As idades dos noivos somam quase um século e meio. Mas foi o primeiro casamento tanto de Isabel, 78, como de Agenor, 71

O padre estava surpreso. "É a primeira vez que celebro a união de dois corações tão experientes". A amiga de longa data mostrava descrença. "Isabel vai casar? Só acredito vendo". Já a companheira de quarto pendeu para esperança. "Quem sabe hoje eu encontro aqui a minha cara metade", dizia enquanto retocava o batom no meio do salão.

Todas estas opiniões se encontraram às 15h43 do último sábado (23). Com quarenta e três minutos de atraso, perdoáveis para qualquer noiva que se preze, Isabel Bezerra da Silva adentrou o salão ao som da marcha nupcial pela primeira vez na vida, aos 78 anos. Perto do altar, Agenor Santos aguardava a mulher que "escolheu para ser sua família", com certo nervosismo (não parava de checar os ponteiros do relógio). Ele, aos 71 de idade, também estreou no matrimônio.

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Isabel e Agenor celebraram a união no asilo onde moram, na zona leste da capital paulista. A troca de alianças mostrou "que o amor não se aposenta", como dizia a noiva minutos antes da entrada triunfal, enquanto brigava com os cílios postiços.

Os anéis também uniram oficialmente duas histórias que têm mais pontos em comum do que o primeiro casamento tardio. Tardio porque ambos já estão no último degrau da régua da expectativa de vida do País – 70,6 anos para homens, 77,7 para mulheres, segundo o Censo de 2012. “Mas amor não tem idade e, para mim, só apareceu depois de velho”, falava o noivo.

Isabel e Agenor diante do bolo de casamento
Bruno Zanardo/Fotoarena
Isabel e Agenor diante do bolo de casamento

Amor não tem idade. E, para mim, só apareceu depois de velho

Pontos em comum

Até chegarem ao grande dia, o casal enfrentou, cada um na sua estrada, a falta de emprego com carteira assinada. Migrantes do nordeste brasileiro – ela de Alagoas, ele da Bahia – só tiveram educação informal suficiente para escrever o nome nos documentos. A assinatura, que aprenderam a desenhar, estampou o registro civil que oficializou a união pouco antes da cerimônia religiosa.

Antes de chegar ao asilo em 2009, Agenor morou em albergues para sem- tetos no Brás, centro de São Paulo. Isabel é moradora do asilo há 12 anos e, até fazer da instituição sua casa, dormiu embaixo da ponte do Limão, na zona norte.

Hoje, eles dividem o espaço no asilo Pró + Vida com outros 28 idosos de histórias parecidas com as deles, com idades entre 60 e 102 anos.

"Casamento entre dois moradores foi a primeira vez que tivemos que organizar aqui", afirmou Nanci Paulino Bernardo, 42 anos, diretora do Pró + Vida, que no dia da festança acordou às 4 horas da manhã para dar conta de tudo.

Nanci é uma espécie de mãe da noiva. Tanto que foi para ela que Agenor, depois de três anos de namoro, pediu a mão de Isabel. Era o início de 2012.

Encontro de gerações

A casa onde moram e casaram Isabel e Agenor sobrevive de doações. E o casamento também só saiu - depois de idas e vindas do casal, impulsionadas por ciúmes e boleros dançados com outros pares - por meio de uma rede solidária formada por jovens entre 25 e 30 anos.

Voluntários do Atados, convidados e moradores do asilo se misturaram na pista
Bruno Zanardo/Fotoarena
Voluntários do Atados, convidados e moradores do asilo se misturaram na pista

Eles são da ONG Atados, que cadastra instituições carentes e organiza 'atos' para angariar fundos e viabilizar eventos. Faltavam quinze dias para o “sim” quando o Atados ficou sabendo do casamento de Isabel e Agenor. Jogou a história nas redes sociais pedindo doações. Deu certo.

No dia da união, 40 jovens do Atados participaram como voluntários. Vestiram roupas de festa e fizeram o papel de garçons, decoradores, DJs, fotógrafos. Levaram na bolsa doações de bem-casados, doces, bolo (de três andares!), flores, estrutura de som e de filmagem, tudo conseguido via internet. Ao fim, as meninas dividiram espaço com as senhoras na disputa pelo buquê.

Levou a melhor a "garçonete" por um dia Amanda Oliveira, 25 anos, que agarrou feito goleira o arranjo de rosas brancas e amarelas arremessado por Isabel. "Acho que agora meu namoro engata", brincou a jovem.

Escolhi esse roxinho porque não pega bem casar de branco na minha idade. Sou noiva pela primeira vez, mas já tenho certa experiência

Núpcias na casinha

Além dos jovens do Atados, os vizinhos do Pró + Vida também ajudaram a dar forma ao casório. O salão de beleza próximo ofereceu o dia da noiva à Isabel, com direito a unhas decoradas em bordô, combinando com o vestido. “Escolhi esse roxinho porque não pega bem casar de branco na minha idade. Sou noiva pela primeira vez, mas já tenho certa experiência”, justificou Isabel a escolha da roupa, doada por uma loja de aluguel.

A “certa experiência” citada pela noiva estava adormecida havia anos. “Já namorei muito nessa vida, mas no asilo as meninas dormem em um quarto e os meninos dormem em outro”, contou. “Eu e o Agenor nunca dividimos a cama nesses três anos de namoro. Então esta noite será de núpcias mesmo. Depois dos convidados irem embora, vamos para nossa casinha e...não preciso dar mais detalhes, né?”, desconversou Isabel, com sorrisinho agora totalmente encabulado.

A lua de mel do casal seria em uma casa na mesma calçada do Pró + Vida. A partir do casamento, o quarto-e-sala é o novo endereço de Isabel e Agenor. O proprietário do espaço, de identidade não revelada, doou em definitivo a residência para os noivos, que permanecem sendo cuidados pelo asilo. “Casei e ganhei casa. Nossa Senhora! Meu sonho está quase completo.”

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Sobrenomes

O ingrediente que falta para a felicidade plena da noiva é o encontro com o filho. Nas andanças entre Alagoas e São Paulo, Isabel engravidou três vezes. Os dois primeiros rebentos morreram ainda meninos. O caçula ela não vê há mais de 25 anos, desde quando deixou uma cidade na região metropolitana de São Paulo, onde morava em uma chácara com o rapaz, para procurar emprego como doméstica na capital. Quando voltou à Itapecerica da Serra não encontrou mais o filho que, pelas contas, já estava com uns 30 anos.

“O nome dele é Antônio Carlos de Lima, nascido em 20/03/1954. Se ele também estiver me procurando, é bom avisar: meu nome mudou. A partir de agora, sou Isabel Bezerra da Silva Santos”, enfatizou o último sobrenome. “É. Adotei o Santos do meu marido Agenor”, disse, com sorriso estampado, quase, quase pleno.

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