De malas prontas para os EUA, o designer venezuelano Pedro Useche lamenta a dificuldade de produzir no País

O arquiteto e designer venezuelano Pedro Useche mora no Brasil há 30 anos, mas está prestes a arrumar as malas rumo aos Estados Unidos. Apesar de uma carreira consolidada no País, ele não conseguiu bons resultados em sua fábrica e, hoje, tem de fazer parcerias para ver suas obras à venda. “A quantidade de impostos no Brasil inviabiliza produtos de design com preço acessível, por isso, resolvi terceirizar a produção e vender as peças em lojas parceiras”, afirma. “Sempre quis ver minhas peças nas casas de muitos brasileiros, contudo, o preço alto que os lojistas cobram pelas obras torna o design algo de elite.”

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Mas a viagem do designer de 58 anos também está relacionada ao futuro profissional do filho León, 14, que pensa em ser jogador de futebol americano. “Parte da minha família mora nos EUA e trabalha na área de construção. Iremos ficar uns cinco anos lá e talvez concentre meus esforços na arquitetura”, revela, com perspectivas de continuar com negócios no Brasil. Pedro Useche tem a carreira marcada pela criação de peças premiadas como a cadeira “Mulher” – confeccionada em metal e madeira , símbolo de uma fase mais artesanal. “Usava muita solda e formas inusitadas nesta época. Esta cadeira tem círculos no encosto que lembram os seios femininos. É quase uma personagem própria”, afirma.

O resultado da ousadia foi a menção honrosa no concurso do Museu da Casa Brasileira em 1990. E não parou mais. Mesmo formado em arquitetura pela Universidade Central da Venezuela, resolveu aproveitar o sucesso da cadeira e produzir outras peças. Aprendeu noções de desenho industrial por conta própria e abriu um escritório onde funcionava também o ateliê e a loja, administrada pela esposa Célia. A estética modernista estava em voga e Useche mostrou toda a influência de Le Courbusier e Charles Eames em obras repletas de metal, madeira e couro.

O modernismo havia chegado inclusive no estilo da casa do designer, no bairro do Real Parque, em São Paulo (SP). Useche reformou a cobertura em 1984, para morar com a esposa, e não hesitou em ousar na distribuição dos ambientes. “A planta tinha muitos corredores e quartinhos. Resolvi apostar na integração dos espaços e em uma decoração mais limpa, com móveis que eu mesmo criei”, diz. O sucesso do projeto resultou em outras reformas, mas a carreira de designer sempre falou mais alto.

O acerto na ergonomia das peças está entre as prioridades do designer Pedro Useche
Edu Cesar
O acerto na ergonomia das peças está entre as prioridades do designer Pedro Useche

Em 1995, surgiram obras como o banquinho Siri, produzido em madeira e criado a partir da necessidade de ter um apoio para calçar os sapatos, e a cadeira “R”, feita com ripas de madeira de três milímetros de espessura. Criações que explicitam a preocupação constante de Useche em fazer peças marcadas pela economia de material, investigação rigorosa de proporções e pela grande mistura de materiais. “Minha inspiração é o desafio de criar. Fazer cadeiras é muito difícil porque não se trata de um questionamento sobre a funcionalidade, mas sim sobre o que é realmente novo no projeto. Além disso, busco encontrar os melhores ângulos para deixar a peça confortável ”, afirma.

“Useche consegue juntar madeira, couro e aço com uma sobriedade muito coerente. As cadeiras marcam o seu trabalho e é nítida sua preocupação com o conforto do cliente”, afirma Alex Lipszyc, arquiteto e diretor da Escola Panamericana de Arte e Design.

O envolvimento com o design e a vontade de produzir móveis fizeram que Pedro Useche, no final da década de 90, abrisse uma fábrica em Santo Amaro. No espaço de 200 m², foi produzido o revisteiro Eixo 7, de madeira cumaru e prateleiras metálicas, que participou da Bienal de Design na França em Saint-Etienne e ganhou o 1º lugar no XII Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. Outro ponto forte deste momento foi a cadeira “Flexus”, que surpreendeu o mercado com uma estrutura baseada no sistema de muletas (com ripas de madeira cumaru e conexões em aço inox).

“Pedro Useche conseguiu uma linha própria trabalhando com materiais (a madeira, por exemplo) já consagrados por muita gente boa. É impressionante o patamar técnico atingido por ele”, diz Giorgio Giorgi, designer e professor de design de projetos da Faculdade de Arquitetura da USP.

Os custos de manter uma equipe e o aumento da concorrência, entretanto, acabaram influenciando no fechamento da fábrica em 2008. Hoje, o designer usa o local apenas como ateliê e recorre a parceiros para continuar a produzir. Um deles é a Schuster – que apresentou recentemente uma coleção de 15 peças assinada por ele. “Useche tem experiência e enxerga todo processo fabril. Além disso, entende a resistência dos materiais e sabe como aproveitar a flexibilidade do couro e a delicadeza do metal”, afirma Mila Rodrigues, diretor de criação da Schuster.

Pedro Useche já se aventurou como professor de design de produto na Escola Panamericana de Arte e Design, mas hoje não quer mais dar aulas. Ligado à música, ele pensa em aproveitar o momento nos Estados Unidos para, em alguns anos, quem sabe, voltar definitivamente ao Brasil repleto de novas ideias.

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