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Odara Gallo é mãe de Franco, de 3 anos, diagnosticado com autismo, e escreve sobre a experiência às sextas no Delas

Essa é a reação das pessoas ao saberem da condição de meu filho:

- Estamos investigando para saber se Franco tem alguma coisa. Talvez autismo...

- Mas se for, tudo bem! Sabia que o Messi é autista? Vários gênios são!

Ou então, mais tarde, quando já tínhamos a certeza:

- Ah, mas é algo bem leve, né? Olha, fiquem tranquilos, ele é superinteligente!

Franco tem três anos e foi diagnosticado com autismo
Arquivo pessoal
Franco tem três anos e foi diagnosticado com autismo


Sorriso seguido de um aceno de cabeça. Era tudo o que eu conseguia responder. Dentro de mim, uma nuvem de perguntas, uma indignação, que eu fazia força para não deixar sair.

“Tudo bem? Como tudo bem? Quem quer ter um filho gênio aqui? Já pensou que saco deve ser nascer gênio?”, eram algumas das frases que pipocavam. “Sim, é leve, mas é alguma coisa e isso é um problema! Ah, que ótimo, ele é inteligente, ufa! Porque se fosse burro eu fazia o quê? Jogava na lata do lixo?”

Nunca tive coragem de me indignar por completo. Muitas vezes, as pessoas procuram formas de demonstrar apoio, carinho, amor, e isso deve ser bom. Elas também estão tentando lidar com aquilo às suas maneiras.

Uma vez li em algum lugar um pai dizer que não fazia sentido desejar a alguém que “seu filho venha com saúde”, já que estaríamos dispostos a amá-los de qualquer forma. Segundo essa lógica, desejar que o próprio filho nasça com saúde é algo egoísta, só para poupar os pais do trabalho a mais que daria. À época, aquele raciocínio não fez muito sentido pra mim. Hoje só existe essa verdade. E se fosse gênio? E se fosse grave? E se fosse burro? E se fosse autista?

Sim, é leve, mas é alguma coisa e isso é um problema! Ah, que ótimo, ele é inteligente, ufa! Porque se fosse burro eu fazia o quê? Jogava na lata do lixo?”

Com o tempo, essa inquietude foi se dissipando. Percebi que ter um filho com desenvolvimento atípico te coloca em uma situação esquisitíssima de ter que tomar cuidado para falar com as pessoas. Não se sabe como elas vão reagir. De certa forma, procuro oferecer algum apoio e os papeis se invertem. Aos poucos resolvi gastar o estoque de paciência e amor ao próximo que economizei nos primeiros 30 anos de vida.

“Relaxa, ele tá ótimo, indo bem nas terapias. Evoluindo. Tudo certo!”, tive que dizer algumas vezes (com um grau a mais de entusiasmo que o normal) para tirar do rosto de um amigo ou familiar o olhar de pena, decepção. Está tudo dentro do pacote. Quem foi que disse que seria confortável viver?

Em tempo: Messi não é autista, nem Asperger. A família já desmentiu esse boato há alguns anos. No caso dele, é só gênio mesmo.

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Odara e o filho, Franco
Arquivo pessoal
Odara e o filho, Franco

* Odara Gallo é formada em Jornalismo desde 2006, mas só criou coragem para ter um blog dez anos depois, quando descobriu que seu filho, Franco, tinha Transtorno no Espectro Autista. Às sextas, escreve sobre sua experiência no Delas. "Num dia Franco era uma criança diferente. No seguinte, eu era mãe de uma criança autista. Um pouco do que aconteceu dentro de mim com essa mudança quis sair e se desenhar em palavas. Nasceu esse blog Quê Cê Qué ?"

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