Criado pelo estilista Heitor Werneck, o evento reúne mensalmente adeptos do fetichismo para que eles possam viver sem medo suas maiores fantasias

Um lugar com muito couro, vinil e látex. Um ambiente para as pessoas explorarem seus mais íntimos desejos e fantasias. Um espaço em que as pessoas não precisam ficar inibidas, com medo de sofrer qualquer tipo de preconceito apenas por ter um interesse sexual não tão comum, um fetiche.   

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Fetiche é o principal foco da festa temática que acontece mensalmente na cidade de São Paulo desde 2006
Isa Hansen
Fetiche é o principal foco da festa temática que acontece mensalmente na cidade de São Paulo desde 2006

Essa é a proposta do Projeto Luxúria, que desde 2006 leva para as noites da cidade de São Paulo festas temáticas ligadas ao fetiche . O idealizador é o estilista Heitor Werneck, que chegou a assinar o figurino de novelas como Vamp e Pecado Capital, e é um personagem único do universo gótico da capital paulista e do país.

Nos anos 90, a marca de roupas Escola de Divinos representava fielmente o seu gosto, que sempre se apoiou nas fantasias sexuais. Entretanto, por conta de um câncer, precisou deixar o trabalho de lado. “Foi quando uma amiga gringa me falou: ‘você sempre fez roupa, por que não continua fazendo festas?’”, conta em entrevista ao Delas . A amiga já fazia eventos na mesma pegada em Londres, na Inglaterra, e, assim, surgiu o Luxúria.

Nada de sexo explícito

Não se trata de um clube de swing e não há pessoas fazendo sexo pelos cantos para que outras pessoas assistam. Esta, segundo Heitor, é uma visão preconceituosa que muitas pessoas podem ter deste tipo de evento. A verdade é que tudo ocorre dentro dos limites – mesmo com todas as pessoas explorando as próprias fantasias.

Há casais que vão para a festa, se excitam e voltam para transar em casa. Há também aqueles que preferem usar as cabines que existem no local, que são reservadas, para se satisfazer. E ainda há quem só quer conhecer o ambiente e observar, sem precisar participar de nada. A regra é um respeitando sempre o outro.

A comunicação e o respeito é também lei dentro do fetiche. Um homem que gosta de dar um tapa em uma mulher durante uma relação sexual não vai – ou melhor, não deve – fazer isso em uma parceira que não é adepta da mesma fantasia. As pessoas apenas exercitam o que gostam e o que estão abertas a experimentar.

“Para um casal que nunca foi, mas viu o filme ‘Cinquenta Tons de Cinza’ e quer experimentar essa ideia de dominador ou dominadora, é a festa ideal”, garante Heitor. Uma dica para quem quiser descobrir este universo é que o idealizador fica na porta do evento recebendo cada convidado e é super aberto para apresentar a festa e outras pessoas para os novos clientes. “Sou um garçom de bunda”, brinca o estilista.

Fantasias

A festa segue um dress code, para que as pessoas possam, de fato, entrar em seus personagens. Entretanto, alguns homens e mulheres têm fetiches, desejos, querem apimentar a relação, mas não vão para a festa porque acreditam não ter roupa. “Mas não precisa usar vinil ou couro, por exemplo. Só vai de preto, daí não tem problema”, conta Heitor. O que vale mesmo é a experiência inicial. Com o tempo, a pessoa pode ir se adaptando.

Dentro do ambiente é que as fantasias vão se libertar mesmo . No local, existem espaços específicos para cada tipo de fetiche. Quem curte o Pet Play, por exemplo, que é a vontade de se comportar como animais, pode usar um curral que existe lá para brincar. As fantasias mais vistas são de cachorro ou gato.

Outro espaço é o cinema, onde mulheres ficam sentadas em poltronas para receber massagens nos pés por pessoas podólotras, que sentem prazer com pés. Há quem goste também de ser pisoteado, dependo do nível de podolatria. Os homens são os que mais gostam de pés, segundo Heitor.

Mas o que mais se vê mesmo são adeptos do spanking –onde homens e mulheres permitem receber tapas – o uso de velas e a submissão e dominação.

Pode de tudo?

O lugar foi criado para que as pessoas libertem suas mais íntimas fantasias, mas não deixa de ser um ambiente fechado e um local de uso coletivo, então também tem seus limites e proibições. Menor de idade não entra, por exemplo, e o uso e comércio de drogas também não pode ser feito. Pessoas inconvenientes acabam sendo retiradas e nada de fotografar dentro do local, nem mesmo com celulares.

Em relação às práticas, a chamada escatologia não pode ser feita em qualquer lugar. Heitor tem noção que muitos de seus clientes gostam de se rastejar pelo chão, mas nem todos são adeptos da prática sexual com fezes e urina. Assim, o ambiente também precisa ser mantido limpo. Para quem gosta, ele disponibiliza um lugar com chuveiro.

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Suspensão corporal e apresentações que envolvam sangue ou agulhas são só feitas por ele, que tem medo que outras pessoas acabem se machucando. Brincadeiras com fogo, o Fire Play, não são permitidas, e Heitor tenta acompanhar todas as cenas de spanking para que ninguém se machuque.

Periodicidade

Festas acontecem mensalmente, cada uma com seu tema e um dress code específico, mas vai vestido que pode pagar
Divulgação
Festas acontecem mensalmente, cada uma com seu tema e um dress code específico, mas vai vestido que pode pagar

A próxima festa do Projeto Luxúria vai acontecer no próximo sábado (8) na Rua Aurora, na República. O tema será magia e mais informações podem ser conferidas no site oficial do evento. Normalmente, a festa ocorre mensalmente.

Os valores de entrada variam com a adequação ao dress code. A base é R$ 150 o básico ou R$ 200 com consumação, mas quanto maior é a produção para o evento, mais barato a pessoa vai pagar. “Aqui no Brasil não existe roupa de fetiche. É muito caro. Eu crio esses temas para gerar interação, mas as pessoas podem se divertir sem ter obrigação do couro, látex, vinil ou sapato de salto. E como eu sei que a pessoa já gastou grana com a roupa, o preço de entrada cai”, explica Heitor.

O público varia muito, desde “pivetada” até terceira idade. Algumas vezes, as festas ficam cheias de pessoas com 18, 20 anos. Entretanto, no mês seguinte, pode ser que só apareçam clientes mais velhos. As opções sexuaisde cada pessoa também variam muito. O som fica por conta de música dos anos 80 – um gosto típico do brasileiro, brinca Heitor – e rock.

Nova coluna

Fetiche deve vir acompanhado de muita comunicação e respeito para que ninguém passe dos limites estabelecidos
Isa Hansen
Fetiche deve vir acompanhado de muita comunicação e respeito para que ninguém passe dos limites estabelecidos

Em breve, Heitor Werneck se tornará o novo colunista do portal iG. O estilista vai ter uma coluna própria para falar sobre fetiche, sexo, moda e comportamento. Ele alerta que não é sexólogo, mas tem muita experiência de vida.

“Sou muito sortudo. Tive uma educação sexual muito boa quando criança. Fui muito bem criado a partir dos onze anos – quando se mudou para a Alemanha, deixando os pais no Brasil. Sou um ser sexual e comecei a me masturbar muito cedo. Mas tive bons professores e pessoas ao me lado que me explicaram o que estava acontecendo.”

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Desde sempre, ele teve a noção de que o sexo precisa ser respeitoso com todas as pessoas envolvidas. “Descobri que sexo é da ponta do pé até a cabeça, não só pênis, vagina e ânus. Depois, fui começando a entender a diferença entre um cara que gosta de sofrer e um cara que sofre na cama.”

O estilista até chegou a se relacionar por bastante tempo com uma pessoa que não era adepta ao fetichismo, mas não deu certo. “Eu me reprimi sexualmente e a gente brigava muito. Fetiche vem de feitiço, que é encantar. Eu preciso encantar e ser encantado no sexo”, explica Heitor, que afirma ser sexualmente muito bem resolvido, e, com certeza, por conta da prática. Hoje, ele afirma: só o orgasmo salva.

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