
Receber um resultado de exame fora do que se imaginava como “normal” durante a gravidez pode gerar preocupação, principalmente quando a mulher está atenta a tudo que pode afetar sua saúde e a do bebê.
Mas, no caso do TSH, um resultado acima de 2,5 mUI/L não significa necessariamente que exista uma doença da tireoide ou que seja preciso começar um tratamento.
A atualização da American Thyroid Association (ATA), publicada em 2026, mudou a forma como pequenas alterações nos níveis do hormônio devem ser interpretadas durante a gestação. A recomendação agora reforça que o resultado precisa ser analisado levando em conta o momento da gravidez, os valores de referência utilizados pelo laboratório e o histórico de saúde da paciente.
A mudança é importante porque o TSH pode sofrer alterações durante a gestação, e um único resultado não conta toda a história. Para a Dra. Gabriela Pravatta Rezende, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), mulheres que recebem um resultado acima de 2,5 não devem concluir, sozinhas, que têm hipotireoidismo.
Durante muito tempo, falou-se que o TSH na gestação deveria estar abaixo de 2,5. Esse valor continua sendo importante principalmente para mulheres que já tinham hipotireoidismo e usavam levotiroxina, mas não deve ser utilizado como ponto de corte universal para diagnosticar doença em todas as gestantes Dra. Gabriela Pravatta Rezende
O resultado do exame não deve ser analisado sozinho
Para a gestante, isso significa que uma pequena alteração no TSH não necessariamente representa um problema. Sempre que possível, o médico deve utilizar valores de referência específicos para cada trimestre da gravidez e considerar também o método utilizado pelo laboratório.
Quando esses parâmetros não estão disponíveis, um limite superior próximo de 4,0 mUI/L no primeiro trimestre pode ser considerado como referência.
Assim, uma mulher com TSH entre 2,5 e 4,0 mUI/L, por exemplo, pode não precisar de tratamento. A decisão depende de outros aspectos da avaliação médica.
“A ideia é evitar os dois extremos: não deixar de diagnosticar um hipotireoidismo verdadeiro, mas também não tratar excessivamente mulheres que talvez não precisem de medicação”, afirma Dra. Gabriela.
Quem precisa ficar mais atenta?
A recomendação da ATA mantém a atenção especial para mulheres que apresentam fatores de risco para doenças da tireoide. Nesses casos, o exame de TSH pode ser solicitado logo após a confirmação da gravidez.
Entre as situações que merecem atenção estão histórico pessoal ou familiar de doença da tireoide, doenças autoimunes, tratamento anterior da glândula e sinais clínicos que possam indicar alterações.
A entidade não recomenda, com base nas evidências atuais, que todas as gestantes sejam submetidas ao rastreamento universal.
Para quem já tinha hipotireoidismo antes da gravidez, o cuidado é diferente. O acompanhamento deve começar cedo, já que o controle dos níveis hormonais continua sendo importante ao longo da gestação.
Nessas pacientes, manter o TSH abaixo de 2,5 mUI/L continua sendo um alvo razoável durante a gestação Dra. Gabriela Pravatta Rezende
E se o exame vier alterado?
A principal mensagem para a mulher grávida é não interpretar o resultado isoladamente nem iniciar ou interromper medicamentos por conta própria.
Uma alteração no TSH deve ser levada ao profissional que acompanha a gestação para que seja analisada junto com o histórico da paciente e os demais parâmetros necessários.
Para a especialista, a atualização representa justamente uma tentativa de tornar esse acompanhamento mais individualizado.
“A doença da tireoide continua sendo investigada na gravidez. O que muda é a forma de interpretar pequenas alterações, sempre considerando histórico, fatores de risco e os valores de referência adequados para a gestação”, finaliza.