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A ideia do instinto materno surgiu nos séculos 19 e 20 e, até hoje, contribui para pressionar mulheres a terem filhos ou criticar as mães "imperfeitas"

Não é preciso ser mãe, basta ser mulher para, em algum momento da vida, ouvir que se tem (ou não) instinto materno , sempre na forma de julgamento. Nesses momentos, a sociedade se refere a aquele talento - aparentemente inato - que as mulheres , sejam elas mães ou não, parecem ter com crianças. Mas não é bem assim e quem faz esse tipo de comentário não percebe que associar o talento de ter e criar filhos a todas as mulheres, valorizando tal comportamento, pode ser extremamente prejudicial.

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O do instinto materno contribui para alimentar o mito de que as mulheres devem se sentir realizadas na maternidade
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O do instinto materno contribui para alimentar o mito de que as mulheres devem se sentir realizadas na maternidade


Somada à questão da maternidade compulsória , a pressão por ter o tão precioso instinto materno afeta o emocional e o psicológico de todas as mulheres, ainda que de forma inconsciente. Elas criam a ideia de que, se têm o instinto, devem obrigatoriamente querer ser mães - e perfeitas. Mas, se ouvem que não o têm, sentem que não são boas mães ou que têm algum problema por não quererem ter filhos.

Dessa forma, se torna necessário entender o mito do instinto materno e buscar descontrui-lo. A psicóloga e psicanalista Lola Andrade fala, em primeiro lugar, na desconstrução do termo.

“Acho que a gente não pode mais falar em ‘instinto’ atualmente. O termo remete a algo quase biológico, já que é a mulher que passa pela gestação e depois pare, mas ser mãe é mais do que isso. Sem falar que, antigamente, quando se começou a usar o termo, a maternidade era muito mais compulsória. As mulheres absorviam desde cedo que seriam mães, independente da vontade delas, era algo instintual mesmo. Hoje, apesar da pressão, não é tão obrigatório, existe uma escolha, então deixa de ser algo no nível do instinto”, argumenta.

Mesmo falando em termos de “talento” ou “intuição materna”, Lola pondera sobre a importância de separar o amor por crianças ao querer ou saber ser mãe. “Uma mulher pode ser ótima cuidando de crianças e adorar, mas pode não querer ser mãe, porque isso vem com uma série de responsabilidades e de consequências que vão além de cuidar e brincar. Ou uma mulher pode se tornar mãe e perceber que não era o que ela pensava e até se arrepender, mas continuar cuidando super bem dos filhos. Aí ela não tem o ‘instinto’?”, questiona.

Instinto materno e maternidade compulsória

A questão do instinto materno está intimamente ligada à da maternidade compulsória. A maternidade compulsória é uma pressão social existente há séculos aplicada sobre as mulheres para que elas tenham filhos e se sintam realizadas na maternidade. Enquanto isso, não querer ou não ter filhos é mal visto. Sendo assim, o “instinto” seria um dos mecanismos usados para convencer as mulheres a terem filhos, afinal, "elas têm um jeito natual para isso".

Segundo Lola, a maternidade compulsória afeta as mulheres de tal forma que elas se sentem incompletas se não geram um bebê. “É como se fossem incapazes e insuficientes aos olhos da sociedade. Em algum lugar, ela se cobra por uma pressão que ela sofreu ou sofre de que, se ela não tiver um filho, ela não é perfeita, ainda que tenha plena consciência de que não quer ser mãe”, reforça.

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Estar com a questão da maternidade esclarecida internamente - o que não é fácil, mas é possível - seria essencial para lidar melhor com essas expectativas, defende a psicanalista, tanto para a mulher que quer ter filhos, quanto para a que não quer. “Se a mulher  tem um bebê para dar conta da sociedade, vai ser muito mais difícil para ela ser a mãe que ela gostaria de ser se fosse uma escolha, ficando muito mais difícil lidar com as pressões externas, como a do instinto”, afirma.

Lola reforça que, quando a mulher deseja a maternidade efetivamente, ela dá muito mais conta de lidar com essas pressões sociais. “A psicanálise fala na mãe suficiente. Nenhum filho precisa de uma mãe perfeita ou imperfeita, precisa de uma mãe suficiententemente boa”, diz e, aí, cada mulher dá vazão ao seu próprio instinto materno, que varia de mãe para mãe e não necessariamente tem a ver com o que a sociedade espera.

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“Estando contente com a maternidade, sem romantizações, a mulher vai aceitar a mãe que ela consegue ser. Acho difícil que uma mãe que adore ser mãe, com todas as dificuldades que isso inclui, não esteja em algum lugar exercendo o seu próprio instinto, a sua própria intuição”, pondera.

A psicanálise afirma que a mãe não precisa ser perfeita, nem imperfeita, apenas suficiente
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A psicanálise afirma que a mãe não precisa ser perfeita, nem imperfeita, apenas suficiente


Origens históricas

No livro "Um Amor Conquistado - o mito do amor materno", a filósofa e historiadora francesa Elisabeth Badinter afirma que o “instinto materno” é um termo moderno. Antigamente, devido às altas taxas de mortalidade infantil, as mulheres mal se apegavam a seus filhos, já que havia grandes chances de que morressem.

Esse comportamento se manteve com o avanço da sociedade, principalmente entre as famílias mais pobres. Já no caso das mais ricas, era mal visto a mulher amamentar, além de a religião católica também pregar que as crianças eram seres maléficos e que a amamentação seria um ato de prazer - portanto, proibido.

No entanto, a relação entre mães e filhos foi mudando ao longo dos séculos. O termo como fator moralizador e de opressão começou a surgir entre o século 19 e o início do século 20, graças à maior disseminação das teorias de pensadores do século 18.

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O filósofo Jean-Jacques Rousseau, foi um dos primeiros autores a teorizar a respeito da maternidade, chegando ao ponto de determinar quais seriam as características que uma mulher deveria ter para ser uma boa mãe e reforçando que as que recusassem a maternidade não seriam mulheres “de verdade”.

“Em nenhum caso ela deve se aborrecer ou mostrar a menor impaciência, pois a mãe rousseauniana ignora o princípio do prazer e a agressividade. É preciso, portanto, preparar a jovem para ser essa doce mãe de sonho, que amamenta e educa os filhos com ‘paciência, doçura e zelo, uma afeição que nada desencoraja’”, explica Elisabeth sobre as ideias de Rousseau.

O exemplo de mulher, para ele, é aquela que tudo investe na maternidade, pois essa é a única ambição e talento dela. Vale colocar que é a partir desse momento que o talento do instinto materno passa a ser visto como norma,  e não exceção. Todas as mulheres deveriam ter filhos e explorar esse talento, pois, de acordo com essa ideia, isso seria de sua natureza.

Outros autores da época falam na “mãe normalmente devotada”, aquela que tem a capacidade de se preocupar com os filhos em primeiro lugar, excluindo qualquer outro interesse que ela possa ter.

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As feministas da época, porém, contestaram essas obrigações. “O instinto materno existe ou as relações mãe-filho envolvem apenas os mesmos sentimentos que encontramos em outras relações: amor, ódio, indiferença, diferentemente dosados segundo o caso? Ele existe ou não passa de uma enorme pilhéria (...) destinada a persuadir as mulheres de que cabe a elas executar o ‘trabalho sujo’, isto é, (...) lavar sempre o chão que os meninos sujaram, estar sempre a empunhar uma mamadeira?”, lê-se no livro.

Sobre isso, a filósofa e historiadora pondera o mal-estar até inconsciente que a condição materna provocava nas mulheres. “A pressão ideológica foi tal que elas se sentiram obrigadas a ser mães sem desejá-lo realmente. Assim, viveram sua maternidade sob o signo da culpa e da frustração. Talvez tenham feito o máximo esforço para imitar a boa mãe, mas, não encontrando nisso a própria satisfação, estragaram sua vida e a de seus filhos. Aí está, provavelmente, a origem comum da infelicidade e, mais tarde, da neurose, de muitas crianças e de suas mães”, diz.

Mas então por que as mulheres se submeteriam a isso, mesmo com tantos questionamentos? Para os autores conservadores da época, a resposta é simples: as alegrias da maternidade recompensariam todo o sofrimento (argumento, esse, que daria origem ao tema da romantização do que é ser mãe).

Elisabeth também problematiza esse ponto, afirmando que a maternidade é mais difícil do que se acredita e que a natureza “não dotou as mulheres de armas suficientes para enfrentá-la”, até porque criar filhos deveria ser uma responsabilidade conjunta, de um casal, e não somente da mulher.

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Entretanto, ao alimentar mitos como o do amor e do instinto materno , somados à maternidade compulsória, isenta-se os homens da obrigação de contribuir significantemente na criação dos filhos. “As mulheres percebem, então, que sua experiência de mãe estragou-lhes a vida de mulher [em muitos casos], e que, se tivessem sabido antes…(...) Em vez de instinto, não seria melhor falar de uma fabulosa pressão social para que a mulher possa se realizar na maternidade?”.

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