O meme é real. Existe um grupo no Facebook onde homens pagam boletos para mulheres e eu entrei para ver como funciona. A prática, que pode ser considerada um fetiche, é conhecida como “money slave” (escravo do dinheiro, por português). “São homens que se submetem financeiramente a uma mulher”, diz a criadora do grupo Beatriz, que prefere não ter o sobrenome revelado, 20 anos, estudante de engenharia, de Belém (PA).

mulher mexendo no celular
FreePik
Mulheres enviam fotos e vídeos em troca de dinheiro em grupo do Facebook

Logo que eu encontrei o grupo, já percebi que as coisas não funcionavam como eu imaginava. Na verdade, o nome é “Homens que pegam boletos & Garotas que dão algo em troca”. Mesmo assim, fui ver o que rolava lá. Para ser aceita, precisei preencher um formulário que, entre algumas perguntas, dizia: “Muitos homens querem algo em troca para pagar boletos, você estaria disposta?”. 

No grupo, encontrei muitas mulheres oferecendo fotos e dizendo que precisavam pagar contas ou comprar livros. E vi poucos homens de fato oferecendo pagar boletos.

Beatriz explica o que acontece: “Observei que são raríssimos os money slave do meio e o propósito não tava dando certo, pois um verdadeiro money slave nunca pode exigir nada em troca por pagamentos. Ele simplesmente faz por prazer. A maioria dos homens queria pagar boletos em troca de algo. Conversas, fotos íntimas e por aí vai”. Por isso, ela incluiu o “garotas que dão algo em troca” no nome do grupo.

formulário do facebook
Reprodução/Facebook
Formulário que deve ser preenchido para ser aceito no grupo do Facebook

Como funciona

Beatriz diz que analisa o perfil de todos que preenchem o formulário antes de aceitar no grupo para tentar minimizar contas falsas e golpes. Depois de aceito, a publicação está liberada. 

“Geralmente, as garotas postam fotos dizem o que precisam/ para o que precisam. É como se fosse uma espécie de propaganda. Elas também falam o que estão procurando e o que estão dispostas a vender ou trocar por dinheiro”, detalha. Os homens também entram na “propaganda” e compartilham o quanto vão pagar e o que querem em troca. “Também deixamos aberto aos verdadeiros money slaves”.

O grupo tem algumas regras, que são apresentadas com o formulário para a entrada. O texto ressalta a importância da confiança entre os participantes, respeito e, principalmente, proíbe qualquer tipo de assédio ou desrespeito contra as mulheres. Além disso, incentiva a conversa entre os membros e orienta a denúncia daqueles que desrespeitam as regras.

“Sempre oriento os membros a denunciarem para ajudar na filtragem de pessoas mal intencionadas, fakes e golpistas. Sempre falo para terem cuidado com os acordos, não enviarem suas fotos de primeira ou até que uma parte do pagamento seja feita”, explica Beatriz.

Quem participa 

O grupo tem 1664 membros e, de acordo com a administradora, a maioria é de São Paulo, capital, sendo 80,9% mulheres e 19,1% homens, com idade média entre 18 e 24 anos. Beatriz explica que como a oferta é maior do que a procura, a concorrência entre as mulheres é grande. 

Apesar disso, ela já consegue lucrar com o grupo. Beatriz diz que a pandemia afetou sua renda, mas a troca de imagens por dinheiro é uma ajuda no fim do mês. Para Júlia*, 26 anos, de Santa Catarina, o grupo também é uma forma de ajudar os pais a pagar o aluguel e os livros para fazer o TCC (trabalho de conclusão de curso). Ela explica que não está no grupo por fetiche, apenas por interesse financeiro.

“Entrei no grupo porque, com essa crise em meio à pandemia, eu precisava complementar meu salário de estagiária”, comenta a estudante de direito. Júlia conta que oferece fotos, vídeos e até chamada de vídeo, e o valor varia conforme a quantidade e o conteúdo. 

“Gosto de conversar bastante antes para saber o que eles querem e tudo é acordado antes”, fala. Ela explica que primeiro recebe o comprovante de depósito/ transferência e depois envia as fotos ou vídeos. “Com alguns, a conversa se estende e continuam pedindo, outros já são mais diretos,  pedem o que querem e paramos por ali”, conta. 

Em relação ao “público” Júlia diz que é variado. “A maioria dos caras são casados ou namoram e fazem escondido. Já mandei para dois que têm esposa. Às vezes são tantos anos junto com uma pessoa que eles querem ver uma coisa diferente”. 

Também conversei com Raul, que prefere não revelar o sobrenome, 33 anos, de São Paulo (capital),  praticante de BDSM há cinco anos e membro do grupo. “Entrei pois queria encontrar alguém para mimar assim como fizeram nossos antepassados”, fala. 

“A sociedade nos oprime em nossa sexualidade tanto no dias atuais que essa foi forma de me libertar de todo o conservadorismo e me ligar a liberdade dos nossos antepassados que viviam o BDSM de forma livre, independentemente de classe ou cor”, completa. 

Diferente da ideia do “money slave”, ele não está no grupo apenas para pagar boletos. Segundo ele, isso seria “anti-ético” com as práticas BDSM. Segundo Raul é preciso uma troca, por isso, paga as mulheres e recebe fotos ou vídeos em troca.

Sobre a relação com as mulheres do grupo, ele comenta que percebe que, muitas vezes, a ideia inicial do fetiche é deixada de lado por necessidades financeiras. “Você não acreditaria se te falasse o número de mulheres comprometidas que mandaram e ofereceram fotos e vídeos, muitas vezes é em troca de um hambúrguer. Não me sinto muito bem em relação a esse tipo de coisa”, comenta.

“Tem também as meninas que vêm com histórias tristes, contando sobre os problemas que a pandemia vem fazendo dentro de casa, desemprego, falta de dinheiro pra se alimentar, algumas pedindo fraldas, outras pedindo leite pros filhos. Às vezes eu acho que isso passou de um fetiche e virou uma lupa para alguns problemas sociais” , conclui.

*Nome alterado a pedido entrevistada para preservar sua identidade

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