Psicólogo diz que relação é uma forma de desviar o foco de problemas pessoais e carregar "o outro" nas costas

Mulheres que amam detentos
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Mulheres que amam detentos
"Tudo começou quando o marido da minha vizinha foi preso por roubo no começo deste ano. Tempos depois, fui acompanhá-la em uma visita e minha vida mudou, conheci uma pessoa muito especial. Preso por assassinato, Marcos* estava arrependido e muito triste. Fiquei comovida e começamos me corresponder com ele. Temos planos de nos casar assim que ele sair da prisão, o que deve demorar dois anos e meio".

O depoimento da auxiliar administrativa Vanessa*, 26 anos, é bastante parecido com o da maioria das mulheres que se envolvem com detentos. Para muitas pessoas, é muito difícil entender como uma mulher jovem e saudável é capaz de fazer planos com um homem que conhece dentro de um presídio, com um passado criminoso e que, teoricamente, pouco tem a oferecer. Porém, as histórias de amor que se desenvolvem atrás das grades são muitas.

As explicações para o fenômeno envolvem problemas de autoestima, algumas mulheres buscam um homem indisponível emocionalmente e podem, até mesmo, estar à procura de um motivo para desviar o foco de si mesma.

Para o psicólogo e especialista em sexualidade humana Paulo G. P. Tessarioli, a preferência de se relacionar com alguém que está privado de liberdade e que não pode viver uma relação amorosa de fato, pois esta pressupõe intimidade física e emocional, denuncia algo grave. "Procurar uma ‘pessoa problema’ para se relacionar é uma forma de comprar uma briga que não é dela. Em outras palavras, carregar o outro nas costas”, explica.

O motivo que leva uma mulher a manter um relacionamento com um homem que cometeu um crime revela uma dificuldade em estabelecer relações de intimidade. Abusos, atitudes familiares inadequadas e convivência com comportamentos compulsivos de familiares, como alcoolismo, são formas das mulheres buscarem reparação, quando a história de sua família apresenta um desajuste emocional. “Muitas mulheres aprenderam desde cedo que amar é sofrer. Na infância e adolescência, ela não tinha poderes para agir, quando vira adulta pode criar a ilusão de que agora é possível fazer alguma coisa pelo outro e ser bem sucedida”, explica Tessarioli.

Vanessa diz que espera que Marcos, 19, cumpra a pena de sete anos, mas que pode ser reduzida caso ele tenha bom comportamento. Ela justifica o assassinato que ele cometeu como “um erro em um momento de desespero”. “Ele nunca teve muito estudo e foi exposto a diferentes dificuldades. Fica muito fácil julgar, mas no contexto em que ele estava, matar era uma forma de sobreviver.”

Joyce*, 30, é professora e também se envolveu com um presidiário em uma visita a um presídio. “Fui visitar meu cunhado com a minha irmã. Minha família queria impedir até a minha irmã de vê-lo, pois na nossa família jamais alguém tinha tido problemas com a justiça. Mas ela estava sofrendo muito, então eu a apoiei e acabei me envolvendo com uma pessoa.”

Ao visitar o cunhado, que foi preso por assalto à mão armada, um encarcerado viu Joyce e ficou interessado. “Quando minha irmã foi lá novamente, me trouxe um bilhete. A partir daí, começamos a conversar por carta e um dia fui conhecê-lo”. Apaixonar-se não demorou muito. “Ele acabou preso por ser viciado em drogas e um dia roubou uma loja. Tem muito criminoso de terno e gravata bem visto pela sociedade.”

Ele não é culpado

A negação diante do crime cometido pelo amado encarcerado é a maneira encontrada por muitas mulheres para permanecer na relação. "As desculpas são muitas e é comum ouvir frases como "armaram para ele"; "ele está preso, mas tem um excelente coração"; "tem gente que faz coisas muito piores e está em liberdade". Tessarioli explica que aceitar um fato não significa gostar ou mesmo compactuar com o ocorrido, mas sinaliza um grau de maturidade emocional, comportamento que estas mulheres não apresentam.

Religião

A vendedora Janaína*, 35, não se sente infeliz tendo uma relação amorosa com Pedro*. Preso há três anos por roubo seguido de homicídio, ela resolveu começar a enviar cartas para ele até que um dia eles se apaixonaram. "Sabia que uma colega da igreja também se correspondia com um presidiário e resolvi que poderia trazer um pouco de conforto para uma pessoa que precisava de minha ajuda. Sou evangélica e acho que se ele se arrependeu, merece outra chance. Não tenho medo que ele faça tudo de novo. Ele aprendeu a lição e quer ser feliz ao meu lado."

A vendedora diz que não tem vergonha do passado de Pedro, mas prefere não falar sobre o assunto com qualquer pessoa, pois não quer ser vítima de preconceito. Assim como Janaína, a religião é um meio de suportar e superar a vivência de momentos difíceis. Durante o cumprimento da pena, muitos presos passam a adotar algum tipo de crença religiosa. "Alguns fazem isto conscientemente, acreditando que é uma forma de abrandar a pena, a partir da demonstração de bons comportamentos. Outros se apegam a doutrinas religiosas com a intenção de abandonar o mundo do crime e se manter firmes neste propósito", afirma Tessarioli.

No caso da relação com o detento, o raciocínio de cultuar uma religião é uma forma de reparar o passado e seguir o presente de forma mais íntegra e digna. "Converter um detento pode se tornar um desafio de amor para esta mulher", explica Tessaroli. "Meus pais não gostam muito desta história, mas eles precisam aceitar, pois trata-se do homem de minha vida e, se tudo der certo, o futuro pai dos meus filhos", diz Janaína.

Maníaco do Parque

O motoboy Francisco de Assis Pereira, conhecido como Maníaco do Parque, foi pego pela polícia em 1998 e condenado a 274 anos de prisão por ter matado pelo menos dez mulheres. E ele é um dos detentos que mais ganha cartas na prisão – só no primeiro mês, recebeu mais de mil correspondências. Com uma dessas admiradoras, Marisa Mendes Levy, formada em história, ele se casou em 2002, mas o relacionamento não durou muito.

Para entender melhor as histórias de mulheres apaixonadas por prisioneiros, o jornalista Gilmar Rodrigues fez uma pesquisa durante quatro anos para escrever o livro “Loucas de Amor - mulheres que amam serial-killers e criminosos sexuais”, da editora Ideias a Granel, lançado em novembro do ano passado. 

* os sobrenomes foram omitidos a pedido das entrevistadas


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