Especialistas apontam para a necessidade de criação de móveis específicos para a nova classe média brasileira

A indústria moveleira no Brasil, até pouco tempo marcada pela disparidade entre os móveis populares e os de luxo , vê surgir um novo nicho de mercado, a classe C. Disposta a adquirir produtos de maior qualidade e muitas vezes contaminada por referências das classes mais abastadas, ela, entretanto, não tem condições de pagar os mesmos valores, ainda que o tíquete médio de compra tenha aumentado.

Atento às novidades, o consumidor da classe C busca móveis com conforto, beleza e durabilidade
Divulgação Casas Bahia
Atento às novidades, o consumidor da classe C busca móveis com conforto, beleza e durabilidade
“Antes, nosso campeão de vendas era um modelo de cozinha compacta, com três peças, de R$ 199,00”, conta Jonas Victor, diretor de móveis da Casas Bahia. “Hoje, é uma cozinha modulada, muito similar às planejadas disponíveis no mercado, que custa R$ 799,00”, completa.
Mas conquistar esse público é um desafio relativamente novo para designers, fabricantes e lojas. “É preciso pensar nessa classe emergente com respeito e sensibilidade”, afirma a antropóloga Luciana Aguiar, sócia da empresa de consultoria e pesquisa Plano CDE. Ela explica que, além de os espaços disponíveis serem diferentes, as referências estéticas das classes mais baixas são outras. “Elas vêm da cultura popular, enquanto a elite está muito mais ligada a tendências”, diz

O designer Marcelo Rosenbaum, que já criou linhas de produtos focadas em classes populares, concorda e acrescenta: “Existe um gosto que não tem nada a ver com o minimalismo que impera nas casas de luxo, e isso deve ser levado em conta. Como já disse Joãozinho Trinta, quem gosta de simplicidade é intelectual.”

Um novo móvel para a classe C

Nos últimos 50 anos, a grande massa populacional que compunha a base da pirâmide social brasileira tinha acesso a móveis cuja produção priorizava a quantidade em detrimento da qualidade, conforme aponta o consultor Antonio Franco, que em 2010 concluiu um mestrado sobre o tema na Universidade de São Paulo.

Mas a classe C está mais exigente. Na opinião de Jonas Victor, o acesso à informação transformou este consumidor em um cliente exigente e antenado com as novidades, que busca um produto com conforto, beleza e durabilidade. “Ele é mais criterioso e valoriza seu dinheiro. Quer qualidade, sem perder de vista, claro, preços e condições de pagamento atrativos.”

Materiais menos espessos e mais leves barateiam o custo do móvel
Divulgação New
Materiais menos espessos e mais leves barateiam o custo do móvel

Para Edson Busin, gerente de marketing do Grupo Unicasa, uma das maiores fábricas do polo moveleiro de Bento Gonçalves (RS), detentora das marcas New, Favorita e Dell’Anno, a classe C entendeu que ter um móvel planejado, que seja funcional, “tenha uma estética bacana e caiba no seu bolso” é a melhor opção.

Ademir Bueno, gerente de design e tendências da Tok&Stok – tradicionalmente visitada pelo público AB – observa que nos últimos anos a classe C passou a frequentar mais as lojas da rede. “Em geral, eles buscam móveis com dimensões pequenas, como sofás retráteis e pufes”, diz o executivo. “Os consumidores estão fugindo dos móveis tradicionais e optando por aqueles com design arrojado, mas com tamanhos reduzidos”, afirma o diretor comercial do Magazine Luiza, Ricardo Saluti. Reflexo direto do novo perfil de moradia, que conta com ambientes compactos.

Detalhes que fazem a diferença

Alexandre Lazzarotto, diretor de design do Sindicato das Indústrias de Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), mostra que chegar ao produto ideal para a classe C não é tão difícil quanto parece. “Com pequenas mudanças no desenho, nos materiais e no acabamento dos móveis é possível desmitificar a ideia de que produzir móveis com design de qualidade gera custos muito altos.”

Ele explica que o móvel para um ambiente menor pode ser mais fino, mais baixo e menos profundo. “As madeiras usadas em peças destinadas à classe C têm, em geral, de 12 mm a 15 mm de espessura, enquanto as para as classes mais altas vão de 16 mm a 24 mm.”

No que diz respeito aos revestimentos , o representante do Sindmóveis acredita que é possível optar por um produto de qualidade, como os laminados melamínicos, sem gastar muito. Isso porque os tamanhos dos móveis que essa classe procura, em geral, são menores. O que também reduz o gasto com dobradiças, que não precisam ser tão robustas. “Mas isso não quer dizer que elas não podem ser modernas”, explica Lazzarotto.

Esses detalhes de composição, de acordo com pesquisa feita pela Casas Bahia, são, ao contrário do que se pode imaginar, fatores que ajudam a decidir a compra. “Hoje, o público quer gavetas com corrediças telescópicas e pistão a gás nos armários basculantes das cozinhas modulares”, afirma Jonas Victor, diretor de móveis da rede. Outras exigências comuns são os puxadores de alumínio e o revestimento com verniz UV, que não deixa o produto se desgastar durante a limpeza e a exposição ao sol, garantindo assim sua durabilidade.

Edson Busin, do Grupo Unicasa, traz o exemplo das bancadas usadas em cozinhas e banheiros . “Enquanto na Dell’Anno – marca mais focada no público A – usamos materiais mais nobres, como o Corian, na New, destinada à classe C, priorizamos o granito”, diz. “Mudamos a matéria-prima, mas não abrimos mão do bom design, preservando a modernidade do produto”, completa.

Fontes:

Antonio Franco

Casas Bahia

Magazine Luiza

Marcelo Rosenbaum

New

Plano CDE

Sindmóveis

Tok&Stok

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.