
Apesar de fazer parte da rotina de milhões de mulheres, o ciclo menstrual ainda é tratado como um tema secundário, inclusive quando o assunto é saúde emocional.
No ambiente de trabalho, por exemplo, a pauta segue sendo vista como algo “privado”, mesmo com efeitos diretos no bem-estar e no desempenho.
Ao iG, a psicóloga especialista em saúde mental do trabalhador, Fátima Macedo, afirma que o silêncio tem raízes antigas.
“O início da menstruação marca um período de transição muito importante na vida da menina – mulher, um momento que deveria ser tratado com leveza e celebração, porém, durante muito tempo, foi motivo de vergonha e silêncio, como se fosse preciso ‘esconder’ o estar menstruada”, explica.
Segundo ela, o impacto emocional do ciclo é evidente, mas ainda pouco reconhecido.
“Este é um processo natural que claramente afeta o humor e a energia das mulheres. Ainda assim, assistimos uma negação do tema”, afirma.
Sintomas ignorados e pouco compreendidos
Esse cenário contribui para a banalização de sintomas que vão além de desconfortos físicos. Alterações de humor, irritabilidade e sensibilidade costumam ser tratadas como exagero ou até motivo de piada.
“Não só normalizadas, mas consideradas como irrelevantes”, pontua a especialista ao falar sobre a tensão pré-menstrual (TPM).
Ela destaca que, por muito tempo, faltaram estudos mais aprofundados sobre os efeitos no cérebro, o que dificultou o reconhecimento dessas alterações.
“Infelizmente, durante anos este processo foi deslegitimado quanto ao real impacto emocional que as variações hormonais (queda de estrogênio/serotonina) podem causar no cérebro.”

Entre os quadros menos conhecidos está o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), uma versão mais severa da TPM.
“Imagine uma TPM triplicada, o sofrimento desta mulher que não sabe o que ela tem e que recebe diversos diagnósticos e tratamentos que não ajudam em nada”, relata.
Segundo ela, há casos de diagnósticos equivocados: “Acompanhei mulheres que receberam diagnóstico de Transtorno Bipolar quando, na realidade, era uma TDPM.”
As mudanças hormonais explicam boa parte dessas reações. “Estamos falando de uma questão que não é psicológica, mas sim neurobiológica com expressão emocional”, esclarece.
A queda de estrogênio, por exemplo, interfere diretamente na serotonina, substância ligada à sensação de bem-estar.
Além das oscilações de humor, o ciclo também pode afetar concentração e raciocínio.
“Durante o ciclo menstrual algumas mulheres apresentam baixa de energia, uma maior introspecção com necessidade de recolhimento”, diz.
“Um ponto importante diz respeito às dificuldades cognitivas, como problemas de memória, o raciocínio fica mais lento.”
Mesmo assim, muitas mulheres lidam com culpa por não manterem o mesmo ritmo ao longo do mês. “Uma das principais diz respeito à expectativa de constância linear se comparado a um modelo masculino de produtividade”, explica.
Para a especialista, entender o próprio ciclo pode transformar essa relação. “Posso garantir que quanto mais esta mulher se conhece menos ‘refém do ciclo’ ela fica e passa ser dona do próprio ritmo. Isso é libertador!”
Entender o ciclo pode mudar a rotina
Esse autoconhecimento permite, inclusive, adaptar a rotina. “Com isso ela otimiza a alocação de sua energia e não se desgasta se forçando a realizar de uma forma que, naquele período, não é possível”, orienta.
Fases de maior energia podem ser aproveitadas para decisões e tarefas mais complexas, enquanto momentos de maior sensibilidade pedem ajustes.
Há, no entanto, sinais de alerta. “Temos diversos sinais de alerta, como sintomas intensos que prejudicam o funcionamento (trabalho, relações), irritabilidade extrema ou tristeza persistente”, afirma. Nesses casos, a recomendação é buscar avaliação profissional.
Entre os cuidados que ajudam no equilíbrio emocional estão sono regulado, atividade física adaptada, alimentação equilibrada e técnicas de respiração e mindfulness.
No fim, o que ainda falta é mudar a forma de enxergar o ciclo menstrual. “Devemos sempre lembrar que o ciclo menstrual não é uma limitação, mas sim um ritmo biológico previsível que, quando compreendido, se torna um aliado pessoal”, conclui.