Imagem ilustrativa de crianças brincando
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Imagem ilustrativa de crianças brincando

O debate sobre a proibição de crianças em eventos e lugares públicos ressurgiu nas últimas semanas, após a influencer Yasmin Castilho dizer em suas redes sociais, que não iria convidar os filhos de todos os casais para o casamento. Segundo Yasmim, o convite não se estenderia por ela não ter dinheiro para bancar a quantidade crianças em sua família.

"Se eu for convidar o filho de todos os casais que eu tô convidando para o meu casamento... Eu não tenho condições, não dá. É muito. Tem muita criança na minha família, tem muita criança na família do Lucas. Nossos amigos, todos têm criança. Não dá", conta  nos stories

Apesar de logo depois ter se defendido dizendo que a proibição não era específica para crianças, a declaração acabou acabou gerando polêmica na internet, dividindo opiniões e alimentando o debate sobre crianças poderem ser proibidas de estarem em eventos e lugares públicos. 


Alguns internautas defenderam a influenciadora, argumentando que o evento é dela, tendo o direito de convidar ou não quem ela quiser. Mas para outros, a atitude foi vista como um ato discriminatório. 

"Vocês acham que alguém teria coragem de falar que não convidaria idosos porque o buffet cobra pela presença deles no casamento? Eu fico fascinada como falam isso em relação a criança", twittou uma das seguidoras. 

O debate sobre o poder ou não proibir crianças de estarem em lugares públicos não é de hoje, nas últimas décadas movimentos de pessoas que buscam por ambientes sem crianças ou que que estão dispostas a pagarem mais para não conviver com elas estão cada vez mais comuns. 

Além do mais, tem se tornado cada vez mais presente grupos de ódio direcionado a crianças na internet. Para Aline, mãe e criadora de conteúdo sobre educação positiva, não permitir que crianças frequentem ambientes públicos é um ato de violência. 

“É uma coisa violenta, o movimento que promove a exclusão  de seres humanos. Porque quando somos concebidos a gente tem direitos jurídicos, se um espaço é público, você não pode  querer impedir que um ser humano, inclusive de uma classe vulnerável frequente. E você quer excluir da sociedade até que se torne adulto, só porque você quer você não sabe lidar com esse ser humano que está em desenvolvimento é inaceitável", diz. 

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Aline acrescenta que excluir crianças da sociedade não afeta apenas a elas, mas também os seus cuidadores, especialmente as mães solo, que em muitos casos não possuem uma rede de apoio para poder frequentar eventos sociais que não permitam a presença de seus filhos.

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Mãe trabalhando enquanto cuida dos filhos
Foto de Ketut Subiyanto no Pexels
Mãe trabalhando enquanto cuida dos filhos

“Muitas mulheres não têm rede de apoio. Estamos em um país em que a maioria das crianças são abandonadas pelos pais, ficando toda a responsabilidade de criação nas mães. Quando a gente entende que as crianças não podem ficar sozinhas, seja aonde for. Você não tem uma rede de apoio e os espaços começam a excluir as crianças, você automaticamente exclui a mãe, porque ela simplesmente não tem como sair sem o filho”, desabafa. 

De acordo com o IBGE, o Brasil possui cerca de 11 milhões de mães solo, sendo as mais afetadas as mulheres pretas, com porcentagem de 61% de seus lares chefiados apenas por figuras femininas. Outro grupo que também é atingido são as famílias de baixa renda, que também possuem um alto número de mães que têm que arcar com todas as responsabilidades da casa. 

Aline ainda aponta que a mesma sociedade que exclui mulheres com filhos,  julga mães que saem de casa sem suas crianças. “Quando você é mãe as pessoas não chegam para perguntar como está o seu filho, elas perguntam onde está o seu filho, entende”, diz Aline.

A psicopedagoga Paula de Andrade, explica que a exclusão de crianças do meio social vem de uma questão histórica e que o reconhecimento da infância e da criança como um indivíduo é recente. 

“É uma questão histórica e social. A criança sempre foi vista como um "mini adulto". Assim, as particularidades e importância da infância para o desenvolvimento humano não foram respeitadas durante um longo período de tempo. O processo de mudança desse paradigma é recente e ainda precisa de muito comprometimento/interesse social”, explica. 

Paula ainda complementa falando sobre os malefícios que a marginalização causa no desenvolvimento. Podendo causar traumas e dificuldade no processo de amadurecimento. 

“A prática de exclusão dentro de um processo social, político e econômico (o que se configura como marginalização) pode causar traumas emocionais profundos, além de alterações neurológicas, dificuldades de aprendizagem, baixa motivação, ansiedade dentre outras diversas questões que precisam de um espaço de fala muito maior para serem descritas. Considerando a pouca maturidade neurológica e emocional presente no início da vida de uma criança, esses impactos são muito maiores”, acrescenta. 

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