Psicóloga supera seis diagnósticos e 20 cirurgias por câncer de mama
Reprodução/Arquivo pessoal
Psicóloga supera seis diagnósticos e 20 cirurgias por câncer de mama

Aos 64 anos, a psicóloga e especialista em marketing Valéria Baracatt continua a transformar a dor em esperança. Diagnosticada com câncer de mama pela primeira vez em 2004, ela enfrenta a doença pela sexta vez. Entre cirurgias, tratamentos e recomeços, sua trajetória se tornou uma bandeira contra o preconceito e pela defesa da dignidade das mulheres.

“O pior câncer não é o que atinge a carne, mas o que fere a alma quando você sente a discriminação. O pior câncer é o preconceito” , resume.

Valéria já passou por mais de 20 procedimentos cirúrgicos. Ainda assim, canalizou sua experiência para acolher outras pacientes, fundando o Instituto Arte de Viver Bem, que durante 16 anos recebeu centenas de mulheres na Casa da Mulher, publicou mais de 2,5 milhões de cartilhas de prevenção e lançou campanhas internacionais de conscientização.

A luta contra o preconceito

A discriminação no mercado de trabalho é um dos temas que Valéria combate com mais firmeza. Após o primeiro tratamento, chegou a ser aprovada em seleções profissionais, mas foi barrada em exames admissionais devido ao histórico da doença. Desde então, ela denuncia práticas de exclusão e defende políticas que garantam estabilidade durante o tratamento.

Em uma iniciativa simbólica, escreveu a 100 CEOs de grandes empresas brasileiras pedindo reflexão sobre a inclusão de pacientes oncológicos. Apenas dois responderam.

“A rotina pode mudar, mas a capacidade de trabalhar e produzir não diminui. Precisamos de uma mudança cultural, assim como aconteceu no enfrentamento ao estigma da AIDS” , afirma.

Avanço no diagnóstico: mamografia ampliada

Enquanto vozes como a de Valéria alertam para a importância da dignidade, a ciência e as políticas públicas dão passos significativos. Em setembro, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação da mamografia no SUS para mulheres entre 40 e 49 anos, antes restrita a partir dos 50.

Para a oncologista clínica Fernanda Ronchi, do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM), a decisão é acertada:  “Quase um quarto dos casos de câncer de mama é diagnosticado nessa faixa etária. Quando descoberto no início, as chances de cura chegam a 90%. Essa medida amplia as possibilidades de salvar vidas.”

O câncer de mama continua sendo a principal causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil. A nova diretriz permite que o exame seja feito de maneira sistemática, mesmo sem sintomas aparentes.

Sintomas que merecem atenção

Especialistas orientam que as  mulheres procurem avaliação médica ao notar sinais como:

  • aparecimento de nódulos novos na mama;
  • retrações ou assimetrias;
  • inchaços ou vermelhidão;
  • secreção com sangue ou transparente;
  • feridas persistentes, especialmente na região do mamilo;
  • dor localizada.


Inovações no tratamento

Nos últimos anos, terapias modernas ampliaram as perspectivas para diferentes subtipos da doença. Entre elas, inibidores de ciclina para tumores hormonais, terapias-alvo para casos HER-2 e a associação de imunoterapia com quimioterapia em tumores triplo-negativos. Também avançaram os anticorpos droga-conjugada, que tornam a ação da quimioterapia mais precisa.

O peso emocional do diagnóstico

Segundo Fernanda, o impacto psicológico do diagnóstico não pode ser ignorado:  “É uma notícia dura, que afeta paciente e família. Faz parte viver todas as fases do luto — da negação à aceitação. É hora de deixar-se cuidar pela rede de apoio e, quando possível, buscar acompanhamento psicológico.”

Valéria conhece bem esse caminho. Para ela, acolhimento é tão essencial quanto o tratamento clínico.

“Informação salva vidas, e dignidade mantém essas vidas de pé. O Outubro Rosa é sobre prevenção, mas também sobre empatia e inclusão” , reforça.

Prevenção e estilo de vida

Além do rastreamento, hábitos saudáveis são aliados importantes. Praticar ao menos 30 minutos de atividade física cinco vezes por semana, manter uma dieta equilibrada, evitar cigarro e álcool podem reduzir em até 60% o risco de câncer, segundo a oncologista.

Uma voz que ecoa

Com quatro décadas de atuação em comunicação e eventos, Valéria segue ativa também na Baracatt Assessoria e Eventos e como autora. Mais do que isso, permanece sendo uma das vozes mais firmes por um futuro em que mulheres diagnosticadas com câncer sejam respeitadas, tratadas sem preconceito e com acesso igualitário a exames e tratamentos.

“Sempre fui uma vendedora de sonhos. Hoje, meu sonho é que nenhuma mulher precise escolher entre viver e ser respeitada.”

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