Novo estudo americano revela que crianças constantemente atacadas, ameaçadas ou intimidadas por um irmão têm níveis elevados de depressão, raiva e ansiedade

NYT

Efeitos da violência entre irmãos costumam continuar na vida adulta, afirma psicólogo
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Efeitos da violência entre irmãos costumam continuar na vida adulta, afirma psicólogo

Irmãos vivem batendo boca e trocando sopapos desde os tempos de Caim e Abel. Porém, as brigas e os atritos que costumam ser considerados rivalidade normal entre irmãos podem não ser sempre tão benignos.

Uma nova pesquisa sugere que mesmo sem cicatrizes físicas, a agressão entre irmãos pode causar feridas psicológicas tão prejudiciais quanto as provocadas por intimidações na escola ou no parquinho. As descobertas oferecem uma visão incomum sobre uma área da vida familiar que tem sido pouco estudada, em parte porque brigas entre irmãos são amplamente consideradas como um rito de passagem inofensivo.

Porém, asseguram especialistas, pequenas brigas pelo controle da TV ou do vídeo game são uma coisa, já violência verbal ou física crônica, especialmente quando direcionada a um irmão em especial, é outra bem diferente. Envolvendo milhares de crianças e adolescentes dos Estados Unidos, o novo estudo constatou que crianças constantemente atacadas, ameaçadas ou intimidadas por um irmão têm níveis elevados de depressão, raiva e ansiedade.

Corinna Jenkins Tucker, principal autora do estudo, publicado na revista "Pediatrics", declarou que comportamentos entre irmãos que descambam para a violência merecem atenção.

"Historicamente, o pensamento geral tem sido o de não ser importante e, às vezes, chega a ser encarado como algo bom", disse Tucker, professora adjunta de estudos de família na Universidade de New Hampshire. "Parece existir normas diferentes de aceitabilidade. Agressão entre colegas é inaceitável, mas com irmãos é diferente."

Segundo Tucker, o número crescente de programas e anúncios de serviço público com o intuito de parar o bullying e a violência nas escolas e outros locais também deveriam incluir um foco nas relações entre irmãos. "A agressão entre irmãos deve ser levada tão a sério como entre colegas", ela garantiu.

Dano e humilhação

"Embora rivalidades normais com irmãos possam incentivar uma competição saudável, a linha divisória entre relações saudáveis e violência é ultrapassada quando uma criança sempre é a vítima da outra e a agressão busca infligir dano e humilhação", disse John V. Caffaro, psicólogo clínico e autor de "Sibling Abuse Trauma". Pais que não interferem, escolhem favoritos ou dão aos filhos rótulos que semeiam divisões – como "o inteligente" e "o atleta" – podem inadvertidamente incentivar o conflito.

De acordo com Caffaro, a violência entre irmãos é de longe a forma mais comum de violência familiar nos Estados Unidos, sendo de quatro a cinco vezes mais frequente do que a voltada contra o cônjuge ou o filho. Segundo estudos, quase metade de todas as crianças foi socada, chutada ou mordida por um irmão e, aproximadamente 15% delas foram agredidas repetidas vezes. Contudo, garante o psicólogo, mesmo os incidentes mais severos são subnotificados porque as famílias detestam reconhecê-los, encarando tapas e socos como travessuras pesadas e a intimidação como coisa de menino.

"Nossa sociedade costuma minimizar a violência entre crianças como um todo. Nós temos a ideia de que ser ferido por uma criança machuca menos do que por um adulto, mas essa visão não corresponde aos fatos", afirma Caffaro.

Atos violentos

Para o estudo, Tucker e colegas avaliaram 3.600 crianças usando dados da Pesquisa Nacional de Exposição de Crianças à Violência, que coleta informações de crianças e adolescentes de até 17 anos. Estudos anteriores sobre violência entre irmãos, que são poucos, costumavam ser pequenos ou se concentrar em formas específicas de agressão.

Todavia, a nova pesquisa, realizada por meio de entrevistas com as crianças e seus pais, mediu o impacto de uma ampla gama de atos violentos. O levantamento analisou agressões físicas com e sem armas e a destruição ou roubo de propriedade, bem como ameaças, xingamentos e outros modos de intimidação psicológica.

No total, um terço das crianças no estudo relatou ter sofrido nas mãos de um irmão no ano anterior. A pontuação, nesses casos, era mais alta na medição de ansiedade, depressão e raiva.

Catherine Bradshaw, especialista em intimidação e subdiretora do Centro para Prevenção da Violência Juvenil da Universidade Johns Hopkins, declarou que o estudo tinha abrangência e escala impressionantes, observando que ele demonstrou que todos os tipos de agressão fraterna, da branda à severa, estavam ligados a uma pior saúde mental.

"Às vezes, os pais pensam que os filhos podem resolver as coisas no tapa ou que um pouco de vitimização não faz mal, mas estes achados sugerem que o limiar é muito baixo. Não se deve ficar de olho apenas nos fatos mais graves."

Segundo Caffaro, os efeitos da violência entre irmãos costumam continuar na vida adulta. Ao longo dos anos, ele tratou pacientes que lutavam com questões emocionais e sabotavam as carreiras por conta da humilhação repetida que vivenciaram nas mãos de irmãos. "Esse tipo de agressão pode corroer a noção de identidade e autoestima."

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