Reeducação alimentar – às vezes para toda a família – e atividades físicas que vão além das aulas de esportes estão entre as atitudes mais indicadas para ajustar a saúde da criança

Na maioria dos casos, sobrepeso infantil é resultado de maus hábitos alimentares da família
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Na maioria dos casos, sobrepeso infantil é resultado de maus hábitos alimentares da família

É raro mães e pais de crianças gordinhas ou obesas perceberem suas crianças dessa maneira. E, segundo os pediatras, até mesmo aceitarem tal informação dos especialistas, mesmo que ela seja baseada em dados da curva de crescimento. “É psicologicamente muito difícil um pai ou uma mãe assumir que está errando na criação do filho. No íntimo, todos sabem que o sobrepeso infantil é resultado de maus hábitos alimentares da família, e essa culpa ninguém quer ter”, afirma Fábio Cardoso, especializado em medicina preventiva.

Marcelo Porto, vice-presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, conta que muitos pais baseiam-se na imagem social do “gordinho feliz” para justificar o filho fora dos padrões saudáveis. “As famílias tapam o sol com a peneira, cria-se uma barreira. Estamos falando do jovem com mais risco de enfartar cedo, de ter diabetes. Negar que a criança precisa de ajuda multidisciplinar e não cuidar disso na hora certa compromete todo o futuro desse indivíduo”, alerta.

Para Cylmara Gargalak, gastroenterologista pediatra da unidade Anália Franco do Hospital São Luiz, essa percepção da família também é afetada pela grande quantidade de pessoas com sobrepeso nas grandes cidades. “As mães comparam seus filhos a outras crianças e acham que eles estão ‘fortes’. Não percebem que eles não estão saudáveis”, lamenta.

Parâmetros, causas e consequências

A diferença entre sobrepeso e obesidade é que, enquanto o primeiro indica que a criança está alguns quilos acima do recomendável para sua altura e idade, a segunda é o excesso de gordura espalhado por todo o corpo. É nas consultas regulares da criança ao consultório que o pediatra consegue diagnosticar um desses problemas.

“A pediatria é uma das poucas especialidades médicas em que é possível prevenir doenças. Na puericultura analisamos o posicionamento da criança na curvatura de crescimento. Se o peso está percentis acima do esperado para a altura, podemos diagnosticar algo precocemente. E quanto mais cedo, mais fácil resolver”, diz Cardoso. Porto complementa: “É primordial brecar uma obesidade em formação, não deixar o problema avançar. Buscar ajuda multidisciplinar, com nutricionista, endocrinologista e psicólogo, se for o caso. Algumas crianças ficam muito abaladas por serem gordas e se fecham sentimentalmente, dificultando o tratamento”.

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A obesidade infantil pode começar na gestação. “A grávida que come muito açúcar, gordura e sais pode causar alterações na superfície dos genes do feto que criam nele uma predisposição a obesidade, hipertensão, diabetes, alto colesterol e doença cardíaca”, enumera Cylmara. “Muitas alegam que comem errado por causa dos hormônios, por não conseguirem se controlar”, conta Porto.

Mas isso representa um corte bem pequeno do universo das crianças mais pesadas do que deveriam: de acordo com Cardoso, apenas 7% têm razões genéticas para a obesidade. “Nos outros 93% dos casos”, ele revela, “são os fatores externos que tornam as crianças obesas”.

Isso envolve principalmente questões de hábitos familiares. “Via de regra, a criança obesa tem pelo menos um dos pais obeso. O problema quase sempre está na má alimentação feita em casa”, afirma Porto. “Aí entram os lanches escolares mal compostos, com salgadinhos e refrigerante em vez de um lanche saudável e suco feitos em casa, a ‘junk food’ que substitui uma refeição, os doces em excesso. Alguns pais querem disfarçar, falam que acham que o filho tem o metabolismo ‘diferente’, mas não é verdade. A criança fica obesa porque come muito e come errado”.

A pior consequência desse cenário será vista quando esse pequeno indivíduo chegar à vida adulta, como explica Cylmara: “Se nada for feito, a criança obesa será uma jovem obesa e uma adulta obesa, mais propensa a desenvolver doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, a ter colesterol alto. A qualidade de vida dela será completamente comprometida por causa do peso excessivo que não foi contido no momento adequado”.

O exemplo de uma alimentação saudável e balanceada deve partir dos pais
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O exemplo de uma alimentação saudável e balanceada deve partir dos pais

Como os pais podem ajudar a criança

Quanto antes alguma atitude for tomada para reverter o quadro de sobrepeso ou de obesidade da criança, melhor. Se seu filho está gordinho e você quer ajudá-lo a ter uma rotina mais saudável para que ele conquiste qualidade de vida e boa saúde no presente e no futuro, pode seguir as 12 dicas dos profissionais consultados nesta matéria.

1. Não rotule a criança em casa
A última coisa de que seu filho precisa é ser lembrado o tempo todo que está acima do peso. Isso afeta a autoestima e pode deixá-lo retraído, fazendo com que ele se isole e prejudique o tratamento. Evite apelidos pejorativos e mesmo “carinhosos” relacionados ao peso dele e peça às outras pessoas da família para fazerem o mesmo.

2. Evite as dietas radicais
A perda de peso deve ser lenta e gradual, resultado de uma reeducação alimentar. “Dietas radicais não são boas nem para adultos nem para crianças. O mais importante é não ganhar peso como vinha ganhando antes, o resto é consequência dos hábitos saudáveis que devem ser adotados”, diz o pediatra Marcelo Porto.

3. Dê o exemplo de boa alimentação
Não adianta querer que o filho gordinho tenha uma alimentação balanceada e saudável, com frutas, legumes, verduras, proteínas e carboidratos acompanhados por sucos naturais, se os pais comem massas, doces e refrigerantes o tempo todo. A criança imita tudo que os adultos da casa (normalmente seus primeiros ídolos) fazem. Logo, se ela os vir comendo bem, vai querer comer bem também. Baseie as refeições em ingredientes saudáveis e, se for necessário, faça toda a família passar por uma reeducação alimentar.

4. Convide a criança para participar do preparo dos alimentos
“Entender o que vai ao prato estimula a alimentação saudável”, argumenta Fábio Cardoso. Assim, quando for preparar uma salada, por exemplo, chame seu filho para ajudar. Enquanto ingredientes como legumes e verduras são lavados, cortados e temperados, explique que propriedades aqueles alimentos têm, por que eles são bons para a saúde. “O conhecimento o incentivará a querer sempre mais refeições saudáveis”, diz o médico.

5. Estabeleça uma rotina de refeições
A criança precisa entender que há momentos certos para se alimentar, e que “beliscar” entre as refeições não trará benefício nenhum – pelo contrário, prejudicará seu emagrecimento. O ideal é que ela tenha café da manhã, lanche matinal, almoço, lanche vespertino e jantar, alimentando-se de três em três horas. “Se ela estuda à tarde e chega com fome da escola, impeça um novo lanche vespertino. Dê-lhe uma fruta, para ela se nutrir e aplacar a sensação de estômago vazio”, sugere a gastroenterologista pediatra Cylmara Gargalak.

6. Não permita que a criança coma em frente à TV ou usando aparelhos eletrônicos
É importante que seu filho preste atenção ao que está comendo, para reforçar o que aprende sobre a alimentação saudável. A consciência a cada colherada ou garfada é essencial para ele querer sempre se alimentar bem.

7. Restrinja a ingestão de líquidos durante as refeições
Cylmara recomenda que água ou sucos sejam dados até 15 minutos antes da refeição ou uma hora e meia depois da última mordida, pois os líquidos dificultam e retardam a digestão. Se seu filho já tiver esse hábito muito enraizado, tire-o aos poucos: em vez de um gole por garfada, combine um a cada dois, depois a cada três e assim por diante, até o acompanhamento de um líquido ser desnecessário.

8. Não insista para que a criança “limpe o prato”
Se a criança não quer mais o que está no prato, é porque está satisfeita. E, assim sendo, não precisa mais comer. Mães que fazem questão que os filhos comam até o último grão de arroz do prato, mesmo contra a vontade infantil, prejudicam na criação de uma boa relação entre a criança e a comida.

9. Encontre um esporte em que seu filho se sinta bem
Assim, ele se sentirá estimulado a continuar a prática esportiva. “Se houver frustração, o risco de desistência é muito grande”, justifica Porto. Apresente diversas modalidades à criança e deixe que ela teste cada uma por um tempo, se for o caso.

10. Incentive as atividades físicas cotidianas
Exercitar o corpo não está restrito à prática de esportes. Para que seu filho deixe de ser sedentário, dê-lhe a tarefa de arrumar a cama todos os dias, convide-o para ajudar a organizar os livros em uma estante e peça que ele guarde a louça seca nos armários. Além disso, deixe o carro na garagem quando o destino for próximo. Ser ativo é uma questão de hábitos.

11. Menos tempo usando aparelhos eletrônicos
Videogame, computador, smartphone, tablet e equipamentos semelhantes estimulam o sedentarismo e o ganho de peso, já que exigem movimentação mínima dos usuários. Cardoso recomenda que, se for inevitável, tais aparelhos sejam usados no máximo duas horas por dia.

12. Garanta o bom sono de seu filho
Estudos indicam que atualmente as crianças dormem uma hora e meia menos do que uma década atrás. Isso é preocupante, segundo Cardoso, porque “três dos oito picos do hormônio do crescimento devem acontecer durante o sono. Se a criança dorme menos, fica defasada”. Ele ressalta, ainda, que são gastas mais calorias dormindo do que ficando sentado diante da TV. O melhor horário para a criança ir para a cama, de acordo com os especialistas, é entre 20h e 21h. Crie esse hábito na sua casa.

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