Tamanho do texto

Utilizar uma linguagem simples, didática, informativa e sem juízo de valor é a forma mais indicada para responder as questões levantadas pelas crianças

Com o segundo turno eleitoral se aproximando, é cada vez mais difícil fugir e não falar sobre política . Diante da polarização e do discurso de ódio que avança, é natural que o assunto chegue até as crianças que abordam os pais com  perguntas  como “o que é ditadura?”, “como funciona uma eleição?”, “o que é direita e esquerda?” ou “qual o melhor candidato?”. Mas, como falar de política com as crianças?

Saber como falar de política com as crianças é fundamental já que eles chegam em casa com dúvidas e questionamentos
shutterstock
Saber como falar de política com as crianças é fundamental já que eles chegam em casa com dúvidas e questionamentos

Como falar de política com as crianças passa a ser uma questão espinhosa e que confunde os pais. Afinal, será melhor evitar ou falar abertamente sobre o tema? Na maioria dos casos, os adultos optam por não falar sobre assuntos complexos com a intenção de poupá-las emocionalmente e até por acreditar que elas não vão entender sobre o que se fala. Entretanto, essa não é a saída mais indicada.

“Ao invés de deixarem-nas à parte destes assuntos, sugiro uma linguagem simples, informativa, desprovida de juízos de valor e cargas emocionais pesadas”, indica a psicóloga escolar e orientadora parental Fernanda Rímoli. Para isso, usar exemplos do dia a dia da criança pode contribuir muito para o entendimento daquilo que os pais estão tentando explicar.

De acordo com Fernanda, quanto mais novos, mais curta deve ser a explicação dos pais. E não é preciso se preocupar tanto, já que a própria criança costuma dar dicas e sinais de como seguir na explicação, fazendo perguntas e manifestando emoções. Se a pergunta for “o que faz um presidente?”, por exemplo, atente-se para responder apenas isso, de forma curta e direta.

“Lembrando que, na maior parte das vezes, quem não lida bem com assuntos complexos são os adultos, pois as crianças têm grande capacidade de acomodar sentimentos e de se desenvolver a partir das situações de crise quando o contato com o assunto é feito cuidadosamente”, completa a profissional.

Como falar de política com as crianças diante da polarização

Como falar de política com as crianças em tempos de polarização: especialista indica linguagem clara, respeitosa e didática
shutterstock
Como falar de política com as crianças em tempos de polarização: especialista indica linguagem clara, respeitosa e didática

Estamos enfrentando um cenário de polarização política que reflete significamente nas relações sociais. Assim como os adultos, as crianças se sentem angustiadas e perdidas, sem entender o que está acontecendo no País. “A sociedade está angustiada com a situação política atual e as crianças não sentirão diferentemente de todos”, diz Fernanda.

Por isso, a psicóloga ressalta a necessidade do diálogo e a importância de falar sobre o sentimento que as crianças manifestam. “Acolher as dores deste processo será essencial, garantindo o bom relacionamento entre os entes familiares. Negar o momento pode ser muito prejudicial”, diz.

Junto da polarização, os noticiários mostram como atos de violência e intolerância política ganham espaço, o que também acaba influenciando o comportamento das crianças, que reproduzem comportamentos que presenciam em seu grupo familiar e social. Não é raro ver alguma criança fazendo o sinal de arma com a mão, por exemplo, ou discriminando um colega.

“Alguns pais estimulam a propagação de falas ofensivas, outros tentam contê-las nessas ações. Portanto, seria prudente que as crianças tivessem um contato saudável com os diferentes posicionamentos políticos, com a oportunidade de aprenderem a lidar com o diferente”, recomenda Fernanda.

Esse contato saudável com a pluralidade de posicionamentos e pensamentos vem do exemplo dado pelos adultos da família, o que nem sempre é simples, já que o que mais vemos são brigas e rompimentos por questões políticas.

“Quando há divergências entre adultos e estas não são tratadas de forma respeitosa pelas pessoas que a criança tem amor, corre o risco de ela fantasiar ter culpa pela discussão e/ou desenvolver medo de perder um dos entes queridos, responsabilizando-se por algo que não desrespeito a ela”, diz.

O mais adequado a se fazer diante da conjuntura atual é saber como falar de política com as crianças de forma didática, clara e respeitando as diferenças de pensamento que existem, mas sem reproduzir discursos e ações violentas. Além disso, é interessante pensar sobre como incentivar a participação política de crianças e adolescentes.

Crianças e adolescentes também podem fazer política

Como falar de política com as crianças? Incentivar a autonomia e a participação política desde pequenos é uma das formas
shutterstock
Como falar de política com as crianças? Incentivar a autonomia e a participação política desde pequenos é uma das formas

“A democracia se estabelece nas entrelinhas de nossas ações educativas. Ao encorajar uma criança a ser ela mesma, eu estou falando de política”, comenta a psicóloga. Desse modo, desde os primeiros anos de vida é possível pautar o tema com as crianças.

Fernanda fala que isso é viável na medida em que os pais acolhem as manifestações individuais dos pequenos ao mesmo tempo em que os ajudam a se manifestarem de uma forma socialmente respeitosa. “Quando maiores, a politização das crianças está no ato democrático de dialogar, escutando suas opiniões, mesmo que divergentes”, explica.

Nesse sentindo, de acordo com a psicóloga, o primeiro passo para incentivar a participação política de crianças e adolescentes é abrir espaço para uma educação menos repressiva e mais encorajadora. Aqui, é fundamental enxergá-los como cidadãos capazes de formarem opinião e se expressarem.

“Estimular a autonomia e a opinião de um jovem, muitas vezes é confundido com permissividade, entretanto, é fundamental validar seus sentimentos e expressões ao mesmo tempo em que transmitimos valores e sinalizamos os limites, para que possamos desenvolver jovens conscientes de si mesmos e de seu mundo”, complementa.

Recursos ajudam a falar de política com os pequenos

Livros e conteúdos audiovisuais são recursos que ajudam a responder a questão de como falar de política com as crianças
Divulgação
Livros e conteúdos audiovisuais são recursos que ajudam a responder a questão de como falar de política com as crianças

Uma boa forma de saber como falar de política com as crianças é utilizar recursos audiovisuais , livros e jogos que ajudam a explicar algumas ideias de forma simples, didática e divertida, aproximando termos complexos da realidade delas.

  • Livros

O livro “Eleição dos bichos” (Companhia das Letrinhas) explica de forma divertida e dinâmica como as eleições funcionam. A história começa com os bichos da floresta cansados dos abusos do Leão e determinados e eleger um novo líder. Mas, para isso, eles precisaram aprender tudo sobre esse processo.

A coleção “Livros para o Amanhã”, do selo Boitatá, foi pensada para crianças entre 8 e 10 anos de idade e discute a forma como as pessoas se relacionam na sociedade. Os três volumes da coleção são: “A democracia pode ser assim”, “A ditadura é assim” e “As mulheres e os homens”. 

“Quem manda aqui” (Companhia das Letrinhas) fala sobre as diversas formas de controle e poder. O objetivo do livro não é dar respostas às crianças, mas convidá-las a refletir e levar o assunto para dentro de casa e para a sala de aula. A ideia é que crianças e adultos questionem juntos como as coisas funcionam e reflitam como poderiam ser. Um convite desafiador, não é? 

  • Canal no YouTube

O canal do YouTube “Política para Menores” foi criado pelo publicitário Sergio Franco e tem como objetivo ajudar os pais a como falar de política com as crianças . Com uma linguagem didática, os vídeos são direcionados às crianças e aborda temas como “Criança pode votar?”, “O que é política?” e “O que é direita e esquerda?”. Para responder as questões, o publicitário aproxima os conceitos da realidade das crianças de uma forma divertida. 

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.