Mulheres contam situações de gordofobia que passaram nas praias
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Mulheres contam situações de gordofobia que passaram nas praias


Para muitos, o  verão é a época favorita do ano. Mas, se a  experiência de ir à praia  é um momento de diversão para muitos,  nem sempre as  mulheres gordas não compartilham dessa sensação . Além das dificuldades para encontrar roupas de banho em tamanhos maiores, elas passam por situações constrangedoras que envolvem olhares atravessados e risos de deboche. 


Desde 2015 os movimentos de aceitação corporal (body positive) e de empoderamento da mulher gorda têm ganhado força no Brasil. A psicóloga Paula Gonzaga, doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica essa movimentação de mulheres e ativistas que reafirmam seus corpos é “extremamente necessária e legítima”. Contudo, as situações preconceituosas que algumas mulheres gordas passam persistem. 

Em entrevista ao iG Delas, três mulheres compartilham situações de gordofobia que já viveram no verão. Confira os relatos a seguir.


Impedida de andar de caiaque

Jessica Balbino
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Jessica Balbino


“Como toda pessoa gorda, eu não só já sofri como sofro inúmeros episódios de preconceitos diários. Na praia, isso pode ser intensificado em razão do uso de biquíni, menos roupas, saídas de praia mais transparentes.

Uma vez que eu estava em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, e havia aluguel de caiaque para passeio. Eu conversei com a pessoa e fiquei esperando minha vez. Quando me dei conta, ele já tinha levado outras pessoas, inclusive que chegaram depois e não me chamou. Quando perguntei, a pessoa responsável e outra se entreolharam, olharam pro meu corpo de biquíni e pro caiaque. 

Naquele momento entendi que eles supunham que eu não cabia. Lembro de me sentir muito mal, porque na época não tinha a visão e o conhecimento que tenho hoje sobre gordofobia.

Num primeiro momento, inclusive, questionei se meu dinheiro valia menos - até porque trago esse outro estigma, de ser uma pessoa periférica - mas, percebi que ia muito além. Estava apenas vivenciando mais um episódio de gordofobia, onde temos nossos direitos cerceados. Neste dia, que era pra ter sido um dia de pura diversão na praia, foi um dia que ficou marcado porque fui impedida. E sim, eu caberia tranquilamente no caiaque.” 

- Jéssica Balbino, 35 anos, produtora cultural.

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Ele disse que queria experimentar carne de baleia e me mordeu 

“Eu não lembro exatamente o ano, mas eu devia ter por volta de uns 12/13 anos. Estava caminhando na praia com uma amiga minha, perto da água, bem tranquilas, ríamos e conversávamos sobre assuntos aleatórios. Até que do nada surgiu um grupo de homens que tinham em torno de uns 30 anos. Nisso um deles chegou bem perto de mim e falou ‘com licença, desculpa incomodar mas você pode me ajudar?’.

Eu não respondi nada, só esperei ele terminar de falar. Ele viu que eu não ia falar nada e finalizou dizendo que sempre quis provar carne de baleia e me mordeu. Eu fiquei super constrangida, me senti péssima, o grupo todinho de amigos rindo na minha cara e eles saíram numa boa, continuaram andando e falando sobre a situação e caçoando de mim.

Até hoje tenho muita vergonha de ir pra praia e me sentir à vontade. Tem quase 10 anos que isso aconteceu. Sinto a dor como se tivesse acabado de acontecer.” 

- Ana Beatriz*, 24 anos, estudante de Artes. 

Corajosa só por usar bíquini? 

Carol Zacarias
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Carol Zacarias

“Eu, diferente de muitas pessoas, nunca senti de fato o preconceito. Talvez alguns olhares, mas nunca chegaram a me incomodar, porque eu sou bem resolvida com meu corpo gordo. Sempre amei praia - eu moro no Ceará - então tem praia todo dia. Sempre amei bíquini. Os olhares nunca me incomodaram. 

Claro que muitos olhares rolam, mas nunca me deixaram encabulada como algumas pessoas gordas se sentem. Agora recebo muitas mensagens, quando posto foto de biquíni, falando: ‘nossa como você é corajosa’, 'mulher, queria ter sua coragem’. 

As pessoas colocam a 'coragem' em algo tão comum. Eu moro em uma cidade que é cercada de praias e desde criança, aos finais de semana, eu vou pra praia. Então não preciso de coragem pra colocar um biquíni e viver. Mas as pessoas acham que o corpo precisa estar no padrão para usar biquíni e muitas acreditam que é um ato de coragem eu usar e curtir o dia. 

Antigamente esses comentários me incomodavam, pois eu sentia um tom irônico do tipo ‘como uma gorda dessa está curtindo uma praia?’. Sempre senti isso desses comentários que os gordos estão acostumados a ouvir - a gente sabe o que a pessoa quis dizer.

Depois que eu me aprofundei mais sobre o assunto, eu percebi que eu não tenho que ter raiva das pessoas que fazem esse tipo de comentário. Tenho que ter pena, pois não é que elas são só preconceituosas ou ruins. Tem toda uma construção da nossa geração que foi ensinada de que ser magra era o certo. Fomos construídas achando que tínhamos que emagrecer para usar bíquini, para ter 'autorização' para ir à praia.

Aí quando chega alguém que só curte a praia, independente do corpo, realmente choca. Mas eu tento pensar pelo lado positivo: talvez minha presença na praia inspire outras mulheres fora do padrão a também curtir. 

Hoje, eu enxergo minha ida à praia como uma pessoa que está ocupando o lugar, dando a cara a tapa e dizendo: ‘olha, aquela menina ali que é gorda está curtindo a praia. Então, Eu também posso então’”

- Carol Zacarias, 30 anos, influenciadora digital e designer de moda

**Matéria por Naiana Ribeiro e Paola Churchill

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