A quarentena por causa do coronavírus impôs desafios extras para os pais separados que têm filhos. Muitos precisaram fazer ajustes na guarda compartilhada, abriram mão de seus dias com os pequenos ou até decidiram voltar a morar juntos durante a fase de isolamento social. Seja qual for a solução encontrada, especialistas dão dicas para tentar deixar o período mais seguro e menos confuso para as crianças.

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A quarentena pode confundir os filhos, mas é necessário uma conversa franca para esclarecer as crianças
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Os pais devem sempre conversar, dar exemplo e entender o que levou aquela briga a acontecer


O publicitário Rodrigo Neves, de 37 anos, é um dos que resolveram encarar a quarentena com a ex, para não sair de perto da filha Clara, de 5 anos:

"Decidimos morar todos juntos agora porque a Clara é acostumada a ficar nesta casa, em Jacarepaguá. Quando um está com a guarda vem para cá, e o outro sai. Aí achamos que era mais cômodo para ela ficar aqui, que tem espaço amplo, área verde etc".

Neves, que já está saindo com outra mulher, conta que ficar de novo debaixo do mesmo teto com a ex tem sido bem confuso. Até porque a separação é recente (aconteceu em outubro do ano passado).

"A Clara está amando ver a gente aqui junto o tempo todo. Logo na primeira semana já começou uma reaproximação. Isso me confundiu no processo, pela questão da família, da filha. A gente acabou transando. Fomos ver um filme juntos, nossa filha veio dormir com a gente depois. Mas os últimos meses foram muito sofridos para nós dois. Acho que vamos ter que rever essa decisão de passar a quarentena juntos".

Ele acha que essa decisão deve ser mais fácil para casais com mais  tempo de separação e uma situação melhor resolvida:

"Acho que as coisas também estão tomando lugar. A gente se identifica como família, temos cuidado um com o outro, temos que pensar no que é melhor para nossa filha. Aos poucos acho que a separação vai ficar mais clara, estamos nos definindo melhor. Espero que depois disso tudo a gente esteja mais unido e brigue menos, estejamos mais harmoniosos, mesmo que separados".

Para a educadora parental Marina Gomes, se a decisão do casal for voltar a morar junto, mas mantendo a separação conjugal , é preciso ter muita transparência com os filhos durante o processo.

"Ao ver a verdade na fala dos pais, a criança se abre para falar o que sente e, com isso, os pais têm mais informações para trabalhar e cuidar das confusões que esse novo arranjo pode trazer. O primeiro passo é explicar para a criança que não são mais um casal, mas continuam como um time, uma família, e sempre serão. E, em momentos de crise, o time se une para um melhor resultado. De forma bem prática, dizer para a criança que o papai e a mamãe, ou a mamãe e a mamãe ou o papai e o papai não namoram mais, mas serão sempre papai e mamãe, ou qualquer que seja a parentalidade exercida".

"Vale um recontrato de como será esse retorno. Para começar, onde cada um dorme, o que cada um faz, quando e como. Exemplo: quem cozinha ou lava, horários divididos de home office e brincadeiras individuais e coletivas com a criança. E lembrar que a escolha de ficar ou não junto é dos pais e que conflito só tornará o processo mais doloroso para todos".

Acordos de horários e afazeres domésticos

O administrador Felipe Menezes, de 36 anos, fez outro arranjo com a ex-mulher Fernanda para dar conta da guarda compartilhada do filho Pedro. Normalmente, ele fica com o menino às terças e quintas, e ela, às segundas e quartas. Os finais de semana são alternados. Agora, eles mudaram o esquema para ter menos “vai e vem”:

"Ele fica com a mãe de domingo a quarta e depois vem para cá. Nós dois estamos em home office , então para ela está difícil porque mora sozinha. Eu moro com a minha mãe, então tenho ajuda quando preciso trabalhar. Quando bate saudade, a gente faz chamada de vídeo. A gente tem um relacionamento muito bom. Se achar que precisa rever o esquema de novo, a gente vai falando e muda".

Menezes não acha que as mudanças impactaram o filho:

"Ele está mais carente, mas não acho que esteja estranhando não. Deve ser mais difícil para pais que não têm boa relação, porque não conseguem combinar com calma outros arranjos e aí acaba sobrecarregando alguém nesse período, geralmente a mãe".

Alessandra Vilas Bôas, pediatra do Hospital dos Servidores do Estado e do Hospital Estadual da Criança, dá algumas orientações para quem está mantendo a guarda compartilhada durante a quarentena:

"Se um dos responsáveis está muito exposto (por exemplo, um médico de CTI), é melhor ficar só com o outro neste período. Se as famílias forem harmônicas, o ideal é tentar diminuir o vai e vem. De repente, ficar um tempo maior com o pai e depois um tempo maior com a mãe".

A pediatra também alerta que é importante tomar todos os cuidados de higienização quando sair de uma das casas e entrar em outra:

"Se alguém estiver sintomático, seja a criança ou um dos responsáveis, a criança deve ficar na casa que iniciou os sintomas por 14 dias, e só depois ir para a casa do outro. Além disso, é importante lembrar que as crianças podem ser assintomáticas e exponenciais transmissores. Se uma das casas tiver pessoas do grupo de risco, principalmente idosos, tentar manter um distanciamento social entre elas e a criança".

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