A cineasta e fotógrafa belga fez parte do movimento Nouvelle Vague e se consagrou como um ícone feminista
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A cineasta e fotógrafa belga fez parte do movimento Nouvelle Vague e se consagrou como um ícone feminista











A cineasta, fotógrafa e roteirista belga Agnès Varda completaria hoje (30) 93 anos. Artista é considerada uma das figuras mais importantes do cinema moderno, além de ter se tornado um ícone feminista e grande aliada de diversos movimentos sociais. Varda faleceu em 2019 em decorrência de um câncer de mama .

A artista foi uma das expoentes da Nouvelle Vague, movimento artístico francês que rompeu com a linguagem tradicional do cinema, propondo uma nova maneira de se fazer filmes. Também fizeram parte desse movimento  Jean Luc-Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Claude Chabrol e Jacques Demy, que foi casado com Varda.

Conforme explica a crítica de cinema Barbara Demerov, Varda, ao lado desses cineastas, impulsionou o gênero de cinema de autor, filmes em que o diretor pode expressar sua identidade e criar uma linguagem por meio disso.

“Ela costumava dizer que a câmera dela era como uma caneta, com a qual ela escrevia e desenhava seus filmes. Varda era atenta a muitas questões sociais e sabia da importância de projetá-las na tela do cinema”, explica a artista visual Santarosa Barreto.

O primeiro filme da diretora, “La Pointe-Courte” (1955), é considerado como um marco inaugural da Nouvelle Vague. Entretanto,  conforme explica Demerov, demorou para ela ser reconhecida por este mérito. Filmes lançados anos depois foram considerados os precursores do movimento, como “Le Beau Serge” (1958), de Chabrol, e outros com “Os Incompreendidos” (1959), de Truffaut.

A diretora acreditava que o cinema era uma ferramenta capaz de documentar a realidade mesmo na ficção. Isso fez com que ela se tornasse uma das maiores expoentes do realismo documental e do cinema moderno.

“Ela já era uma documentarista que captava a essência humana, não só a ficção. Ela se encontrava nesse toque de documentário que ela levou para o resto da carreira. Varda sempre foi uma cineasta com muita personalidade e identidade, sempre sensível ao captar a essência das pessoas”, explica Demerov.

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Barreto afirma que outro traço muito presente no trabalho de Varda é o experimentalismo e a liberdade que tinha para criar seus filmes. “Agnès explorava e ia além da experimentação de seus amigos cineastas. Ela acreditava muito no acaso como um elemento importante na construção de uma narrativa e, constantemente, borrava os limites entre o documentário e a ficção”, afirma.

Sua filmografia, composta por mais de 60 filmes, conquistou gerações e se tornou um marco na indústria cinematográfica. Em 2015, ela foi a primeira a receber a Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes e, em 2017, a primeira cineasta mulher a receber um Oscar por toda sua filmografia.

Representação feminina nos filmes de Agnès Varda


Demerov explica que o que a diferenciava de seus colegas da Nouvelle Vague era a maneira como se inspirava no feminino. “Ela tinha essa ligação maior com as mulheres por ser uma mulher. Isso é o que a diferencia de seus colegas, mas o talento é do mesmo patamar”, diz.

Barreto acrescenta que a diretora sempre foi capaz de evidenciar a liberdade feminina e o próprio movimento feminista. No entanto, o ato de dirigir um filme em si fez com que Varda alcançasse uma conquista muito importante para mulheres cineastas daquela época.

Era comum que as mulheres retratadas em filmes dirigidos por homens fossem construídas por meio de estereótipos ou pela visão da ingenuidade ou da sexualidade. Varda as colocava no cerne da narrativa e criava personagens femininas complexas e profundas. Por esse motivo, se tornou uma forte inspiração para o movimento feminista.

Até hoje, seu longa “Cléo das 5 às 7”, lançado em 1962, é conhecido como um dos mais importantes filmes feministas da história. O filme conta a história de uma cantora que perambula pelas ruas de Paris enquanto espera um resultado de exame, que pode revelar se ela está com câncer. Foi com esse filme que Varga ganhou notoriedade e conquistou sua primeira Palma de Ouro. 

Demerov também cita o filme “Os Renegados”, de 1985, como uma narrativa feminina poderosa da artista. “É um filme muito triste, em que ela rompe a barreira da linearidade e conta a história da protagonista de trás para frente”, afirma.

Mesmo com esse forte apelo em relação às mulheres, Demerov explica que Varda não tentava ser um ícone feminista. “A maneira como ela entendia e traduzia o feminino para a tela era diferente e tem esse poder até hoje. Ela não forçava e nem queria provar para as pessoas que ela era uma feminista”, diz.

Cinema político

Varda ainda se preocupava com a ebulição dos movimentos sociais e políticos no mundo todo. Com isso, ela conseguiu fazer representações em documentários de curta e longa-metragem sobre momentos e organizações históricas. “Varda nunca deixou de se posicionar politicamente e fazia isso de forma poética e empática”, diz Barreto.

É o caso do documentário “Salut Les Cubains” (1964), em que Varda utilizou fotografias que fez em Cuba quatro anos antes da Revolução Cubana para criar o filme. Há ainda “Black Panthers” (1968), curta metragem que acompanha manifestações organizadas pelo Partido dos Panteras Negras em Oakland, nos Estados Unidos, após seu co-fundador, Huey P. Newton, ter sido acusado de assassinar um policial branco. “Em ambos os filmes, ela mostra uma perspectiva singular de movimentos de luta e impacto social”, diz.


Outro documentário de Varda que ressalta essa preocupação é “Os Catadores e Eu” (2000), em que ela retrata a vida de catadores de frutas que doavam alimentos que poderiam apodrecer para os necessitados. Para Demerov, é um dos filmes que mais marca a visão política da diretora, além de sua preocupação com as pessoas.

“Ela realmente queria denunciar, queria abordar e discutir essas questões que a sociedade talvez não olhe com tanta atenção, mas ela olhava. Mesmo que ela não aparecesse no filme, sem às vezes nem falar, ela participava do filme”, diz.

Vida pessoal de Agnès Varda foi exposta no cinema

Como muitos outros diretores, a cineasta usou sua própria história para fazer filmes. A história de sua vida e de sua carreira são abordados principalmente em “As Praias de Agnès” (2008) e “Agnès por Varda” (2019). Esse último é encarado como a despedida de Varda, que faleceu em março do mesmo ano.

“Ela sempre teve essa ânsia de se registrar também. É fantástico ver como ela foi uma cineasta muito sincera, muito honesta, transparente e sempre com o pé no chão”, diz Demerov.

Varda também encontrava espaço para falar sobre pessoas que amava. Em 1990, seu marido faleceu e inspirou a cineasta a preservar sua obra. Um ano depois da morte de Demy, ela escreveu e gravou “Jacquot de Nantes”, inspirado na infância de seu marido. Em 1995, ela ainda produziu “O Universo de Jacques Demy”, documentário que aborda momentos memoráveis da vida do cineasta.

Essa proximidade com os assuntos que eram retratados nos filmes fizeram com que Varda desenvolvesse um olhar atento aos detalhes, com muito zelo por seus personagens. Por isso, sua obra é lembrada por sua força e vigor, mas também pela sensibilidade.

Barreto afirma que a obra de Varda é capaz de ensinar o público a enxergar o mundo por uma nova perspectiva, algo muito presente nos filmes da Nouvelle Vague. “A diferença é que Varda conseguia se debruçar sobre diversos temas com delicadeza, humor e inteligência”, diz.

A artista continua a dizer que acredita que a força da diretora está entre o que é natural e o que é extraordinário na sociedade. “Gosto bastante de lembrar de como ela falava para seus netos olharem suas mãos envelhecidas e imaginarem que as veias eram rios e as articulações eram montanhas. Agnès Varda nos ensinou a usarmos nossos olhos”.

Demerov acrescenta: “Varda sempre se dedicou a ser uma artista com visão de mundo. Ela sempre olhava ao redor, não olhava só através da câmera, mas a usava para dizer como se sentia, que era o que ela queria mostrar para o público e para ela mesma. O legado dela é eterno”.

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