Enxaqueca: entenda a dor e saiba como aliviá-la

Por Chris Bertelli, iG São Paulo

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Doença atinge três vezes mais mulheres; estudos buscam reduzir a dor nas crises

Quando a enxaqueca chega, é você quem sai de cena. Qualquer pequena luminosidade é como um canhão de luz apontado direto para os olhos. Dirigir e ler são tarefas praticamente impossíveis e em casos mais graves até mesmo falar fica complicado.

“Não consigo raciocinar ou trabalhar. Tenho de parar o que estou fazendo para deitar e fechar os olhos. Nas crises fortes não consigo comer e tenho vontade de vomitar. Só saio do quarto escuro para isso. Quando ela vem, me torno refém dela”, relata a assessora de comunicação corporativa Milena Prado, 24 anos, que sofre com a enxaqueca desde os 12.

Apesar da dor intensa, a enxaqueca não é considerada perigosa, desde que excluída a chance de ser um sintoma de alguma outra doença grave. “A dor pode ser sinal de um tumor ou de um sangramento intra-cerebral, por exemplo. Mas, feitos todos os exames e afastadas essas possibilidades, essa condição deve ser tratada sem muito alarde”, afirma Antonio Lúcio Teixeira Junior, coordenador do ambulatório de cefaléia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para Mario Peres, neurologista especialista em cefaléia e professor do departamento de neurologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a enxaqueca pode ser considerada perigosa no sentido de diminuir a qualidade de vida daqueles que a têm. No entanto, segundo a Academia Americana de Neurologia, pessoas com enxaqueca têm maior chance de apresentar fatores de risco vascular como hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto.

Estudos recentes também demonstraram que pessoas com o caso mais grave da enxaqueca, a aural, têm quatro vezes mais chances de ter um acidente vascular cerebral (AVC) ou uma isquemia do que quem não tem o problema.

Estágios

Em seu livro “Dor de cabeça: o que ela quer com você?”, o neurologista Mário Peres descreve as quatro fases da enxaqueca: o pródomo, a aura, a dor e a resolução. No primeiro aparecem alguns sintomas que prevêem a chegada do problema como sonolência, irritabilidade, bocejos e vontade de comer doces. Eles podem aparecer até 24 horas antes da crise.

Na fase seguinte, a aura é como um aviso de que a dor está se aproximando. Ela precede a enxaqueca e pode ser acompanhada de flashes ou turvamento da visão e alteração da sensibilidade e da fala. É bom dizer que nem todos vivenciam esta fase. Em seguida, vem a dor, parte mais crítica da crise. Nessa fase, a pessoa precisa de silêncio, um quarto escuro e medicação – se tiver prescrição do neurologista.

“É preciso tomar cuidado com o abuso de analgésicos, pois eles interferem nos mecanismos centrais da dor e, a longo prazo, podem levar a uma situação mais intensa”, avisa Teixeira Junior.

“Minha dor começa aos poucos, com pontadas na nuca ou na testa ao mexer a cabeça. Daí é questão de horas”, conta Milena – ela já teve crises que duraram dias.

Piora com a luz

Segundo uma pesquisa realizada por cientistas norte-americanos, divulgada na revista Nature Neuroscience, 85% das pessoas que sofrem com a enxaqueca são sensíveis à luz. E isso inclui deficientes visuais. O motivo? A luminosidade vira impulso elétrico enviado pelo nervo óptico diretamente aos neurônios que já estavam “eletricamente ativos” por conta da crise.

Esses neurônios continuam ativos mesmo depois que a luz se apaga, por isso o desconforto leva em média 20 minutos para passar. A descoberta permitiu que cientistas estudem como impedir o caminho que os impulsos percorrem diminuindo os efeitos da luz sobre o problema.

Mulher e enxaqueca

A doença, que atinge três vezes mais mulheres do que homens, pode estar relacionada a aspectos hormonais. Nos dias de Tensão Pré-Menstrual, Milena, assim como outras mulheres, tem enxaquecas freqüentes. Para o neurologista da Unifesp, os desequilíbrios hormonais têm papel importante. “Na menopausa, a taxa de enxaqueca tende a diminuir, o que é um forte indicativo da relação com os hormônios femininos.”

Alívio possível

Muitos pesquisadores tentam buscar tratamentos inovadores, mas é difícil pensar em cura da enxaqueca, por conta de seu caráter multifatorial: ela pode ter causas hormonais, genéticas ou estar relacionada à falta de sono, ao sedentarismo, ao estresse e aos hábitos alimentares. Ou ainda a nenhum desses fatores.

No atendimento do Hospital das Clínicas da UFMG, os tratamentos são preferencialmente não farmacológicos e se dividem em três frentes: manipulação da dieta (alimentos ou bebidas vasodilatadores como o vinho podem desencadear a dor em pessoas mais sensíveis), prevenção de exposição a fatores que levam à enxaqueca (como estresse) e psicoterapia individual ou em grupo (indicada para casos em que a dor está associada à depressão ou à ansiedade).

Como a enxaqueca tem peculiaridades que variam de acordo com a pessoa, somente um neurologista pode avaliar e indicar qual o melhor tratamento para cada caso. Em alguns pacientes, o alívio está no controle alimentar ou na exclusão de determinados alimentos, enquanto para outros a solução pode estar nos medicamentos.

Novos tratamentos

São duas as linhas mais estudadas e pesquisadas pela comunidade científica para o alívio da enxaqueca. A primeira é a aplicação da toxina botulínica do tipo A. Esse seria o oitavo uso terapêutico da substância, mundialmente conhecida por seus benefícios estéticos.

A utilização da toxina vem sendo amplamente estudada nos Estados Unidos e também no Brasil há 10 anos, quando o dermatologista norte-americano Richard Glogau, durante uma pesquisa, reportou o alívio da enxaqueca de 75% dos pacientes.

“Ainda faltam evidências científicas concretas – que não sejam questionáveis – para que essa utilização possa ser aprovada”, diz Teixeira Junior.

Um aparelho chamado Single Pulse Transcranial Magnetic Stimulation, ou SPTMS, também promete ser importante nessa área. Ele emite pulsos magnéticos que interromperiam ligações elétricas no cérebro, causadoras dos sintomas iniciais da enxaqueca com aura. Das 100 pessoas que participaram de um estudo feito pela Escola de Medicina Albert Einstein, de Nova York, 40% descreveram um alívio com duração entre 2 e 48 horas. A pesquisa foi publicada este mês na versão on-line do The Lancet Neurology . A grande vantagem deste aparelho é que pode ser utilizado em casa pelo próprio paciente.

 

 

 

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