Você conseguiria passar um ano sem sexo, sem compras, sem dinheiro ou sem maquiagem? Eles conseguiram – e contam como foi

“Nunca estive tão feliz, saudável e em forma como agora”. Assim se define Mark Boyle, um irlandês de 34 anos que, em novembro de 2008, decidiu viver um ano sem dinheiro. Mark tomou gosto pela coisa e continua até hoje à margem do sistema econômico, garantindo o necessário para sua existência sem manipular o vil metal. Ele cultiva a própria comida, fabrica a própria pasta de dentes e garante o necessário para sua existência em trocas com a comunidade. O laptop e o celular funcionam com energia solar e são os poucos elementos do sistema tradicional admitidos por Mark, que virou colunista do jornal inglês “The Guardian”.

Mark Boyle, que vive sem dinheiro:
Arquivo pessoal
Mark Boyle, que vive sem dinheiro: "fazer suas próprias coisas dá sentido à vida"


A empreitada pode parecer maluca, mas não é impossível – nem é a única das experiências de “abstinência” que impressionam. Paloma Soares*, 27 anos, viveu um ano sem sexo entre 2009 e 2010. Segundo ela, não faltaram pretendentes. “Não foi um bloqueio, nem imposição. O propósito era fazer uma autoanálise”, conta.

A psicóloga brasileira Marina Viana, 28 anos, passou um ano sem fazer compras, salvo alguns itens de primeira necessidade, como medicação e alimentos. Livros, CDs e DVDs, sapatos, acessórios, eletrodomésticos, apetrechos de informática e roupas, incluindo meias e calcinhas, estavam proibidos.

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A norte-americana Phoebe Baker Hyde ficou mais de um ano sem usar maquiagem, nem lançar mão de tratamentos de beleza. Inclua aí depilação. Em 2007, após abandonar o próprio trabalho e se mudar para Hong Kong acompanhando a transferência do marido, Phoebe se viu em uma crise de identidade. “Logo percebi que estava confundindo aparência com autoconfiança e comparando capacidade com um guarda-roupa matador”, diz. “Não queria que minha filha pequena me assistisse cometendo este engano”.

Segundo o psicólogo Claudio Paixão, exercícios desta ordem promovem o autodesenvolvimento, se feitos de forma conveniente. Dar um tempo de uma atividade aparentemente essencial nos faz descobrir novos limites e crescer. “Mas não pode ter o pensamento ‘faço isso para ganhar aquilo’”, explica.

Para quem não quer ser tão radical, abster-se ao menos uma vez por semana de uma atividade prazerosa feita diariamente já permite colher os frutos da experiência. “Quando é capaz de superar o desejo, o indivíduo se torna mais humano”, diz Claudio.

Mark colhe frutas:
Arquivo pessoal
Mark colhe frutas: "trabalhamos duro em empregos dos quais nem sempre gostamos, só para pagar as contas no final do mês"

Um ano sem grana

A experiência de se privar de algo tido como fundamental costuma revelar recursos inesperados. “Se você começa a aprender como fazer o que quer sem usar dinheiro, você fica em uma posição muito mais forte”, diz Mark Boyle, o irlandês sem moeda. “E ainda pode se divertir muito mais no processo. Plantar sua comida, produzir sua cerveja e seu sabonete e por aí afora é algo divertido e dá significado à vida”.

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Mas não foi fácil vencer os desafios. Mark, formado em Administração e Negócios, não vinha de uma família ‘alternativa’. No entanto, ao fim do primeiro ano, já estava craque em achar jeitos de obter tudo que fosse necessário, sem uso de dinheiro. A experiência completa está relatada no livro “O Homem Sem Grana – Vivendo Um Ano Fora do Sistema Econômico” (Editora Best Seller).

“Todos sabemos, como nos dizem desde o momento em que nascemos, dos benefícios do dinheiro: status, conforto, facilidades proporcionadas pela tecnologia. Isso deve trazer a felicidade mas não é bem assim na vida da maioria das pessoas. Trabalhamos duro em empregos que nem sempre gostamos, apenas para pagar contas no final do mês”, reflete.

Um ano sem sexo

Paloma admite que seu ano de abstinência aconteceu naturalmente. O sexo sem significado foi perdendo a graça, especialmente depois que ela saiu de um relacionamento difícil e mudou de país. “Não me impus um desafio”, diz ela. “Mas, se é para fazer sexo mecânico, descobri que é melhor fazer com um vibrador”.

Se é para fazer sexo mecânico, descobri que é melhor fazer com um vibrador

Para ela, o período foi uma busca por autoconhecimento. “Decidi transar só com quem eu tivesse afinidade mesmo”, conta. Os resultados da experiência foram positivos: “acho que passei a valorizar mais e me conheci melhor”.

A volta à ativa foi tão natural quanto a saída. “Conheci um cara em uma festa, dançamos e rolou uma afinidade. Acho que foi a dança que me levou para a cama”, avalia, mostrando que seus critérios mudaram.

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Um ano sem compras

Marina também se surpreendeu ao eliminar as compras de sua vida. “Eu tinha muito tempo livre”, relembra. “Geralmente, era o tempo que eu gastava passeando no shopping”.

Momentos de tentação não faltaram – nem lições a se tirar deles. Ela conta que quase pôs o plano todo a perder por causa de uma pinça. Antes de passar no caixa, abandonou o objeto e, ao chegar em casa, descobriu que tinha cinco iguais. “Depois que fui parando de comprar, comecei a perceber que estava levando uma vida irrefletida, sem pensar. E não era só em relação às compras”, admite. “Hoje estou mais autodeterminada e mais calma. Percebi também que preciso de menos para viver”.

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Um ano sem vaidade

Para Phoebe Baker Hyde, o maior desafio foi mostrar a cara nos primeiros dias. “Parecia que todas as minhas falhas estavam expostas”, relembra. “Especialmente as grandes olheiras debaixo dos meus olhos”.


Mas a primeira grande lição não tardou: com um bebê recém-nascido, Phoebe estava com privação de sono e os hormônios desregulados, e boa parte dos problemas de estética vinham disso. “Precisava focar na minha saúde. E, para minha surpresa, isso me trouxe sentimentos que costumamos associar à ‘beleza interior’: paz, tranquilidade, alegria e paciência”.

Outros efeitos da experiência de Phobe foram a mudança de humor – na falta dos apetrechos de beleza, ela se sentia sem-graça e, para compensar, começou a fazer mais piadas e a rir mais de si mesma – e a descoberta de que as aparências, para algumas pessoas, importa muito. “Para elas, aparência é poder”, resume.

* Nome fictício a pedido da entrevistada

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