Para autor argentino, pais devem deixar de temer os filhos e assumir o comando do barco impondo limites: “educar é frustrar”, diz

Sergio Sinay, autor do livro, está preocupado com a falta de responsabilidade dos pais
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Sergio Sinay, autor do livro, está preocupado com a falta de responsabilidade dos pais

Órfãos de pais vivos. Para o sociólogo, psicólogo e jornalista argentino Sergio Sinay é nessa situação que muitas crianças se encontram. Autor do livro “A Sociedade dos Filhos Órfãos” (Editora Best Seller), Sinay se declara preocupado com a falta de responsabilidade dos pais e comenta que os valores da sociedade de consumo e o individualismo, muito presentes no século 21, estão prejudicando o crescimento das crianças, comparando-os a marinheiros que muitas vezes estão em um barco sem capitão.

Em entrevista ao iG Delas , ele enumerou alguns dos principais equívocos dos pais – e o que pode ser feito para evitá-los.

iG: O que seria uma sociedade de filhos órfãos e porque resolveu escrever um livro com esse nome?
Sergio Sinay: Escrevi esse livro por uma situação cada vez mais presente na sociedade argentina e que acredito ser um fenômeno mundial: a ausência parental do cumprimento de suas funções. Essa ausência gera consequências graves nas escolas e para a sociedade, como o vício em drogas, a violência e acidentes por falta de responsabilidade, além da debilitação do pensar.

Os pais atuais muitas vezes até usam os filhos em vez de respeitá-los – para salvar o casamento ou esperando que o filho faça o que o próprio pai gostaria de ter feito.

Essa ausência acontece para aqueles que serão os adultos de amanhã – e hoje são os filhos de pais vivos. Pais que estão presentes fisicamente, mas não cumprem suas funções. É uma orfandade emocional, afetiva e de valores. Os pais atuais muitas vezes até usam os filhos em vez de respeitá-los – para salvar o casamento ou esperando que o filho faça o que o próprio pai gostaria de ter feito.

iG: Qual seria o papel primordial dos pais?
Sergio Sinay: Os pais devem mostrar aos filhos que a vida de cada pessoa tem um sentido além de se divertir e comprar tudo o que puder. Essa educação começa pelos pais.

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iG: Você acredita que os pais, atualmente, estão delegando às escolas o papel que seria deles?
Sergio Sinay: Sim, e é muito grave. Hoje, os pais mandam seus filhos a escolas particulares e os colocam como consumidores em vez de alunos. Com o velho chavão de que “o cliente sempre tem razão”, esses pais acreditam que a escola não deve incomodá-los. Se a escola chama os pais para uma reunião dizendo que há um problema, os pais reclamam. E enquanto reclamam, os próprios filhos escutam as reclamações e acabam perdendo o respeito pela escola. Isso produz crises na educação. 

Os pais não podem se colocar contra a escola. Se fizerem isso, como podem pedir aos filhos que depois respeitem as normas necessárias para um bom convívio em sociedade? Por isso, insisto: os problemas que crianças e adolescentes têm hoje dentro da escola refletem essa geração de pais que pensa primeiramente em si mesma. 

iG: Muitos pais, principalmente por não terem tanto tempo livre, dão tudo o que os filhos querem, como uma forma de aplacar a culpa pela ausência. O que você diria a eles?

Sergio Sinay: Desejos não são necessidades: podemos ter milhões de desejos, mas nossas necessidades são basicamente alimento, abrigo, água e amor. Por isso os pais devem aprender a dizer “não” e a se voltar para o mais simples. É preciso dizer ao filho que ele não precisa daquilo que quer naquele momento, em vez de dizer que não temos dinheiro quando se tem. Se esse limite é colocado, é preciso oferecer um valor distinto daquele, relacionado ao valor que queremos para viver. 

É importante que os pais conversem e criem alternativas. Muitos pais pensam em agir de maneira distinta, mas têm medo dos filhos ficarem ilhados se não lhes derem tudo, de ficarem excluídos pelas outras crianças. Se os pais se falassem mais entre eles, encontrariam outros que não estão de acordo com esses modelos e começariam a oferecer outras propostas a seus filhos que vão além do consumo.

Autor compara crianças a marinheiros que muitas vezes estão em um barco sem capitão
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Autor compara crianças a marinheiros que muitas vezes estão em um barco sem capitão

iG: Em seu livro você também diz que existe uma confusão entre ser pai e ser amigo e ser amigo dos filhos não é uma boa opção. Qual é a melhor alternativa?
Sergio Sinay: É preciso assumir a responsabilidade da criação dos filhos, é preciso conduzir esse barco. Quando o capitão do barco se torna marinheiro como os filhos, o barco afunda. E os filhos ficam desprotegidos e sem guias quando precisam mesmo é de limites.

Nenhum filho aplaude os pais quando se depara com os limites impostos, mas no fundo isso é algo que os tranquiliza e os faz saber da existência de alguém ali cuidando deles. Os protestos contra os limites, na realidade, fazem parte do crescimento e os pais devem lidar com isso sem ceder até acharem que é o momento ideal.

Eles não devem ser autoritários: esses limites devem ser colocados com explicações até que eles cumpram suas funções. Se os pais estão próximos dos filhos, é fácil perceber isso. A criança se dá conta dessas mudanças e começa a entender que os limites servem para o melhor desenvolvimento dela. Essa autoridade coloca o respeito entre pais e filhos, diferentemente do autoritarismo.

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iG: Atualmente, também vemos jovens demorarem mais para sair da casa dos pais. Você acha que isso é um resultado dessa criação de filhos órfãos? O que os pais devem fazer para que os filhos cresçam da melhor maneira para o mundo?
Sergio Sinay: Aqui na Argentina temos “adolescentes” de 35 anos que vivem com os pais, mesmo que trabalhem e tenham suas responsabilidades. Isso é produto de uma ideia falsa. Como nós, seres humanos, vivemos mais hoje em dia, existe a ideia de que a adolescência se prolongou. Mas não é verdade, a adolescência é uma etapa de maduração dos aspectos físicos e intelectuais, e sempre foi assim.

Sempre digo aos pais para fazerem um projeto para os filhos saírem de casa quando chegarem próximos dos 20 anos. Não é para expulsá-los, mas para que eles possam crescer.

Sempre digo aos pais para fazerem um projeto para os filhos saírem de casa quando chegarem próximos dos 20 anos. Não é para expulsá-los, mas para que eles possam crescer. Há quem diga que os tempos estão difíceis... Os tempos sempre foram difíceis. Nossos pais também tiveram tempos difíceis, são as dificuldades é que mudaram. Mas não crescemos sem elas, portanto, pode parecer ilógico, mas sempre digo que uma das funções dos pais é a de frustrar os filhos.


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Frustrar também é educar: é aprender que não se pode tudo e que é preciso fazer escolhas. O problema é que muitos pais têm medo dos filhos e não querem que eles se irritem ou se chateiem. E são esses mesmos pais que tiveram medo dos próprios pais no passado, então quando vão viver sem medo? Os pais devem agir como adultos e saber que nenhum filho deixa de amá-los pelos limites que são colocados – ou pelas coisas que se dão ou deixam de ser dadas. A relação entre pais e filhos não é uma negociação comercial.

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