Incentivadas, as crianças só têm a ganhar e se tornam adultos mais completos. Especialistas dão 14 dicas para você ajudá-las a liberar os gestos criativos sem medo

Um cabo de vassoura vira um cavalinho, um gengibre pode ser uma boneca, algumas garrafinhas plásticas são prontamente transformadas em instrumento musical ou em pinos de um boliche improvisado. As crianças já nascem com uma tendência natural à criatividade, e só têm a ganhar, em curto, médio e longo prazo, quando os adultos estimulam essa capacidade inventiva em casa ou em passeios.

De imediato, nota-se a ampliação do repertório para lidar com as situações do dia a dia e uma elevação na autoestima. “O gesto criativo valorizado pelos pais dá às crianças a sensação de que há coisas boas dentro delas, de que suas ações são significativas, de que estar no mundo pode ser prazeroso e com sentido”, afirma a psicóloga clínica Elisa Villela, doutora em desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP).

Construir 'castelos' ou 'fortes' com o auxílio de duas cadeiras e um pano estimula a criatividade das crianças. Elas adoram e entram no faz-de-conta imediatamente
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Construir 'castelos' ou 'fortes' com o auxílio de duas cadeiras e um pano estimula a criatividade das crianças. Elas adoram e entram no faz-de-conta imediatamente

Além disso, a criatividade facilita a concatenação de referências para chegar a soluções próprias na resolução de problemas. “Essas crianças conseguem lidar com eficiência com a quantidade enorme de informações a que estão expostas diariamente por internet, televisão, filmes, livros documentários, revistas, jornais. O que fazer com tudo isso? Como relacionar ideias e criticar, construir, modificar? Elas sabem responder essas perguntas por meio de suas ações”, explica a psicopedagoga Sibyle Steponaitis.

Estimuladas quando bebês e ao longo da infância, as pessoas carregarão tais habilidades em seu repertório por toda a vida e saberão como lançar mão da criatividade para ter bom desempenho nas mais variadas situações. “Os pais ajudam, dessa forma, a tornar seus filhos indivíduos independentes, autônomos, capazes de enfrentar desafios no futuro”, diz a psicopedagoga e coach infantil Cintia Bozza.

Espontaneidade

Nunca é cedo demais para incentivar uma criança a ser criativa. Segundo Sibyle, desde o útero materno é possível contribuir para o desenvolvimento dos filhos. Elisa, por sua vez, destaca o gesto espontâneo do bebê como a raiz da criatividade. “O bebê que, à sua maneira, descobre como alcançar um brinquedo, sem que os pais lhe induzam ou façam por ele, conquista uma percepção de si como capaz e potente no mundo. Esta é a base do criar, ou seja, se autorizar a dar uma contribuição ao ambiente”, conta.

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Como estamos falando dos pequenos até a fase antes da entrada na adolescência, vale lembrar que a brincadeira tem papel fundamental nesse estímulo à criatividade. “O brincar auxilia as múltiplas inteligências e o desenvolvimento infantil de forma globalizada, em seus aspectos biopsicocognitivo e social. Possibilita dar novos significados ao que é apresentado, estabelecer um espaço no qual é preciso argumentar, negociar, trocar e regular as ações individuais e coletivas. Enfim, permite que se manifeste o ‘ser criativo’”, afirma Cintia.

Confira, a seguir, 14 dicas das especialistas para que você possa estimular a criatividade dos seus filhos:

- Converse sempre com o bebê, antecipando situações de cuidado (por exemplo: “Hmmm, que delícia de papinha, é de banana!”, “Agora eu vou trocar sua fralda!”, “Olha o papai! Vamos dar um beijinho nele?”). A criança percebe a entonação de voz, o timbre, o sentimento contido nas palavras, o que favorece a aquisição da linguagem. E não se preocupe com o fato de ele não conseguir responder ou de desconhecidos olharem com estranheza, caso o “papo” aconteça em ambientes públicos.

- Leia para a criança ou com a criança diariamente, por pelo menos dez minutos. Escolha livros ou gibis adequados à faixa etária e mostre as imagens, brinque com a voz, deixe que ela manuseie as páginas. Para as menores, livros com fantoches, com elementos “pop-up” ou com texturas são os mais indicados, porque mexem com a imaginação e os sentidos delas.

- Crie um espaço no chão de algum cômodo da casa onde a criança possa ficar à vontade e sob a supervisão de pelo menos um adulto – evitando, assim, prendê-la em cadeirinhas, carrinhos etc. Delimite-o com um tapete ou um edredom dobrado. Livre, ela poderá experimentar novas posições e sensações.

Exponha seu filho a mais brinquedos que exijam a participação ativa dele, como blocos lógicos coloridos, blocos de encaixe e quebra-cabeças
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Exponha seu filho a mais brinquedos que exijam a participação ativa dele, como blocos lógicos coloridos, blocos de encaixe e quebra-cabeças

- Exponha seu filho a mais brinquedos que exijam a participação ativa dele na ação do que a eletrônicos em que ele será um mero apertados de botões. São muitas possibilidades, entre elas bolas, blocos lógicos coloridos, blocos de encaixe, bonecas, carrinhos, quebra-cabeças, instrumentos musicais. Quanto mais precisar pensar para brincar, mais capacidade ele terá para bolar enredos e soluções.

- Construa um castelo ou um forte para a menina ou o menino. É mais simples do que você imagina: basta colocar um lençol sobre os encostos de duas cadeiras alinhadas e entrar ali debaixo com as crianças. Elas adoram e entram no faz-de-conta instantaneamente.

- Deixe que seu filho escolha a fruta que quer para o lanche da tarde, sem tentar influenciá-lo e, principalmente, respeitando a opção dele. Ele passará a pensar em como agir nas próximas vezes em que precisar tomar uma decisão, por mais simples que ela seja.

- Vá ao parque, a uma praça ou ao zoológico e explique para seu filho o que é cada animal, elemento da natureza ou objeto que vocês veem. Quando algum deles se repetir ao longo do passeio, peça que ele diga o nome daquilo e o que mais ele lembrar. Se ele inventar uma historinha, permita. É próprio da infância e abre a porta para a criatividade aflorar.

- Mesmo que a criança frequente a escola de segunda a sexta, promova o encontro com outras crianças aos sábados e/ou domingos. Podem ser parentes, filhos de amigos ou mesmo desconhecidos no parque ou em espaços infantis no shopping. O que vale é que ela tenha contato com gente como ela, compartilhe objetos, entenda a importância de esperar (para usar um brinquedo, por exemplo) e crie repertório social.

- Leve seu filho a um museu e conte histórias do que está exposto ali. Incentive-o a dizer o que acha que aconteceu depois de determinado evento, ou o que levou alguma pessoa a fazer um quadro como o que vocês estão vendo.

- Nas idas ao supermercado, diga de onde vêm os alimentos (por exemplo: os industrializados vêm de uma fábrica, chegam ao mercado de caminhão e são levados às prateleiras depois de serem tirados das caixas; os naturais vêm da plantação, mas também precisam de transporte para chegar até os consumidores etc.), como eles são embalados. A criança construirá histórias mentais sobre essas sequências e entenderá melhor o funcionamento do mundo.

- Deixe papel sulfite e lápis de cor ou giz de cera em local de fácil acesso para a criança na casa (uma prateleira baixa, uma gaveta que ela consiga abrir e fechar com segurança) e permita que ela desenhe ou escreva – ou mesmo amasse, rasgue ou corte o papel, por que não? – sempre que desejar.

- Ouça músicas com seu filho e cante junto, incentive-o a decorar as letras e a cantar também. Se ele quiser escutar a mesma canção muitas vezes seguidas, faça isso com ele. A repetição traz uma sensação de segurança (por ele já saber como acaba e se certificar de que estava certo) que ajuda no amadurecimento.

- Quando pegar a criança na escola ou encontrá-la em casa depois da aula, peça que ela conte tudo o que aconteceu em seu dia, pergunte como ela resolveu problemas que possam ter aparecido e que elementos permitiram que ela tomasse as decisões que tomou.

- Elogie seu filho quando ele tiver feito algo criativo, bom e digno de nota. Ele se sentirá estimulado a fazer algo semelhante mais e mais vezes.

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