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Durante o começo da pandemia, o Brasil registrou altos índices de óbitos entre mulheres grávidas contaminadas com a Covid-19, com pico em 2021, quando o país registrou 1.488 casos. Um estudo recentemente publicado pelarevista científica The Lancet Americas, mostra que essas mortes ocorrem devido a peculiaridades do sistema de saúde, o que inclui demora no atendimento até a priorização da vida do feto em detrimento da gestante. 

Liderado pela professora da Universidade de Brasília, Débora Diniz e as pesquisadoras Luciana Brito e Gabriela Rondon, do Instituto Anis de Bioética, foram entrevistadas 25 famílias de mulheres grávidas que morreram em decorrência do coronavírus. 

Segundo os participantes da pesquisa, as gestantes chegaram a percorrer até 5 unidades de saúde até receber tratamento. Isso fez com que muitas delas tivessem seu estado de saúde agravado e fosse a óbito. De acordo com dados mostrados no estudo, 59% das vítimas não tinham fatores de risco. 

As pesquisadoras conseguiram identificar três pontos principais que causaram o aumento das mortes. São eles: a  dificuldade de perceber os sintomas da Covid, a demora para ter acesso ao tratamento e o fato de colocarem bem-estar do feto em primeiro lugar, priorizando-os em detrimento vida da gestante. 

Demora no diagnóstico

"A razão inicial foi um atraso quando elas apresentaram um primeiro sintoma. (Os médicos) mandavam elas de volta para casa, não investigavam o sintoma de Covid. Tomavam a falta de ar, por exemplo, como um sintoma da gravidez”, explica Débora Diniz.

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Acesso ao tratamento

"Depois disso, com uma média de espera de sete dias, elas foram várias vezes ao hospital, algumas cinco diferentes centros médicos para conseguirem ser admitidas. Tinha uma barreira para a admissão. Os sistemas de saúde diziam que não atendiam grávidas [por estarem com urgência para pacientes de Covid-19] e as maternidades diziam que não atendiam Covid-19", segue a pesquisadora.

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Prioridade do feto

"Quando a paciente finalmente entrava no sistema, queriam salvar o feto em detrimento da paciente". Dos 25 casos investigados, 19 fetos sobreviveram. "Diziam que os tratamentos intensivos interromperiam a gravidez. Não dá para saber se eles salvariam as mulheres, mas eram a melhor medicina para o caso", afirma Débora Diniz. 

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Durante as entrevistas, diversas famílias relataram que nem sequer foram questionadas sobre a decisão de manter o feto ou a mulher vivos e quando as mulheres entravam na UTI, eles perdiam o contato. 

"Quatro delas disseram que pediram o contrário, para salvar ela, que poderia ter outros filhos. Mas quando [as pacientes] entravam na UTI, elas perdiam o contato com a família. Uma das famílias me disse que pediu ao médico que salvassem a mulher, mas não me ouviram", conta um dos entrevistados. 

Elas ainda destacam que outro agravante é que as gestantes não recebem a atenção devida nos centros de saúde, geralmente o foco era manter o bebe vivo até poder fazer um parto prematuro. 

"Identificamos essas barreiras impostas às mulheres grávidas em uma emergência de saúde. Elas não eram consideradas o centro da atenção. O centro era ganhar semanas para o feto desenvolver um pouco mais e sobreviver fora do útero, como um prematuro. Tanto que das 25 mortes, 19 o feto sobrevive. E seis desses casos eram gravidez de segundo trimestre. Era muito difícil que os fetos sobrevivessem”, aponta a pesquisadora. 

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