Helena Lahis
Arquivo pessoal
Helena Lahis


Helena Lahis internada involuntariamente em 2018 pelo ex-marido, Paulo Lima, presidente da Universal Music, após pedir o divórcio.  Dentre as alegações feitas para justificar o cárcere privado que a escritora viveu por 21 dias , estão surto decorrente de sibutramina - remédio usado em tratamento para obesidade -,  depressão (com base em diagnóstico de  depressão pós-parto , há 21 anos), transtorno bipolar e hipomania - estes últimos diagnosticados através de partes de conversas de Whatsapp da escritora com o namorado, adquiridas por invasão de aparelho eletrônico .

No inquérito encaminhado ao Ministério Público do Rio de Janeiro e que ainda aguarda decisão de denúncia , foram ouvidos o psiquiatra e psicanalista que acompanha Helena desde a depressão pós-parto, Manoel Castro Sá; o endocrinologista Pedro Assed, que receitou a sibutramina para ela em 2017; e a psicóloga Maria de Fátima Moreira de Sousa Nunes que, junto com seu marido e psiquiatra, acompanhou Helena no pós-trauma imediato e forneceu laudo sobre o estado mental da editora.

O iG Delas conversou com Pedro Assed e Maria de Fátima sobre a situação de Helena antes e depois de ser internada involuntariamente. O psiquiatra Manoel fala que só vai se pronunciar quando o processo estiver em andamento.

Sibutramina

Pedro Assed, mestre em endocrinologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explica que é autorizado pela Helena a contar o histórico médico dela como paciente desde 2017.

“Quando ela me procurou com uma queixa de piora no estilo de vida, ganho de peso, sintomas também de uma pré-menopausa. Até hoje ela frequenta o meu consultório pelo menos uma vez por mês. Iniciada a mudança de estilo de vida, com uma paciente sempre motivada, disposta a perder peso, frequentou também uma nutricionista, estava fazendo atividade física. Na época (2017), nós julgamos que valia a pena introduzir a medicação que funcionaria como uma espécie de ajuda”, diz.

A sibutramina é um fármaco usado em tratamento para obesidade, mas que nos últimos anos está envolvido em discussões sobre sua popularização como emagrecedor e efeitos colaterais. Pedro faz questão de deixar claro que Helena não fez uso de emagrecedores e, sim, uso de um medicamento que deve ser receitado e acompanhado em tratamento por um médico. No caso da escritora, ela fez uso da sibutramina por, no máximo, dois meses em 2017, conforme o endocrinologista conta.

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“Apesar da gente saber que a sibutramina é uma medicação muito sensível, que cada indivíduo tem uma resposta diferente, essa é uma resposta excepcional, tanto que ao longo de dois anos, ela perdeu 22 quilos. Em nenhum momento ela apresentou alteração de comportamento, não apresentou nenhum sintoma de efeito colateral, não teve nenhuma alteração do psique, nem instabilidade emocional”, diz.

Pedro recorda ter encontrado Helena três dias antes da internação involuntária para o acompanhamento mensal. Ele recorda que “Helena estava completamente assintomática, normal”, fora do caráter de hipomania ou alguma condição que a levasse a um surto psicótico. Foi só depois dela ter saído da clínica e ter faltado à consulta mensal que Pedro teve conhecimento da internação e que o remédio receitado por ele, um ano antes, estava sendo apontado como desencadeador.

“Eu fiquei muito chateado com essa versão fantasiosa que foi criada, porque estão criando um fato que não é verdade. Eu sou a prova viva, sou testemunha viva e ocular de que não aconteceu. Primeira coisa, quem está em surto de hipomania não tem atividade intelectual brilhante como a Helena tem. Ela estava com um livro preparado para ser lançado. São pequenas coisas que é só a pessoa reparar que todos os argumentos caem por terra. Eu sei que como médico, eu não devo nem tomar partido. Quando eu carimbo um tratamento, eu assumo a responsabilidade e esse tratamento eu me orgulho de ter conduzido porque foi um tratamento extremamente exitoso. Então eu não tenho medo da verdade”, conclui.

Pós-trauma

Maria de Fátima Moreira de Sousa Nunes é psicóloga e atuou junto com seu marido, que é psiquiatra, para uma avaliação neuropsicológica a fim de verificar se Helena tinha alguma alteração cognitiva que justificasse a internação por qualquer comprometimento comportamental e/ou psicológico. A especialista conta que cada um deles ficava cerca de 60 minutos com a escritora e que no primeiro momento Helena foi submetida a testes de atenção, memória, personalidade e inteligência. 

"A gente avaliou que ela tinha a inteligência preservada, uma atenção preservada, uma memória preservada. Ela não tinha nenhuma alteração cognitiva que pudesse justificar [a internação]. Então a gente foi para a parte da doença mental em si, quando a gente vai trabalhar a percepção, se tem algum alguma ansiedade, depressão, transtorno de humor, alteração da personalidade", diz. 

A profissional afirma que Helana estava vivendo um estresse pós-traumático, mas não tinha nenhum transtorno de personalidade, nenhum psicotismo ou alterações do senso de percepção, ou seja, alucinação, delírio. "Ela não tinha um discurso desconexo, acelerado, não estava ouvindo vozes, não estava vendo nada”.

Quando questionada se a  depressão pós-parto de 21 anos atrás poderia reverberar agora, Maria de Fátima explica que a doença pode acontecer uma vez na vida e acabar ou aparecer em outras fases da vida, mas que isso, por si só, não faz com que a pessoa perca seu potencial de julgamento ou justifica uma internação involuntária. 

“A única coisa que nós orientamos e isso está no laudo é que ela buscasse um acompanhamento médico para dormir melhor, pois ela estava com dificuldades. E ela precisaria voltar a terapia para continuar lidando com essas questões que acabaram de aparecer. Mas isso não invalidaria a vida dela laborativa, afetiva. Ela poderia ter uma vida como ela tinha antes dessa internação, só que tem que trabalhar algumas coisas que tentaram desconstruir. A gente não entra em internação involuntária e sai do mesmo jeito”.

Livre depois que seus amigos conseguiram um habeas corpus para tira-la da clínica, hoje Helena busca que os responsáveis pela sua internação respondam criminalmente pelo caso.


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