor amigo do adolescente. “Não é preciso sair do papel de autoridade de mãe ou pai - ou seja, quem tem a palavra final - para conversar sobre o que aconteceu. Se o filho for evasivo, vale fazer mais perguntas até conseguir a informação que quer. Para facilitar, é legal falar sobre a própria adolescência, sobre como era naquela época. Essa troca naturaliza a conversa”, sugere.

Situações adversas

É claro que a vida real pode pegar os pais desprevenidos, e um dia o adolescente pode sair da balada bêbado ou com sinais de que tenha usado drogas. “Aí é preciso salientar a importância de respeitar os combinados, conversar com o filho sobre o que ele sabe sobre álcool e drogas e realmente observar muito de perto, ver se ele precisa de ajuda”, orienta a psicóloga Patrícia.

Esta é a hora de os adultos serem firmes para que os limites sejam respeitados, na opinião de Paola. “Os pais não devem esquecer que têm o direito de interferir para orientar, e proibir novas saídas sempre que considerarem necessário”, afirma.

O resultado de uma boa orientação, com os devidos ajustes ao longo do caminho, é a confiança mútua nas baladas e na vida, além da independência dos filhos e dos próprios pais na hora certa. “Não é porque a criança deixa de precisar de ajuda para amarrar os sapatos que ela não ama mais os pais. Os pais têm que superar o medo de o filho crescer. A autonomia dos filhos significa o sucesso dos adultos nos papeis de mãe e pai”, finaliza Paola.

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