A mentira é uma das peças fundamentais da vida em sociedade. Só se torna nociva quando vira um hábito ou é usada para prejudicar o outro

Estudos estimam que mentimos, em média, três vezes por minuto
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Estudos estimam que mentimos, em média, três vezes por minuto

Se seu filho não mente, leve-o ao médico. É o que recomendam os estudiosos do comportamento. Mentir é um sinal de evolução e, sem ela, o mundo seria um completo caos. “A mentira é o pilar das relações sociais”, explica o filósofo e psicólogo evolutivo David Livingstone Smith no livro “Por que as Pessoas Mentem?”. "Não teria sido inadequado chamá-lo de Homo fallax ('Homem enganador') em vez de Homo sapiens ('Homem sábio')", ele escreve na obra.

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Nascemos, crescemos e morremos mentirosos. A mentira é tão inerente à natureza humana quanto emoções como alegria, tristeza e raiva. “Há estudos científicos que comprovam que bebês dão sorrisos falsos para estranhos”, diz o especialista Paulo Sérgio Camargo. “Eu minto mais do que o necessário e bem menos do que eu preciso”, confessa.

Desde cedo, a criança percebe as vantagens de mentir e irá fazê-lo pelo resto da vida. “Na escola, quando descobre que ao assumir seus erros é punida, ela começa a se esquivar de suas responsabilidades”, explica Paulo. As próprias mães são dúbias com relação à mentira desde o início da criação: elas dizem para o filho não mentir, mas quando a criança atende uma ligação indesejada, não hesitam em dizer: “Se for fulano, diga que não estou”.

Por dia, escutamos cerca de 210 mentiras. Quem afirma é Robert Feldman, professor de psicologia da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, e autor do livro "Quem é o Mentiroso da Sua Vida?", que realizou um estudo demonstrando que uma pessoa conta em média três mentiras a cada dez minutos.

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Mentiras sociais

Recorrer à inverdade é a chave do bom convívio social e um jeito de evitar conflitos e constrangimentos. Caso não seja identificada como mitomania (a mentira obsessiva-compulsiva), afirmar aquilo que se sabe ser falso – ou negar o verdadeiro – é uma maneira de proteger o outro. São as chamadas mentiras sociais. “Mentiras leves e inocentes são aceitáveis, mas a franqueza e a honestidade devem ser sempre privilegiadas em uma relação”, diz o psiquiatra Jairo Mancilha, PhD em neurolinguística.

Mentiras sociais são diferentes da mitomania e servem como base para o bom convívio
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Mentiras sociais são diferentes da mitomania e servem como base para o bom convívio

A mentira também serve para proteger e manter o vínculo. “Às vezes a verdade nua e crua é crueldade. Tem que ter limite, mostrar dente demais magoa. Calar-se e esperar momento mais adequando para falar é a melhor saída”, explica Leila Tardivo, psicóloga e professora Instituto de Psicologia da USP.

A distinção entre uma “boa” mentira e uma prática desonesta está fundamentada na avaliação das consequências do ato. “A mentira é grave quando toma proporções intensas e a pessoa não assume os próprios atos, prejudicando a si própria e ao outro”, completa.

Preservar a própria privacidade ou santificar o morto também são motivos comuns e aceitáveis para lançar mão do recurso. Na minissérie “Maysa” (2009), a maneira como a diva da música brasileira morreu foi tratada em tom muito menos trágico do que a realidade.

A mentira também é aceita – e até louvada – em um caso extremo de mirar em um bem maior. Um caso clássico é o de Aracy Guimarães Rosa, mulher do escritor Guimarães Rosa. Funcionária do consulado de Hamburgo, na Alemanha, ela falsificou diversos passaportes para enviar judeus perseguidos pelo regime nazista ao Brasil durante as décadas de 1930 e 1940.

Claro que mentiu por razões nobres. Como já cantava o poeta Noel Rosa, morto em 1937, “saber mentir é prova de nobreza. Pra não ferir alguém com a franqueza, mentira não é crime. É bem sublime o que se diz mentindo para fazer alguém feliz”.

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