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Segundo a jornalista, desabafar com amigas virtuais, que passaram a frequentar sua casa, fez diferença. Para psicóloga, interatividade é positiva, mas requer discernimento: "Os grupos são a redescoberta da força feminina"

A jornalista Mariana Ferrão está em uma ótima fase na TV. Além de comandar o programa “Bem-Estar”, na Rede Globo, ela também faz parte do atual elenco do quadro “Dança dos Famosos”, exibido aos domingos. Quem vê o sorriso largo no rosto dela, porém, nem imagina que a mulher de 40 anos já passou por uma fase difícil e o que a ajudou foi um grupo de mães nas redes sociais.

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Mariana descobriu nos grupos de mãe que poderia buscar ajuda e também ajudar as colegas participantes
Ramón Vasconcelos/Rede Globo
Mariana descobriu nos grupos de mãe que poderia buscar ajuda e também ajudar as colegas participantes


Tudo começou após o nascimento de Miguel, que hoje está com cinco anos. Durante a licença-maternidade, Mariana se sentia só e foi diagnosticada com depressão pós-parto. Na época, a paulistana conta que resolveu escrever sobre o que sentia e compartilhou os textos na internet. A conexão com um grupo de mães , inclusive, foi o que fez a diferença na recuperação dela.

“Eu comecei a escrever para desabafar o que estava sentindo com um grupo de mães e foi aí que as minhas redes sociais começaram a crescer. Percebi, nessa época, que estava sendo ajudada enquanto também ajudava outras pessoas porque várias mulheres falaram que se eu passei por aquilo, elas também poderiam passar”, diz Mariana. “Muita gente acha que só porque trabalho na Globo não tenho problemas, e a vida não é assim. Faço questão de dizer que sou igual a qualquer outra pessoa que está aí, com desafios para enfrentar”, completa.

Só no Instagram, a jornalista tem 620 mil seguidores com quem compartilha descobertas da maternidade. Por experiência própria, inclusive, ela acredita que a internet pode ser um instrumento para ajudar mulheres em momentos complicados, como a  depressão pós-parto .

“A gente tem que saber administrar as redes, impor limites, e eu nunca tive problemas com o grupo de mães. As pessoas que falam comigo pelo Instagram dão muito conforto para mim. Fiz amigas nas redes sociais, naquela época, que até passaram a frequentar a minha casa”, conta .

Ao lembrar das conversas no grupo de mães, Mariana Ferrão diz que se sentia bem porque recebia, dava conselhos e também aprendia a lidar melhor com o fato de não ter sua própria mãe, que morreu há 20 anos, para ajudar nessa fase. A psicóloga e coach Thais Silva, especialista em relações humanas, avalia de maneira positiva essa interação na internet e fala que a conexão realmente pode ajudar mulheres que estão sofrendo com a depressão pós-parto.

“Ajuda a conectar, dividir histórias e experiências, encontrar pessoas com as mesmas questões e levar isso para o mundo real. Compartilhar as dificuldades é muito importante para não se sentir a única ou sozinha, assim como ter com quem dividir as pequenas vitórias e momentos de superação com quem já passou ou está passando pela mesma situação”, afirma.


Toda mãe de primeira viagem, por exemplo, tem dúvidas sobre amamentação, resguardo, rotina do bebê e outras tantas descobertas do período. Para quem quer seguir o caminho de Mariana e investir nas redes sociais, a dica da especialista é procurar fontes seguras e não focar apenas em grupos de mães anônimas para aprender mais.

“É bom seguir profissionais como pediatras ou psicólogos infantis. Assim, você não cairá no senso comum, ou seja, no que os outros dizem que é o correto, apenas porque no passado se fazia daquele jeito ou foi publicado em um grupo de mães”, aconselha Thais. Para ela, o ponto positivo de uma figura pública compartilhar que o pós-parto não é um tempo só de alegria, como Mariana Ferrão fez, está em gerar identificação, pertencimento e uma rede de apoio.

“O grupo de mães é ótimo em um momento de limitação da mobilidade. Também pode se tornar um momento de redescoberta da força do feminino e de união e colaboração com as mulheres da família, amigas antigas e novas, quando bem aproveitado”, completa a especialista, que não descarta o tratamento para a depressão com médicos especializados.

Fique atenta: grupo de mães não é a solução para todos os problemas

O grupo de mães é positivo quando todas as mulheres entendem que seus filhos não precisam agir do mesmo jeito
shutterstock
O grupo de mães é positivo quando todas as mulheres entendem que seus filhos não precisam agir do mesmo jeito


Embora a experiência de Mariana Ferrão nas redes sociais e nos grupos seja positiva, a exposição tem seus riscos e pode não funcionar com todas as mulheres. De acordo com Thais, há quem acabe se cobrando mais e até piore o quadro de depressão por achar que deve agir como as outras mães a partir de seus relatos.

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“É preciso tomar cuidado com a pressão da sociedade, da família, de amigos e do grupo de mães pela maternidade perfeita, que na grande maioria das vezes é apenas um ideal e não a ‘maternidade real’”, argumenta a especialista.

Segundo ela, as mulheres costumam contar durante os nove meses de gestação o quanto é maravilhoso ser mãe, mas quando o bebê chega a euforia nem sempre acontece e essa “decepção” é o que pode gerar problemas. “São novas situações e dificuldades, seu filho pode não ser como das outras e nesse momento é comum ter sentimentos negativos”, explica.

De acordo com Thais, é correto afirmar que, da mesma forma que a internet pode ajudar, ela também pode ser um empecilho para o tratamento da depressão. O aconselhável é encontrar um equilíbrio, saber que todas as mulheres passam por momentos difíceis e entender que se a interação na web não está fazendo bem o melhor é deixar de seguir esses perfis que não acrescentam.

"Muitas pessoas gostam de se intrometer na maternidade alheia, até mesmo pelo grupo de mães, e acabam confundindo e deixando a mulher insegura, principalmente quando ela é mãe de primeira viagem. O correto é ouvir e absorver o que for útil", aconselha a especialista.

Além do grupo de mães, o que é indicado para mulheres com depressão pós-parto?

Mariana não contou só com a ajuda do grupo de mães para se recuperar: a apresentadora começou a meditar
shutterstock
Mariana não contou só com a ajuda do grupo de mães para se recuperar: a apresentadora começou a meditar

De acordo com a psicóloga, o primeiro passo para superar a depressão pós-parto é entender que essa fase é passageira e que o instinto materno aparecerá em breve, pois o período é realmente diferente de tudo o que essa mãe já viveu, por isso não se cobrar é sempre a melhor saída. “O amor pelo bebê, aos poucos, acabará superando tudo que fugiu às suas expectativas iniciais”, garante a especialista, que ainda recomenda a prática de atividades agradáveis.

Segundo ela, embora o tempo seja curto, a mulher que separa um momento do dia para relaxar ou fazer algo que gosta acaba alcançando resultados mais rápidos. A apresentadora Mariana Ferrão, por exemplo, encontrou na meditação e no exercício físico formas de relaxar e ser feliz. Isso, segundo a psicóloga, deve ser valorizado, pois mesmo que signifique que a mãe ficará um tempinho longe do filho, indica que esse tempo tamém será aproveitado com qualidade.

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Caso os sentimentos negativos tomem maiores proporções, no entanto, é importante procurar um médico e não contar apenas com o grupo de mães ou as sugestões acima. Em alguns quadros, segundo ela, é comum mulheres se afastarem dos filhos e até se tornarem agressivas ou descuidadas com as crianças por falta de tratamento. "O psicólogo ou psiquiatra poderão ajudar a lidar com os sentimentos, controlá-los e até conter as reações", afirma.

Por que o tema abordado no grupo de mães mexe tanto com o emocional?

Ficar muito em casa, longe do trabalho, é um  fator que incomoda as mulheres que fazem parte do grupo de mães
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Ficar muito em casa, longe do trabalho, é um fator que incomoda as mulheres que fazem parte do grupo de mães


Falar de depressão pós-parto pode parecer estranho, já que isso acontece em um momento tão bonito da vida da mulher. Para entendermos melhor como a doença se desenvolve, Thais Silva explica que durante a gestação há um combinação de fatores biológicos e psicológicos. No nível endócrino, segundo ela, os hormônios levam as mulheres a um turbilhão de sentimentos desde as primeiras semanas de gravidez até um período após o parto.

"Nesta fase,  é possível ocorrer o 'baby blues' ou a depressão pós-parto leve.  As mudanças na rotina, como desconfortos físicos, privação de sono e alimentação desregrada também contribuem para as mudanças de humor durante a gravidez e o pós-parto", afirma.

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Já no campo psicológico, a maternidade, como é abordada no grupo de mães , traz muitas emoções, revisão da história familiar dos pais e também a responsabilidade sobre uma nova vida. Tudo isso, é claro, gera medo, ansiedade e insegurança. "É uma mistura de sentimentos relacionados ao bebê agora e depois. Por isso, esse período de adaptação é difícil para algumas mulheres e pode não atender às expectativas criadas, causando a depressão", diz.

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