“Conviver diariamente com o som de tiro e com o blindado na sua rua é muito perturbador
Agência Brasil/Tomaz Silva
“Conviver diariamente com o som de tiro e com o blindado na sua rua é muito perturbador", diz a cientista social Juliana Farias, uma das autoras da cartografia que mapeia violências contra as mulheres em favelas militarizadas; na foto, ruas do Complexo da Maré



"Minha escola fechou durante 7 dias por conta do tiroteio constante". "Os policiais atiravam da laje da minha casa". "Foram meses só ouvindo tiros e vozes pedindo socorro". Essas são alguns relatos de mulheres que vivem nos Complexos da Maré e de Manguinhos, no Rio de Janeiro, duas das diversas favelas da cidade que vivem sob a presença armada constante de agentes da polícia há uma década.

O aumento da presença militar nas favelas do Rio de Janeiro passou a ampliar no ano de 2008, quando o Estado do Rio começou a implementar as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) dentro das favelas. Em teoria, as UPPs teriam como objetivo consolidar políticas comunitárias e “acabar com o tráfico”. Na prática, moradores e pesquisas apontam que a situação é diferente.

Só até maio deste ano, dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) apontam que 944 pessoas foram mortas por policiais dentro de favelas do Rio. “A questão do genocídio atinge especificamente os homens, jovens e negros”, explica Juliana Farias, cientista social e uma das 19 mulheres que assinam a cartogragia "Violência de gênero em contextos militarizados: uma cartografia escrita por mulheres", publicada e desenvolvida pela FASE Rio. O trabalho foi feito em parceria com o CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana, da UERJ e o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Unicamp.


Farias explica que, com as mortes de homens de responsabilidade da polícia dentro das favelas, são mães ou outras pessoas da família, sempre mulheres, que ficam à frente das manifestações e denúncias. “Elas protagonizam todos os processos de reivindicações públicas por justiça”.

No entanto, conversando com outras pessoas, fui percebendo que as queixas das próprias mulheres não tinham muita visibilidade”, acrescenta a pesquisadora. Sob essa percepção de apagamento das experiências das mulheres nas periferias militarizadas, ela se uniu a colegas sociólogas, jornalistas, cineastas e historiadoras para desenvolver uma cartografia, ou seja, um mapeamento sobre a situação das mulheres, focada nas regiões da Maré e de Manguinhos.

As pesquisas tiveram início em 2016, com oficinas e debates junto às moradoras para coletar informações e relatos que traçassem o impacto da militarização sobre elas. O foco principal é determinar quais são as violências sofridas por mulheres e meninas e os impactos da presença de agentes armados em seus cotidianos.

“A militarização atinge de forma diferenciada corpos femininos e corpos masculinos, assim como corpos dissidentes de pessoas trans, que vão sofrer um outro tipo de violência dos agentes armados. Esses mesmos agentes que estão efetuando a execução de um morador também estão assediando e estuprando mulheres, principalmente mulheres negras”, aponta Farias.


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Violência cometida por agentes militares

A grande diferença de uma ocupação como a da UPP e a de outros tipos de ações policiais em favelas se dá pelo tempo de permanência nessas regiões. Por esse motivo, os agentes conseguem exercer mais controle sobre os moradores e passam a agir como se tivessem intimidade com aquelas pessoas.

É um dos casos citados na cartografia e lembrado por Farias. Ela conta sobre o caso de meninas que tinham aulas de dança em um espaço aberto no centro cultural Lona da Maré. Da rua, as jovens eram observadas por soldados fardados e armados. Quando a aula terminava, elas sofriam assédios e constrangimentos por parte dos agentes.

“A presença cotidiana daquele agente armado produz outros comportamentos possíveis de assediadores. Como resultado, esse tipo de violência vira rotina”, diz a pesquisadora.

Farias diz que o assédio ou abuso sexual não são exclusivos das favelas militarizadas. No entanto, o formato dessa violência muda nesses espaços, principalmente, devido à imposição de poder e de medo realizada pelos agentes. “Numa situação qualquer a gente às vezes até tem coragem de xingar ou responder alguma coisa. Mas como fazer isso diante de um soldado do exército armado? Complica muito mais a situação”, pondera.

A presença constante dos soldados faz com que eles saibam endereço, horários e rotina de cada morador. Isso, somado ao controle e o medo da reação dos agentes, faz com que essas violências não sejam denunciadas. Consequentemente, os episódios não se tornam estatísticas e, assim, ficam invisíveis.

A presença do próprio armamento também é significativo, explica Farias. “Com armamento eu me refiro desde o coturno e uma botina até o fuzil ou o caveirão”, salienta. Em um dos relatos da cartografia, uma moradora conta que, uma vez, um agente colocou o fuzil pela janela, inserindo-o dentro de sua panela para mexer o feijão, como uma “brincadeira”.

Para a pesquisadora, há de se pensar que excessos como esse só intensificam a sensação de invasão causada pela militarização, mesmo que não sejam em contexto de operação. Isso porque esses atos menores acabam acarretando no todo, construindo cada vez mais a atmosfera violenta.

“Quando se fala nas casas arrombadas durante as operações, quantas delas tinham uma moradora dormindo, que estava de pijama ou usando roupas íntimas? Isso não acontece em um edifício de luxo ou na zona Sul do Rio”, questiona. “Se aquela porta é arrombada e dentro tem uma mulher de camisola ou de calcinha e sutiã, por exemplo, é produzido um outro tipo de violência. Não é um detalhe menor da situação, mas é parte dela como um todo. Isso também integra esse imaginário de conquista de território envolvido em uma ação militarizada, de conquista de corpos de mulheres”, acrescenta.

Impactos e mudança

Para a cientista, não se deve encarar os resultados da militarização como uma hierarquia de violências sofridas em espaços militarizados, mas compreender que isso tudo é somado em um cálculo diário, como Farias chama. “Conviver diariamente com o som de tiro e com o blindado na sua rua é muito perturbador e tem consequências muito diretas para a saúde mental e física dessas pessoas”.

Para combater essa condição, Farias sugere que o Estado passe por reflexões e mudanças extremas. “O primeiro passo seria não enxergar mais a favela como um território violento e que assola a cidade. É o inverso. É um território que é violentado pelo Estado, em que os direitos são violados diariamente”, diz.

Ela também pondera a necessidade de uma compreensão sobre as esferas do racismo no Brasil e o replanejamento da atual lógica militar e bélica (ou seja, conivente com ideais de guerra) adotada no Rio de Janeiro e em diversas outras comunidades Brasil afora. “O Rio é um laboratório de políticas de segurança pública e é sempre colocado como muito violento, apesar de não ser o estado com as maiores taxas de violência no Brasil”.

Perguntada sobre o que espera alcançar com sua cartografia, Farias diz que, além de mapear experiências e violências, quer auxiliar na visibilidade das tecnologias militares usadas nas periferias, tanto dentro como fora dos complexos pesquisados.

“Queríamos que as moradoras também tivessem acesso ao material, então fizemos uma primeira tiragem e distribuímos para que elas possam ler os relatos. É uma forma também de ampliar o debate”, afirma. A cartografia "Violência de gênero em contextos militarizados: uma cartografia escrita por mulheres", também está disponível on-line .

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