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“Independente de serem surdas ou ouvintes, queremos ajudar outras famílias e mostrar que é possível ensinar libras à criança”, diz Sabrina Lage

Quando Sabrina Lage e Roberto Leandro descobriram que estavam esperando um bebê começaram a se informar sobre gravidez, amamentação, puerpério e passaram a planejar o parto natural da filha Catharina. Além das perguntas comuns sobre o sexo e nome da criança, algumas pessoas começaram a questionar se eles seriam capazes de cuidar de um bebê já que são surdos.

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Pais surdos compartilham a rotina  de cuidados e educação da filha de um ano e sete meses ouvinte em página do Facebook
Reprodução/Facebook
Pais surdos compartilham a rotina de cuidados e educação da filha de um ano e sete meses ouvinte em página do Facebook

No entanto, o casal prova que pais surdos são tão capazes de cuidar de uma criança ouvinte quanto qualquer outra pessoa. A falta de informação e conhecimento sobre outras realidades faz com que comentários como “E se a criança se machucar e eles não escutarem o choro?” ainda sejam frequentes no dia a dia da família.

“Acreditamos que há um preconceito da sociedade em relação à capacidade do surdo nos cuidados de um ser humano”, afirma Sabrina em entrevista ao Delas. A mãe explica que a visão aguçada e a sensibilidade tátil são grandes aliados que os permite se comunicar e identificar qualquer desconforto ou necessidade da filha.  

Primeiros meses da filha

Essa comunicação e aproximação começaram assim que Catharina nasceu. Sabrina conta que nos três primeiros meses de vida ela colocava a filha deitada no carrinho ao lado da cama do casal para que elas pudessem se aproximar mais. “Eu colocava uma das mãos em contato com ela para poder sentir o movimento dela até que pude me conectar melhor com ela durante a amamentação”, diz. A mãe conta que, como se fosse mágica, os seios começavam a jorrar leite exatamente no momento em que a filha chorava para mamar.

Quando a filha completou quatro meses, ela passou a compartilhar a cama com os pais e faz isso até hoje, com um ano e sete meses. “Ela já me acorda para mamar”, conta. Aos seis meses, os pais começaram a introdução alimentar e hoje a filha já sabe comunicar quando está com fome ou sede. “Ela já sinaliza ‘comer’ e faz outros sinais referentes ao alimento”.

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Comunicação com linguagem falada e sinais

Sabrina conta que hoje a comunicação entre ela, a filha e o marido flui muito bem. “Sendo nós surdos e ela ouvinte, usamos a fala oral e a fala sinalizada”, explica. Pelo fato do casal utilizar a língua de sinais (Libras) e a língua portuguesa – já que conseguem oralizar – Catharina é considerada CODA (Children of Deaf Adult – crianças ouvintes de pais surdos, em português) e bilíngue.

“A estimulamos tanto na língua falada quanto na língua sinalizada. Isso faz com que ela se desenvolva mais rapidamente em relação a uma criança que domina apenas uma língua”, diz a mãe. De acordo com Sabrina, a filha não teve dificuldades em se comunicar dessa forma. “Ela adquiriu ambas as línguas de forma natural e tem sensibilidade na parte auditiva e visual”, completa. 

Língua de sinais para bebês

Pensar que um bebê entende libras ou sinais pode soar estranho, mas Sabrina explica que, na verdade, a língua de sinais para os pequenos acontece de forma natural e espontânea. “Os gestos são um canal de comunicação eficiente que podem ser aplicados já nos primeiros meses de vida do bebê”, diz. Como estão em fase de desenvolvimento, adquirir a linguagem por meio de movimentos corporais e expressões faciais é a forma mais simples para os bebês se comunicarem. A fala oral, por sua vez, exige mais complexidade e vai se desenvolver mais tarde.

Estimular a língua de sinais tem apenas benefícios para a família, já que a criança consegue se expressar melhor, antes mesmo de aprender a falar. “Haverá mais conexão e interação entre o bebê, a mãe e seus cuidadores”, afirma Sabrina. Quando falamos de pais não ouvintes, essa forma de se comunicar faz com que os cuidadores compreendam sem tanta dificuldade o que a criança quer expressar.

“Também podemos citar outros benefícios, como aumento da capacidade de coordenação motora, memória e percepção do espaço mais apurado”, comenta. Sabrina acredita que os educadores devem explorar mais esse artifício para facilitar e estreitar a comunicação com os pequenos.

Exemplo nas redes sociais

Como toda essa comunicação ainda é algo desconhecido para muitas pessoas, o casal resolveu criar uma página no Facebook para compartilhar como educam e cuidam da filha. Em “Pais Surdos”, Sabrina e Roberto produzem conteúdo sobre a educação bilíngue e a importância da língua de sinais para todas as crianças. “Independente de serem surdas ou ouvintes, queremos ajudar outras famílias e mostrar que é possível ensinar libras à criança”, diz.

O casal publica vídeos do dia a dia da filha, como a hora do almoço ou da leitura. A ideia é mostrar como a língua de sinais é eficiente e pode otimizar a comunicação da família logo nos primeiros meses da vida da criança. E, de acordo com Sabrina, sem comprometer a fala oral.

“Catharina é muito atenta tanto auditivamente quanto visualmente. Ela ouve o barulho lá fora e nos comunica o que ouviu, por exemplo, o cão latindo, o avião passando, o cantar do passarinho...”, conta. Sabrina ainda comenta que a filha também tem uma boa memória visual e consegue identificar detalhes em desenhos e diferenciar partes do corpo, por exemplo.

Os pais acreditam que  ensinar a língua de sinais para as crianças só tem a acrescentar positivamente na relação da família
Reprodução/Facebook
Os pais acreditam que ensinar a língua de sinais para as crianças só tem a acrescentar positivamente na relação da família

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Rede de apoio

Trocar experiências com outras famílias que utilizam a língua dos sinais na comunicação também foi algo importante para o casal pensar sobre o cuidado e educação da filha. Ainda na gestação, Sabrina começou a participar em grupos nas redes sociais voltados para mães surdas com o intuito de se informar mais sobre a maternidade.

Hoje, além de produzir material para a página “Pais Surdos”, Sabrina criou o site “Mamãe Surda”, dedicado à mães como ela. “O objetivo é empoderar outras mães surdas com informações sobre maternidade”, diz. A ideia é que cada vez mais pessoas tenham acesso a conteúdo para desmistificar e conhecer mais sobre o tema.

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