HPV não é indicativo de traição

Luisa Villa, especialista “top” no assunto, esclarece dúvidas sobre a doença

Fernanda Aranda, iG São Paulo

O HPV está espalhado pelo Brasil. O Ministério da Saúde já coloca esta doença sexualmente transmissível no topo do ranking das infecções. Uma pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo mostrou que 60% das gestantes tinham o vírus (são mais de 100 tipos diferentes). Estimativas dão conta que, no Brasil, 25% do total de mulheres convivem com o problema.

Divulgação
Bióloga é a principal especialista em HPV do Brasil
O HPV – caso não tratado – pode evoluir para o câncer de colo do útero, um dos mais fatais e ameaçadores da população feminina. O Instituto Nacional do câncer (Inca) mostra que, atrás do câncer de mama, ele é o segundo que mais mata as brasileiras.

O fenômeno, no entanto, é mundial. Por isso, no último final de semana, médicos dos quatro cantos do planeta estiveram reunidos no interior do Estado de São Paulo, na cidade de São Roque, para discutir estratégias de combate à doença.

O Delas conversou com a bióloga brasileira Luisa Lina Villa, professora da Santa Casa de São Paulo, pesquisadora do Instituto Ludwing (maior referência em ensaios científicos sobre câncer) e também presidente do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para o HPV. Nesta entrevista exclusiva, ela conta que, apesar de muito comum, o HPV ainda é um desconhecido para muitas mulheres. Um dos principais equívocos que surgem com esse desconhecimento, por exemplo, é achar que a doença é um indicador de traição.

Luísa Lina Villa fala ainda dos perigos do sexo extremamente precoce, da importância da vacinação contra o HPV e dos desafios do Brasil para vencer este problema íntimo da mulher. Confira trechos do bate-papo.

Delas: Os países latinos e africanos têm mais casos de HPV?

Luisa Lina Villa: Não é correto dizer que as infecções por HPV são mais frequentes em certos países do que em outros. A incidência é semelhante. O que acontece é que na América Latina, na África e em boa parte da Ásia as complicações por HPV, câncer e mortes, são muito mais comuns. O HPV atinge a todos, independentemente da classe sócioeconômica. Entre os países menos desenvolvidos, existem piores consequências da doença.

Delas: Dá para dizer que o HPV é um fenômeno mundial?

Luisa Lina Villa: Sim. No Brasil a taxa de incidência está em 20 novos casos por 100 mil habitantes, registrada por ano. Em outros países da América Latina, a taxa é de 55 por 100 mil. Em países africanos, a incidência é de 60 por 100 mil por anos. Já em países desenvolvidos, a marca varia de 5 a 12 casos por 100 mil por ano. É bem menos.

Delas: Alguns países desenvolvidos, inclusive, adotaram a vacina contra o HPV na rede pública. Esta medida é a solução?

LuisaLina Villa: As vacinas profiláticas, se aplicadas em larga escala, têm o potencial de reduzir em 70% os cânceres de colo do útero. Porém, como existem outros tipos de vírus do HPV que causam câncer e não são contemplados pelas vacinas existentes é preciso que as mulheres continuem fazendo o exame papanicolaou. E, para isso, o Brasil precisa não apenas melhorar o acesso das mulheres ao exame, mas encurtar o prazo entre o resultado e o início do tratamento. Os médicos também precisam ser mais capacitados. Ainda há muito desconhecimento sobre a doença e suas formas de infecção e a classe médica precisa ter consciência da lista imensa de doenças detectadas e prevenidas pelo exame de papanicolaou.

Delas: Muitas mulheres, quando recebem o resultado positivo para HPV, têm receio de contar aos companheiros por achar que a contaminação pode indicar “traição”. A doença indica uma relação extraconjugal, caso o parceiro não tenha o vírus?

Luisa Lina Villa: O HPV afeta homens, mulheres, crianças, idosos, todos. Mesmo senhoras e senhores que não estão tendo mais relações sexuais poderão ter manifestações de HPV. Ou porque houve reativação de vírus contraído há muitos anos ou, muito mais rararamente, por outra via de contaminação, como se enxugar com uma toalha contaminada com o vírus. Reforço que esta forma de contágio é muito rara. Existem crianças que nascem com HPV pois o vírus, de forma rara também, pode passar pela placenta. É importante frisar que não precisa ser promíscuo para ter HPV. Primeiro porque o vírus pode ter sido contraído em outra relação e só se manifestado tempos depois. Não dá para centralizar a discussão com o companheiro no “quem passou para quem”. HPV não indica traição. Se você descobriu o HPV e está em uma relação fixa, fale com o parceiro de forma madura: “Meu amigo, não dá para saber quem começou essa história, então, vamos nos tratar. Os dois.”

Delas: Por que quanto antes começa a vida sexual da mulher, maiores os riscos dela contrair HPV?

Luisa Lina Villa: Sexo é bom, sexo é necessário. Mas em idade muito jovem é uma desgraça. O cólo do útero da adolescente é imaturo, já está comprovado cientificamente, e favorece a infecção pelo vírus do HPV. Quanto mais cedo você se infectar por um tipo de HPV de alto risco, mais cedo terá forma grave da doença. Qualquer relação antes dos 15 anos é perigosa.

    Leia tudo sobre: HPVtraiçãovacinavírus

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG