O que o episódio entre Will Smith e Chris Rock tem a ver com a nossa visão sobre violência
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O que o episódio entre Will Smith e Chris Rock tem a ver com a nossa visão sobre violência


Se você vive neste planeta e possui acesso à televisão ou Internet já deve estar sabendo que no último domingo, Will Smith, em pleno palco do Oscar, meteu a mão na cara de Chris Rock  e saiu com um prêmio debaixo do braço. Normalmente eu não gastaria tempo problematizando uma briga de milionários, mas o millennial não sabe assistir a um barraco e ficar de boas. Precisa assumir um lado, botar no meio umas discussões toscas sobre machismo, masculinidades, raça e outras opressões no que deveria ter sido apenas uma rica chuva de memes. 

No meio das discussões sobre os limites da comédia e do uso da força e de quem pode/deve defender quem apareceram os chavões da legalidade: "a violência não leva a nada", "poderiam ter resolvido isso de forma civilizada". Aí eu me vejo obrigada a dar o meu pitaco, pois: 1- Quem pensa que violência não leva a nada perdeu algumas aulas sobre como se constituiu a história do mundo. 2- Resolver tudo civilizadamente é delegar a resolução do conflito ao Estado - que não foi constituído na base da conversa.



1- Violência é a pergunta e a resposta é sim


Durante boa parte da minha vida adulta, tenho me dedicado ao estudo da violência política. Quando exercida por um agente não-estatal, o uso da força é chamado terrorismo; quando se trata de uma ação policial ou militar ela recebe outros nomes, como guerra às drogas, caso isolado, auto de resistência, intervenção militar ou guerra mesmo. Trata-se de uma distinção que se refere à legitimidade do uso da força e não uma qualificação quanto à gravidade do uso da força, monopólio legítimo do Estado.

Ou seja: o Estado se apresenta como instância pacificadora que impediria que as pessoas resolvessem suas disputas na mão. Aprendemos em Hobbes que a recusa da violência é o que faz surgir a sociedade, substituindo a guerra de todos contra todos pela paz civil. Mas aí vem a realidade e acaba com as nossas ilusões. 

Imagine você que tá todo louco se matando, brigando com tigre, dragão, dinossauro: a guerra de todos contra todos. Aí alguém diz: "- Gente, espera, entrega aqui todas as armas e vamos viver em paz. Quando tiver alguma confusão e os meus amigos e eu resolverem…." (Não terminou a frase porque levou uma machadada na cabeça). 

Estou forçando um argumento para obter algum riso, mas sobretudo evidenciar que o Estado e a nobreza não se constituíram sem massacres. Assim como as fronteiras, a língua, a cultura. Basicamente todo o mundo em vivemos foi forjado por meio da violência. Estou falando de violência física, força bruta mesmo, porque eu não tenho nem roupa para debater violência simbólica. Então não podemos dizer que a violência não leva a nada, na verdade, é muito difícil chegar a algo sem passar pelo uso da violência. Inclusive na resolução conflitos dos interpessoais.

A questão é que o Estado venceu a guerra de facções e se apresenta como a única instância legítima. No Brasil a gente consegue perceber, por meio das notícias sobre algumas organizações paramilitares, que essa legitimidade segue em disputa. Mas não levamos em consideração que a resolução civilizada também é uma resolução violenta, já que, no limite, ela pode incluir o uso da força dos agentes armados do Estado para garantir o cumprimento da lei, essa joia na coroa das sociedades civilizadas.

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2. Quem tem o direito de se defender?


No livro “Autodefesa - Uma filosofia da violência”, a francesa Elsa Dorlin, bem na linha do clássico Vigiar e Punir, de Michel Foucault, examina uma série de casos que incluem o julgamento de Rodney King, a prática de jiu-jitsu das sufragistas inglesas e o Partido dos Panteras Negras para lançar a seguinte pergunta: em sociedades cujo uso da força física é dominado pelo Estado - que tem licença para matar - quem tem direito de se defender? 

Retomando Hobbes, a autora mostra que o direito à autodefesa tem sido uma prerrogativa dos homens ricos, dos proprietários. Esta sociedade não apenas produz indivíduos ou classes de indivíduos que não podem se defender, mas que quanto mais se defendem, mais se desgastam. Dorlin mostra que o direito de portar armas durante a modernidade era reservado à nobreza. Para que fosse possível constituir uma subjetividade desarmada, tanto os duelos quanto os embates físicos tiveram se ser transformados em esportes.

Ironicamente, hoje o tiro e uma série de modalidades de combate corpo a corpo são esportes olímpicos. E as olimpíadas são celebradas como um momento de confraternização entre as nações, onde o espírito esportivo e o "fair play" prevalecem. 

Nos últimos dias eu vi muitas pessoas dizendo que Will Smith errou porque reforçava a impressão de que pretos resolvem tudo na porrada, corroborando o estereótipo do homem negro violento. Sobre isso, eu só tenho a dizer que gostaria de ser otimista a ponto de acreditar que uma atitude “civilizada”, como um processo legal, teria algum efeito em desfazer um estereótipo colocado sobre homens e mulheres negras e que se perpetua independente de nossas ações. 

O que quero, com toda essa reflexão, não é apontar quem estava certo ou que tipo de ofensa ou violência simbólica poderia ou não justificar um tapa. Mas dizer, retomando Foucault, é que a nossa discussão sobre violência está impregnada pela ideia do Estado como instância pacificadora e que faz parar a guerra, quando vivemos em uma sociedade saturada de relações de violência. Como eu sempre friso, a diplomacia só existe para quem é capaz de fazer a guerra.  

Se a violência não é a saída, como tampouco a negação da violência é. E se queremos a recusa do uso da força, precisamos antes entender o que é a violência. Só pensando na violência a partir dessa faceta de legitimidade/institucionalização que se pode entender o jogo de forças. Que neste caso específico termina com dois homens milionários mais ricos do que estavam na semana passada.



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