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Seja no papel ou com o coração, o Delas conversou com duas mães que adotaram uma criança com a condição genética e muito amor para oferecer

O pequeno Miguel, de cinco anos, chegou à vida de Bianca Krauss, de 43, quando tinha apenas dois, em janeiro de 2016. Ao lado do marido, Rafael Freitas, de 39, ela entrou na fila da adoção e, pouco tempo depois, veio a notícia: um menino com síndrome de Down , que havia sido abandonado no hospital logo após o nascimento, precisava de uma nova família.

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Arquivo pessoal
Ao lado do marido, Bianca Krauss adotou o pequeno Miguel, que tem síndrome de Down; ao Delas, ela relata a experiência

A vontade de adotar já era um desejo da psicóloga que, após se casar novamente, queria ter mais um filho. Ela, que já tem uma menina de 22, tentou engravidar naturalmente, mas não conseguia e até pensou na fertilização in vitro. Apesar disso, ela já tinha planos de partir para a adoção. E assim seguiu até a criança com síndrome de Down entrar em sua vida.

Bianca conta que, durante a última reunião com a assistente social, viu a foto do bebê e logo se apaixonou por ele. Enquanto a documentação ficava pronta, ela visitava o abrigo diariamente. “Passei Natal e Ano Novo lá. Nesse tempo, fiquei montando o quarto dele, comprando roupa. Tudo para a chegada do neném. Foi maravilhoso”, conta à reportagem do  Delas .

Assim que chegou à casa nova, ele não andava, não falava, não se mexia e estava abaixo do peso ideal para a idade. Durante os primeiros anos, passou por diversas internações. Hoje, já está forte e saudável e, para ajudar em seu desenvolvimento, faz consultas com um fonoaudiólogo e realiza terapia ocupacional.

Felizmente, ele não tem complicações decorrente da condição genética , como a cardiopatia, por exemplo. Com o tempo, conseguiu se desenvolver mais. “O amor muda tudo. Com seis meses que estava em casa, já estava engatinhando, começando a ficar de pé e mais gordinho. O amor tudo supera”, afirma a mãe.

“É uma realização ser mãe dele”, diz a psicóloga. “Eu tenho a minha filha, a amo, mas eu e o Miguel temos uma ligação que eu não sei explicar. É uma coisa direcionada por Deus. É um amor. A gente se conhece pelo olhar. Ele sente quando eu estou bem e quando não estou”, expõe.

A atitude de Bianca de adotar uma criança com síndrome de Down já foi criticada, e a mãe diz que várias pessoas falam que ela fez caridade. Ela não se abala.

“Não encaro dessa forma. Vejo que ele fez muito mais bem pra mim do que eu possa ter feito para ele. Acrescentou muito mais em minha vida. Foi um presente de Deus”, detalha.

"Tem filhos que geramos no coração", diz mãe sobre bebê com síndrome de Down

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Em outro caso, uma mulher 'adotou' um bebê com síndrome de Down por quatro anos após perder um filho com a condição

Outra mulher, que também conversou com a reportagem do Delas e prefere não ser identificada, deu detalhes da sua relação com a síndrome de Down. Após a perda de um filho com a condição genética, ela entrou em depressão. No entanto, a situação mudou após uma vizinha, que também teve um filho com a síndrome, levá-lo em sua casa para conhecê-lo.

Com o passar do tempo, a criança começou a morar na casa dela – e por lá ficou durante quatro anos. A mulher não fez a adoção legalmente, mas com o coração. “Sou doente de amor por ele. Não o amo uma vírgula a menos do que minha filha mais velha. Sempre soube que ele não era meu, mas jamais imaginei que eu iria me separar dele”, ressalta.

A mãe abriu mão do menino, mas o pai voltou após esse tempo e resolveu buscá-lo. “Tive uma bebê faz três meses e estou muito feliz com ela, mas está faltando um pedaço de mim. Ele foi embora faz seis meses. Meu amor é imenso. Sei que em uma batalha judicial eu ganharia sem problemas a guarda dele, porém não é viável bater de frente”, conta.

O pequeno chegou à sua casa dois meses depois do falecimento do filho, em julho de 2014, aos sete meses. O menino usa válvula de traqueostomia e precisa de alguns cuidados. “Eu era tudo para ele e ele era tudo para mim. Cuidava dele intensamente. Trabalho com enfermagem e dava toda a assistência. Ele é muito esperto. Não fala, mas verbaliza de uma forma que dá para entender tudo”, expõe.

A entrevistada ressalta que esses anos que viveu ao lado da criança com a condição genética foram repletos de alegria. “Tem filhos que geramos no coração – e ele foi um. Não adotei no papel e sofri as consequências. Só rezo para que ele fique bem. Ele é muito querido, sociável e simpático. Sempre feliz”, afirma.

Hoje, só resta a saudade do pequeno com síndrome de Down . “A saudade dele me judia, mas não há o que eu possa fazer. Eu seguindo minha vida, mas sinto que falta um pedaço em mim. Ele me mantinha vida. E só espero que ele fique bem”, detalha.

Brasil prefere adotar crianças e adolescentes sem doenças e deficiências

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Bianca incentiva ação de crianças com síndrome de Down e outras condições; No Brasil, há quase 9,4 na fila de adoção

De acordo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), há 9.398 crianças e adolescente em todo o Brasil à espera de uma família. Em relação às doenças e deficiências, 1% tem HIV, 3,56% alguma deficiência física, 8,35% com deficiência mental e 13,14% com alguma outra condição detectada. 

Por outro lado, 45,6 mil pessoas constam como pretendentes no Cadastro Nacional de Adoção, sendo que 61,45% só aceitam adotar quem não tiver nenhuma doença ou deficiência. Outra preferência do público é pelos mais novos.

Para a psicóloga Bianca Krauss, que contou sua história no começo da reportagem sobre o filho adotado que tem a condição genética, adotar é uma atitude que vai além dessa vida. “Para mim, me fez muito bem. Eu e meu marido estamos pensando em adotar outra criança, mas quero uma mais velha, com sete, oito ou nove anos. Uma adoção tardia . A que Deus escolher para a gente", explica.

Ela continua. “Adotei uma criança com síndrome de Down e, para as mães que estão na fila e querem um bebê, digo: abra o coração para uma mais velha, com alguma síndrome ou deficiência que, com certeza, vai ser muito significante para cada uma delas. Quando você engravida, não sabe como o filho vai ser, mas você vai ser mãe e amar incondicionalmente”, finaliza.