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Pesquisadoras e ativistas no feminismo destacaram a importância da participação das jovens e das redes sociais para reacender o movimento pela igualdade de gêneros em 2015

Não há dúvidas de que 2015 foi o ano do feminismo no Brasil. Dezenas de iniciativas de mulheres para combater o machismo aconteceram este ano e duas características peculiares dos movimentos recentes merecem destaque: a participação das jovens e o uso das redes sociais como canal de comunicação e mobilização.

Ainda alvo de muito preconceito – muitas vezes por desconhecimento - o feminismo é o movimento que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Vera Soares, pesquisadora e militante feminista da USP, afirma que, neste ano, o movimento feminista ganhou luz graças à participação das jovens: “Existia um mito de que o feminismo era para aquelas senhoras mais velhas, universitárias, pesquisadoras. Não é! Esse é um movimento que está espalhado na sociedade e a juventude, obviamente, se agarrou nestas questões de desigualdades de gênero e iluminou todas elas".

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Prova de que as redes sociais foram essenciais para a maior visibilidade do movimento em 2015 são as famosas hashtags. Ao pensar no movimento de mulheres, logo vêm à mente duas hashtags:   #primeiroassédio e #meuamigosecreto .

#primeiroassédio gerou desabafo de Camila Leite ao Delas: Fui estuprada aos 4 anos
Reprodução

#primeiroassédio

A manifestação nas redes começou quando uma menina de 12 anos apareceu em um reality show de culinária e começou a ser alvo  de comentários pedófilos nas redes sociais.

Diante desta indignação, a Think Olga, ONG dedicada ao empoderamento feminino, decidiu promover a hashtag #primeiroassédio. O termo viralizou e diversas meninas contaram como e quando foram assediadas pela primeira vez.

A organização continuou seu trabalho e analisou os relatos, chegando à conclusão de que a maioria das meninas sofreu o primeiro abuso entre os 9 e 10 anos .


#meuamigosecreto

Ao fim de novembro, entrando em clima natalino, as mulheres começaram a compartilhar outras histórias acompanhadas pela hashtag #meuamigosecreto. Os relatos buscavam denunciar atos machistas de amigos, colegas e até ex-parceiros. As denúncias começaram com atos machistas que muitos não pecebem, como na imagem abaixo:

#meuamigosecreto viralizou nas redes sociais em novembro
Reprodução/Twitter
#meuamigosecreto viralizou nas redes sociais em novembro


Mas evoluíram para outros mais graves, como estupro e agressão. Vera Vieira, diretora da Associação Mulheres pela Paz, que atualmente tem um projeto de combate ao tráfico de mulheres, acredita que “a luta contra esse crime não é uma luta maior do que a que você trava diariamente na sua casa”.

“Prestar atenção nas pequenas coisas que reforçam essa sociedade machista é fundamental, porque é um trabalho de desconstrução de uma cultura de milênios”, defende a ativista.

Diante de tanta movimentação das jovens nas redes sociais, o número de denúncias de violência contra a mulher no 180 – disque-denúncia –  aumentou em 40%.

Jovens que merecem destaque

Diversas garotas tiveram protagonismo no movimento feminista este ano. Desde uma youtuber feminista que ficou conhecida por um vídeo  que ajuda as mulheres a lutar contra relacionamentos abusivos - a Jout Jout  - até as centenas de mulheres que se manifestaram na Av. Paulista, em São Paulo, contra o projeto de lei que dificultaria a realização do aborto .

E ainda algumas meninas com menos de 18 anos, como Catharina, de 17 anos, que abriu mão de sua viagem de formatura e usou o dinheiro para criar o aplicativo “Sai pra lá” com a intenção de mapear casos de assédios contra as mulheres nas ruas.

Outras meninas que ainda estão no ensino médio e que deram uma aula contra o machismo foram Luana Frazão e Giulia Pezarim, ambas de 16 anos. Estudantes de um colégio particular de São Paulo, elas estavam insatisfeitas com a imposição do colégio sobre a roupa das alunas: as meninas não eram autorizadas a usar short.

Elas não ficaram de braços cruzados e criaram um abaixo assinado. O objetivo foi alcançado e “Vai ter shortinho, sim”  no colégio em que elas estudam.

Existia um mito de que o feminismo era para aquelas senhoras mais velhas (...) Não é! Esse é um movimento que está espalhado e a juventude se agarrou nestas questões de desigualdades de gênero e iluminou todas elas"

Ana Luiza Cunha, estudante da Faculdade de Medicina da USP, fundadora e porta-voz do coletivo feminista Geni, destaca ainda a criação de coletivos feministas para envolver cada vez mais jovens: “Acho ótimo que mais meninas estão entrando em contato com o feminismo cada vez mais cedo. A criação de coletivos feministas é excelente, nós temos que combater o machismo em todas as etapas da nossa vida.”

O que fazer para 2016 também ser feminista?

Com a explosão do movimento este ano, como garantir que esse ativismo continue nos próximos anos? Vera Soares afirma que os altos e baixos são comuns em qualquer ativismo: “Movimento é assim, é movimento: ele pode ter uma luz enorme agora, depois ficar meio submerso e depois aparecer de novo. Essa é a beleza, a sociedade se movimenta”.

Ana Luiza dá a dica: "Acho que precisamos continuar falando sobre isso. Não podemos deixar o assunto morrer porque, se o assunto morre, tudo volta a ser como era antes. A gente vê o tempo todo que estão acontecendo ataques contra a mulher. Não podemos parar de falar da agressão contra a muilher enquanto ela não acabar".

A expectativa e a esperança, não só para o ano que vem, mas para o futuro, são favoráveis: “Saber que elas são conscientes dos seus direitos e que não vão admitir abusos é profundamente esperançoso. Essas jovens estão no caminho certo para um país melhor ”, acredita Vera Soares.

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