Seja fruto de atividades escondidas ou de perda de emprego, a diminuição do capital do casal pode afetar o relacionamento. Com amor, paciência e um plano, saiba como lidar com isso

Enquanto o relacionamento está nas condições ideais – a chama do romance acesa, a conexão entre os dois garantida no dia a dia e as contas pagas com tranquilidade –, tudo é um mar de rosas em um casamento. Mas imprevistos acontecem, e uma instabilidade financeira pode colocar tudo a perder.

Uma pesquisa feita pelo IBGE em 2012, estudos independentes realizados desde 2010 para cá no País e o livro “Os Segredos dos Casais Inteligentes”, de Gustavo Cerbasi, chegaram a um dado unânime: crises conjugais relacionadas à falta de dinheiro são a segunda maior razão dos divórcios realizados no Brasil, atrás apenas das traições conjugais. Mas, de acordo com especialistas tanto da área financeira quanto da psicológica, não precisaria ser assim. 

Crises conjugais relacionadas à falta de dinheiro são a segunda maior razão dos divórcios realizados no Brasil
Ryan McGuire/Pixabay/CC0 Public Domain
Crises conjugais relacionadas à falta de dinheiro são a segunda maior razão dos divórcios realizados no Brasil


JOGAR NO MESMO TIME

“Não há generalização no aspecto psicológico, especialmente por esse tipo de situação envolver duas pessoas, mas a crise financeira do casal pode ser excelente para aumentar o afeto e o vínculo depois de sua superação”, defende a psicóloga Cleide Bartholi Guimarães, autora do livro “Até que o Dinheiro nos Separe – A Questão Financeira nos Relacionamentos”. 

Alcançar esse objetivo, segundo ela, depende de o casal jogar no mesmo time. “Há que se conversar com o objetivo de andar para a frente, de encontrar soluções, não apenas ficar martelando o problema de forma pessimista”, pondera. 

QUEBRA DE CONFIANÇA OU PERDA DE RENDA?

Saber como e em que velocidade lidar com a questão dependerá da origem da crise. Economista e autora do livro “Finanças Femininas”, Carolina Sandler conta que são duas as principais causas: a traição financeira e a perda de emprego. 

Na primeira, o que ocorre é uma quebra de confiança. “É quando uma das partes empresta dinheiro do casal a amigos e parentes sem consultar a outra, gasta economias conjuntas em algo para si sem avisar ou mente sobre seus ganhos”, exemplifica Carolina, que também esclarece que a segunda é causada por fatores externos, pois uma demissão dificilmente é planejada ou esperada, mas afeta o casal de igual maneira. 

ABORDAGENS DIFERENTES

Para Cleide, tratar a traição financeira é como tratar uma traição afetivo-sexual: é preciso reconstruir a segurança mútua do casal. “Conversa-se bastante, e a terapia de casal ajuda. Em muitos casos, a parte traída perdoa, mas sempre fica com aquele pezinho atrás”, diz. 

Eliminar essa desconfiança, de toda forma, é mais prático quando o problema é meramente financeiro, como ensina Carolina: “Basta mostrar extratos, faturas do cartão de crédito, boletos, notas fiscais. Bem mais simples do que uma traição pessoal, que mexe com as bases do amor”. 

Já quando um dos dois perde o emprego, os segredos são a compreensão, o carinho e a execução de um plano de ação para não se perder nas contas da casa. “O ideal é que cada um tenha um fundo de emergência para lidar com o desemprego. Ter uma poupança de três vezes o valor do salário é um bom começo”, sugere Carolina. 

Mas se o sufoco chegou de uma vez, sem essa preparação, o jeito é sentar juntos, analisar as contas e ver o que dá para cortar para que os gastos caibam no orçamento atual, até a recolocação no mercado. E, alerta Carolina, de jeito nenhum entrar em empréstimos para bancar as contas. “Os juros estão muito altos e a realidade é que por um tempo continuará não existindo uma das fontes de renda da família. Isso vai certamente se tornar uma bola de neve e só piorar a chance de reequilíbrio”, afirma. 

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"A crise financeira do casal pode ser excelente para aumentar o afeto e o vínculo depois de sua superação”, defende a psicóloga Cleide Bartholi Guimarães


AFETO E SEXUALIDADE COMPROMETIDOS

Independentemente do motivo da dificuldade financeira, alguns casais acabam migrando a crise também para o afeto e a sexualidade. Já não há mais paciência para apelidos carinhosos e pequenas gentilezas; transar, então, nem pensar. O comum é atribuir essa mudança de comportamento às preocupações com as contas, mas o buraco normalmente está mais embaixo. 

Cleide explica: “Quando o relacionar-se já não é bem trabalhado desde antes da crise, o peso que ela terá será muito maior. Se manifestarão a agressividade, cobranças, xingamentos e, consequentemente, a falta de afeto e de desejo. Mas esse era um problema que já vinha de antes”. Ou seja, a falta do dinheiro ao qual o casal estava acostumado apenas desencadeia as reações negativas sobre o relacionamento em si. 

“Daí começa um jogo de pressões. Para solucionar, só fazendo um esforço e parando de apontar o dedo um para o outro”, continua a psicóloga. “Quando o dinheiro representa mais do que o relacionamento para uma das partes, ou até mesmo para as duas, dificilmente esse casal vai saber lidar com a mudança que a crise financeira trará para o dia a dia. Ou mesmo vai querer fazer isso”, finaliza.

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