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Feminista há mais de 50 anos, Rosiska Darcy analisa para o Delas a militância contemporânea das novas gerações

Jornalista, escritora e membro da Academia Brasileira de Letras, Rosiska Darcy de Oliveira ficou conhecida pela sua militância feminista na década de 1970.

Diante de novas ofensivas sexistas e o avanço do feminismo nos últimos tempos, o  Delas  buscou em Rosiska um posicionamento sobre esses temas em nosso tempo.

Rosiska Darcy, jornalista e escritora
Arquivo pessoal
Rosiska Darcy, jornalista e escritora

Para ela, uma nova causa deve ser abordada nos movimentos contemporâneos: a luta pelo tempo da mulher. Segundo Rosiska, ela acredita que, atualmente, as 24h de um dia não são suficientes porque as mulheres têm mais ocupações desde que entraram no mercado de trabalho: além de trabalhar, as mulheres estudam, cuidam da casa, dos filhos e ainda da vida privada.

"Houve a revolução, elas entraram no mercado de trabalho. Tudo isso aconteceu e os tempos da sociedade continuaram organizados como se não tivesse acontecido. As mulheres sofrem com isso, sobretudo as que têm filhos, que tentam ter uma carreira e levar suas vidas com maior liberdade", declara Rosiska. "A maioria das mulheres cuida de tudo com uma culpa danada e não tem tempo para si. Nosso tempo nos pertence, as mulheres são extremamentes sacrificadas no uso do tempo".

Ficou interessada? Seguem outros temas debatidos por Rosiska a seguir.

O feminismo mudou 

É claro que muda! Estou envolvida nisso há mais de 50 anos, é claro que mudou porque as realidades vão mudando, o mundo e o Brasil mudaram, as próprias reivindicações vão se aperfeiçoando. Algumas coisas foram conquistadas, algumas causas ganharam uma importância maior.

Como vê o avanço do feminismo

O feminismo avança por sobressaltos, tem épocas. Eu penso que isso seja normal na história. Vem desde o século XIX com as sufragistas,  ganhou força nos anos 1950, com Simone de Beauvoir. O livro dela, "Segundo Sexo", é um marco que parte ao meio o século, relança a questão das mulheres na luta pela igualdade.

Nos anos 70 houve um novo levante - que eu participei mais - e foi a luta pelas liberdades. E, hoje, está acontecendo um novo movimento. Esse novo movimento é bastante parecido com o movimento da minha geração.

O direito ao corpo foi uma causa pela qual a minha geração lutou muito, a palavra de ordem da nossa geração era: “o nosso corpo nos pertence” – o que abrange desde o direito ao aborto até a escolha sexual, por exemplo.

A violência contra a mulher é um fato terrível, um verdadeiro massacre que a sociedade brasileira ainda engole"

Tem também a luta contra a violência das mulheres, a violência doméstica, que está aí desde os anos 1980 e continuo vendo. Reconheço muito fortemente demandas que eram nossas. Vi a minha geração lutar muito contra isso até conseguir a Lei Maria da Penha.

Acho que é muito importante que as jovens lutem contra a violência porque ela aumentou. Há divergências, tem gente que diz que, na verdade, foi apenas o número de denúncias que aumentou. Mas acredito que o fato de as mulheres terem afirmado sua dignidade e ganho mais espaço tenha promovido mais agressividade. A violência contra a mulher é um fato terrível, um verdadeiro massacre, que a sociedade brasileira ainda engole.

A causa mais urgente do feminismo atualmente

A causa mais urgente do feminismo é que cada mulher decida o que quer da sua vida; e isso não será igual de uma mulher para outra. É o direito de você ser senhora do seu destino.

Não gostaria de hierarquizar as pautas. No momento em que você decide que é senhora do seu destino, você decide abortar; se não quiser ser espancada, não vai ser, pois vai reagir; não vai aceitar uma vida sexual que não quer ter e vai buscar sua felicidade. Antigamente, as mulheres não buscavam a felicidade, elas se conformavam com o destino que era imposto.

Impacto das redes sociais no feminismo

As redes sociais trouxeram uma mudança na cultura extraordinária. Ninguém ainda consegue avaliar o impacto disso, é um impacto imenso. Acho que, como instrumento de comunicação, tem possibilidades enormes.

No momento em que você decide que é senhora do seu destino, você decide abortar; se não quiser ser espancada, não vai ser, pois vai reagir; não vai aceitar uma vida sexual que não quer ter e vai buscar sua felicidade. Antigamente, as mulheres não buscavam a felicidade, elas se conformavam com o destino que era imposto"

Homens podem ser feministas

Sim, acho que, sem dúvidas, ajuda na luta. Se homens não pudessem ser feministas, nossa luta não adiantaria e nós iríamos à guerra. Os homens podem ser feministas sendo simpáticos à causa das mulheres, e tratando as mulheres com a dignidade que os tratamos.

Nosso desejo é criar um mundo em que humanos se tratem com dignidade e respeito, o que não aconteceu com as mulheres: as mulheres nunca foram tratadas com dignidade e respeito.

Rosiska também comentou sobre o caso recém noticiado da escola que oferece cursos específicos para homens  com atividades "que todo homem deveria saber", como poker, sinuca, drinks e fotografia.

Não é novidade, a Inglaterra sempre teve pubs que só admitiam homens, acho isso um horror! Mas, não é novidade, os clubes masculinos sempre existiram.


Mas gosto de propor uma reflexão: a luta das mulheres pela igualdade não deve ser uma luta pelo mimetismo. Eu não me interessaria em fazer um curso de poker, por exemplo, mas tenho que ter o direito.

Temos que tomar cuidado para não tornar o masculino o paradigma do humano e fazer uma sobrevalorização do mundo masculino, que eu não acho que ele mereça. Isso ainda é um resquício nas mulheres, de uma autodepreciação.

É um tema complicado que merece um grande debate. Nós precisamos ter muito cuidado com isso: parecer com os homens não é uma forma de igualdade. Para mim, a igualdade de gêneros é diferença sem hierarquia.

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