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Cabelos brancos, por que?
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Não que tenha sido uma decisão fácil. Não foi não. Mas ia virando uma urgência assim, aos pouquinhos. E então, num dia 31 de dezembro tornou-se minha mais importante resolução de Ano-Novo: deixar os cabelos brancos.

E deixei. Achei que era uma coisa minha, mas aqui e ali fui encontrando companheiras de ousadia. E percebi que, no fundo, os cabelos brancos eram uma provocação. E são, até hoje.


Escrevi essa crônica em algum momento de 2002, faz muito tempo...

Por isso, levei um susto, um susto alegre, se é que isto existe, quando li a entrevista de Anne Kreamer, autora de um recém-publicado: Going Gray, What I Learned About Beauty, Sex, Work, Motherhood, Autenticity and Everything Else that Matters, que, traduzido daria algo como “cabelos brancos, o que eu aprendi sobre beleza, sexo, trabalho, maternidade, autenticidade e tudo aquilo que realmente importa”...

Com 51 anos, casada e mãe de duas adolescentes, Anne Kreamer adotou um tom mais político para falar destas questões capilares e, hoje, dedica-se à tarefa de mostrar para outras mulheres que cabelos brancos trazem sim alguns benefícios e que, no mínimo, você vai fazer alguma economia, além de poupar todas aquelas preciosas horas do seu tempo esperando a tintura fazer efeito...

Numa entrevista para a revista Newsweek, ela conta como foi seu mergulho no mundo dos cabelos acinzentados..."eu nunca decidi deixar os cabelos brancos", lembra, " aconteceu num daqueles momentos em que a névoa se dissipa e, de repente, você se 'vê', tal qual realmente é (...) e eu me senti 'estranha'"...

Como eu e você -- quem sabe --, ela pintava o cabelo desde os 25 anos. E tinha medo de parecer a avó das filhas. Como eu e você – a propósito, já pensou em deixar os cabelos brancos? --, os primeiros tempos foram difíceis. Cabelos dão segurança, dizem do seu jeito, do seu estilo, são símbolos poderosos de feminilidade. E quando você decide deixar os cabelos brancos, o primeiro desafio é como lidar com o fato de que em 15 ou 20 dias no máximo, você vai se olhar no espelho e ver...uma zebra! E nada a ver com o espírito selvagem das savanas africanas...zebra sem nenhum senso artístico, tristonha e esquisita!

Eu preferi passar a máquina 4 na minha cabeleira que, na época, era cor de acaju desbotado! E minha primeira epifania foi descobrir o formato do meu crânio! Os gregos tinham uma palavra linda para a verdade, "alethea". Para eles, a verdade, a gente vai desnudando, com cuidado, um véu, depois outro... Deixar os cabelos brancos, para mim, tinha a ver com essa necessidade de levantar os véus e descobrir quem eu era afinal.

Engraçado pensar que comecei a me sentir uma mulher interessante só aos 45, e de cabelos brancos!!? Está certo que você vai gastar mais num corte especial, meio maluquinho, não me vá deixar os cabelos brancos e cortadinhos naquele estilo bem-comportado, de “tia”. Não, nada disso: ouse, brinque, cabelos são o jeito mais rápido de fingir que a vida mudou, de fazer de conta que ganhamos uma versão novinha em folha de nós mesmas, de presente.... Se gostar, continue com a brincadeira, se não gostar, volte para o acaju ou, melhor ainda, pinte de cor de rosa, por que não?

Não acho que deixar os cabelos brancos deva virar uma espécie de bandeira, credo! Ao contrário, se você resolver viver seus tons de prata, que seja por amor a si mesma. Pura vaidade! Coisa de mulher...

Nossa amiga Anne Kreamer tem um site e um blog. Vale a visita...

E leia a seguir a crônica Cabelos Brancos e Histórias da Velha na íntegra...

Não que tenha sido uma decisão fácil. Não foi não. Mas ia virando uma urgência assim, aos pouquinhos. E então, num dia 31 de dezembro tornou-se minha mais importante resolução de Ano-Novo: deixar os cabelos brancos.

E deixei. Achei que era uma coisa minha, mas aqui e ali fui encontrando companheiras de ousadia. E percebi que, no fundo, os cabelos brancos eram uma provocação. E são, até hoje.

Tive certeza disso no outro dia, quando encontrei no cabeleireiro uma "colega" que, ainda mais ousada, tinha deixado crescer seus cabelos à moda de Gisele Bündchen e me dizia: "não tem um lugar aonde eu vá que as mulheres não discutam se eu devia ou não ter parado de pintar os cabelos, se eu parecia ou não envelhecida, se estava ou não mais bonita ou mais feia. É engraçado, faz as pessoas se refletirem, como se estivessem diante de um espelho, mas eu adoro", ela ria balançando suas madeixas cor de pérola.

Como foi que uma coisa aparentemente tão simples como pintar os cabelos ficou tão complicada, tão cheia de significados mais ou menos explícitos? A forma como vemos nosso corpo está impregnada de fantasias, de desejos, de sonhos. E o corpo das mulheres desde sempre foi vestido de tabus e de preconceitos, talvez refletindo o mistério que se encenava em seu interior. O fato é que hoje, talvez até mais do que em qualquer outro momento, mulher é igual a mulher jovem, e ponto. Estamos tão acostumados a rimar mulher com juventude que é quase impossível imaginar outras belezas, outros jeitos.

O que será que assusta tanto na imagem da mulher velha? A resposta mais óbvia seria: o medo da morte. Por trás do cabelo branco, das rugas, das marcas da vida, se esconde o pavor do final. Parece lógico. Mas, homens de cabelo branco -- e se tiverem barbas brancas ainda melhor - evocam imagens de sábios. Que imagens estão por trás da figura da Anciã, da Velha?

Era uma vez uma época em que as mulheres velhas eram poderosas. Quer ouvir essa história? Então vou pegar o livro A Velha, de Bárbara G. Walker e contar para você.

A Velha era parte de uma trindade feminina que incluía a Virgem, a Mãe e a Anciã. Ou, nas palavras de Bárbara Walker: a Criadora, a Preservadora e a Destruidora. Para nossos longínquos antepassados o universo era o filhote sempre renovado de uma superdivindade feminina primordial, a Grande-Mãe, ao mesmo tempo senhora da vida e da morte. Todas as intuições primitivas sobre o ser feminino estavam contidas dentro dela.

Com o tempo, essas imagens foram ganhando autonomia, dividindo-se ou desdobrando-se. As deusas Hebe, Hera e Hecate, da Grécia, por exemplo, eram, provavelmente, rostos diferentes de uma só divindade, que explodiu em algum momento da história em milhares de fragmentos. Hebe seria lembrada como a personificação da juventude e Hera, permaneceria para sempre a esposa de Zeus e senhora do Olimpo. Mas Hécate continuaria a personificar o desconhecido, eternamente ligada ao mundo das sombras, tão poderosa que o próprio Zeus não mexia com ela.

Tão antiga é a figura de Hécate que em outras versões do seu mito ela aparece associada com Ártemis, a deusa-donzela que domestica as forças selvagens da natureza e com Selene, a deusa-mulher da Lua. Os homens recorriam à Hécate para pedir graças, como riquezas e vitórias. Dizia-se que era ela que tornava os peixes abundantes ou fazia o gado definhar e morrer. Hécate é a senhora das artes mágicas e aparece aos magos e feiticeiras com um archote na mão ou como animal. Ainda mais interessante: seu reino é nas encruzilhadas, os lugares onde os mundos se encontram e onde se abrem os portais que permitem aos seres humanos passar de um lado para outro. Hécate guarda em si mesma a antiga trindade feminina e surge como uma mulher com três cabeças ou três corpos. 

Talvez a Velha seja uma filha natural de Hécate, incrustada na nossa memória. Lembrança de um tempo em que vivíamos em maior harmonia com os ciclos da Natureza e a morte era uma aventura, cheia de mistérios. A Anciã traz a morte dentro de si e é a rainha absoluta da escuridão e do mistério. É ela que espera, no final da linha, para acolher tudo que vive em seu útero. E nessa escuridão úmida, ela recicla sem descanso nem tristeza o Universo.

Segundo Bárbara Walker, a Velha era o mais temido aspecto da trindade feminina e o mais poderoso. Nas sociedades pré-cristãs, as mulheres velhas eram encarregadas de infindáveis rituais religiosos, eram parteiras, médicas, curandeiras e possuíam o conhecimento acumulado que as tornava mestras em assuntos tão variados como o cuidado dos bebês e a forma correta de preparar os que iam morrer. De fato, ao longo da história, se a medicina era assunto dos homens, o cuidado dos doentes, das mulheres que iam dar a luz e das crianças, tradicionalmente era uma tarefa feminina, mais ainda, tarefa das "mulheres mais velhas", coisa de avó.

E é a Avó que nos pega pela mão e nos faz ver um outro lado da Velha terrível, amiga da morte: a Velha sábia e grande contadora de histórias. Bárbara Walker conta que a palavra "saga", que originalmente se referia às canções nórdicas que relatavam assuntos lendários, literalmente quer dizer "aquela que fala" ou "a sábia". As sagas da Escandinávia eram histórias sagradas que foram preservadas porque as sagas ou velhas sábias sabiam escrever em runas. Os homens nórdicos, aparentemente, estavam sempre tão ocupados com as guerras que, em geral, eram analfabetos. Curiosamente, em latim, a palavra "saga", acabou virando sinônimo de bruxa ou feiticeira.

Criadora, destruidora, sábia, bruxa, as histórias da Velha são incontáveis e, você sabe, não precisam ter acontecido "de verdade" para "ser verdade". Como outros tantos símbolos, imagens assim moram dentro de nós. Resta descobri-las e, quem sabe, conversar com elas de vez em quando.

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