Denise Milan descobre tesouros nas pedras cinzentas mais comuns de todo o planeta, os quartzos

Denise Milan a artista que já correu o Brasil inteiro em busca de pedras
Monica Simões
Denise Milan a artista que já correu o Brasil inteiro em busca de pedras
Denise Milan é artista plástica multidisciplinar. Ao contrário de boa parte dos artistas, no entanto, as obras de Denise são literalmente extraídas da Terra.

A artista trabalha há 25 com pedras. Quartzos, para ser mais exata. Aquelas pedras bem comuns, cinzentas, rugosas, pedras que a gente define como...pedra! 90% da superfície do nosso planeta é constituída de quartzo, o que torna esse um dos elementos mais comuns e ‘genéricos’ da Terra.

Denise explica, “Escolhi o quartzo como mineral fundante desta minha poética justamente por ele ser um mineral comum e abundante, encontrado em todos os continentes. Queria partir daquilo que está presente em qualquer lugar para que a ação fosse verdadeiramente da Terra e para a Terra.”

Mas artistas transformam as coisas comuns e nessas pedras Denise descobre e revela figuras humanizadas, entes vivos, santuários. Seu olhar enxerga madonas, mandalas, constrói uma linguagem, porque o quartzo, uma vez que você consiga quebrar aquela crosta, encerra cavernas deslumbrantes de cores. As ametistas mais incrivelmente púrpuras, por exemplo, dormem dentro dessas pedras cinzentas.

“A pedra para mim, diz Denise, é um mundo em constante transformação. Quando você mergulha nos subterrâneos da Terra, consegue ver a vida que pulsa lá dentro e da qual nós nem nos damos conta. Meu desafio é exercitar minha visão de artista, encontrando formas que remetam a essa ebulição primitiva e primordial, analogias que mostrem que a vida na pedra é dinâmica”.

No seu atelier, Denise explora o lado invisível da terra
Bruna Malaquias
No seu atelier, Denise explora o lado invisível da terra
O trabalho de Denise com as pedras não se resume a revelar objetos. Ela lança esta sexta-feira no SESC, em São Paulo, o CD com a trilha sonora de uma ópera baseada no processo de formação dessas jóias escondidas nas profundezas da terra. O show do lançamento fica por conta do time de músicos de primeira linha e diretores de renome internacional, como Badi Assad, Tiago Pinheiro, Clarisse Assad e Carlinhos Antunes, que integram a equipe que criou A Ópera das Pedras, O Espetáculo da Terra.

A pedra, para a artista, é viva e tem uma voz que conta uma história. “Busco quebrar justamente esse padrão de ver a pedra como uma não-vida. Busco a pedra que se humaniza, filha da Terra que é viva.”

Não é à toa que o SESC São Paulo resolveu acolher o trabalho de Denise e está patrocinando não apenas a ópera, mas, com base no Espetáculo da Terra, uma série de ações de conscientização da importância do cuidado com a Terra, junto às crianças de comunidades da periferia.

“Hoje são três comunidades, Heliópolis, Grajaú e Jaguaré, conta Denise, entusiasmada, mas devem entrar mais três.” Durante meses, as crianças participam de oficinas de arte sob a supervisão dos professores e de arte-educadores e apresentam o resultado numa celebração. No ano passado, a festa foi no Dia da Terra e incluiu danças e coreografias inspiradas nos desenhos que as estruturas dos cristais de quartzo formam na natureza.

Não foi nada planejado. “O caminho foi se definindo a cada passo”, conta Denise.

Ano que vem, a arte das pedras de Denise vai estar presente também no Global Gathering , um encontro internacional com representantes de 140 países, organizado pelo Fetzer Institute, em Assis, na Itália. O instituto, cujo objetivo é difundir a ideia de que valores universais, como o amor e o perdão, são as forças que regem a vida individual e comunitária, tem parceiros de peso, entre eles o Dalai Lama, o TED e a International Leadership Association.

Uma catedral? Um girassol? Um olho?
Acervo pessoal
Uma catedral? Um girassol? Um olho?
" The Language of Stones: the Atom of Love and Forgiveness ", de Denise Milan foi um dos poucos trabalhos selecionados nessa primeira triagem. “Sempre acreditei que essa linguagem poética e artística construída a partir das formas dos cristais de quartzo tinha um poder de expressão imenso, mas o que está acontecendo vai muito além do que jamais imaginei!”

“A arte pública percorre uns caminhos que surpreendem”, admira-se a artista. “E é uma realização quando a comunidade se apropria do seu trabalho e ele deixa de pertencer a você. Isso é sinal que o artista de fato conseguiu falar a linguagem do coletivo”.

Jorge Coli, o crítico, certa vez disse que Denise era uma alquimista. Depois de conhecer a história e de ver as fotos, você acha que vai conseguir olhar para aquela pedra cinza tão comum da mesma maneira? Ou vai ficar imaginando os seres e as catedrais iluminadas que se escondem lá dentro? Pura alquimia..

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