Pré-adolescência não tem hora para chegar

Mudança de interesses e alterações físicas determinam a chegada da fase. Pais devem manter a autoridade, mas de forma diferente

Tatiana Gerasimenko, especial para o iG São Paulo |

Alexandre Carvalho/ Fotoarena
Bruna e o ídolo Justin Bieber: aos oito, ela quer se maquiar, ensaia coreografias do cantor e brinca com bonecas
A menininha usava sapatinhos cor-de-rosa, mas algo está diferente: a Barbie deixa de ser o brinquedo favorito e passa a virar meta. Ela quer calçar sapato alto, passar batom, usar sutiã com bojo. O menininho desfilava pela casa de cueca, mas começa a se tornar mais tímido e introspectivo. Os pais sentem que a infância está indo embora e os desafios serão outros. Mas como lidar com estas pequenas criaturas que ainda não são adolescentes e, no entanto, estão deixando de ser crianças?

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A pré-adolescência chegou. E os pais devem estar preparados para as mudanças - por mais que a imagem do filho pequeno, frágil e infantil esteja lá, fresquinha na memória. A Organização Mundial da Saúde (OMS) entende a adolescência como o período que vai dos 10 aos 19 anos e o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece a fase entre os 12 e 18 anos. Mas psicólogos e médicos são categóricos ao afirmar que isso é muito relativo.

Tanto a pré-adolescência como a puberdade variam de indivíduo para indivíduo em termos biológicos e emocionais. “Não é possível definir de modo determinista a faixa etária na qual essa fase está compreendida, pois cada pessoa tem seu ritmo próprio de desenvolvimento”, explica a psicóloga infantil Yvanna Sarmet. “Podemos observar crianças com sete anos que já entraram nessa fase, assim como há crianças de 11 ou 12 anos ainda na infância”. O que marca o período são as mudanças no comportamento e nos interesses: grupos que antes costumavam ser constituídos por um único gênero passam se tornar mistos, e há um interesse maior por relacionamentos amorosos.

“A visão clássica de que a pré-adolescência é a fase anterior à adolescência, vindo antes da puberdade, é colocada em questão, porque os processos não dependem apenas do ponto de vista biológico”, diz Tiago Luiz Corbisier, psicólogo e autor do livro “Adolescência: história política do conceito na psicanálise”. “Psicologicamente, é um período em que o jovem busca meios próprios e sociais, interpessoais, para criar um caminho de circulação no ambiente independente dos pais”.

Pequenos grandes homens

De certa forma, é como se o biológico e o social atuassem juntos para determinar o momento em que a criança chega à pré-adolescência. “Quando se fala nesta fase, é preciso pensar em duas questões: a atitude, expressa pela criança com uma postura mais próxima do adolescente, e a parte física, que começa antes da adolescência. Ou seja, meninas que começaram a desenvolver os seios aos nove anos, por exemplo”, explica o hebiatra Maurício de Souza Lima. “Isso ocorre por duas razões: a parte biológica é influenciada diretamente pela questão nutricional, relacionada principalmente a proteínas na alimentação, e a parte social, que acaba condicionando a puberdade adiantada”.

Mônica Burzaca já observou a chegada da pré-adolescência na filha Carol, de 12 anos. “Tem os pelos, o seio despontou... Depois, vem a questão das roupas: ela abandonou total o rosa – da fissura para o ódio. Por último tem os programas com os amigos, porque agora eles vão ao shopping, ao cinema, e ficam em turma”. Carol ainda não teve a primeira menstruação, mas acha que já tem idade suficiente para tirar a sobrancelha e ir à manicure. E não só as meninas ficam preocupadas com o visual. Maria Dulce Menezes, mãe de André, de nove anos, também observa diferenças no filho: “Ele está sempre preocupado com o cabelo. Fica pedindo para eu fechar o vidro do carro para não desarrumar o cabelo”.

De acordo com Corbisier, filhos mais novos tendem a ter um desenvolvimento mais acelerado em função do modelo do irmão mais velho. É o caso de Rafael, de nove anos, que desde cedo valeu-se de Renato, de 13, para aprender rapidamente a andar, falar e desenhar. “Mesmo não querendo, acabamos jogando uma cobrança indireta nos primogênitos, do tipo 'cuida dele porque você é mais velho, hein?'. São coisas faladas sem pensar, com resultados que não imaginávamos” , explica a comerciante Alessandra Marques. Ela procurou a ajuda de uma psicóloga para entender melhor os dois, já que o mais velho é muito retraído, e ela própria se considera impetuosa demais para conversar com os filhos.

Querer não é poder

“O grande desafio dos pais é que eles se encontram no fio da navalha: por um lado, os filhos pedem espaço de autonomia. Por outro, precisam de apoio, só que o apoio não é o mesmo da infância – não é fazer, dar a solução, estar fisicamente presente... é mais sutil, mais pontual, mais reflexivo e não necessariamente impositivo”, explica Corbisier. “É como aquela frase famosa 'Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás' (há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais) ”, brinca. Mônica concorda e avalia a situação da filha Carol: “A gente tem que ter paciência, e é legal porque a gente se renova. Deve ser mais difícil para eles, que não são nem mais crianças nem adultos, não têm maturidade nem autonomia suficiente para fazer o que desejam – graças a Deus!”.

Melissa Borgonovi, mãe de Bruna, de oito, e Mariana, de cinco, acredita que os pais devem procurar sua própria forma de lidar com esta diferença. “Às vezes a Bruna quer enfrentar a gente, mas não pode. É uma fase difícil”, conta. “Eu tenho de dizer 'não, você não vai'”. Bruna ainda brinca com as bonecas e de esconde-esconde, mas também gosta de se produzir na frente do espelho. “Ela fica dançando as músicas que viraram moda, como as do Justin Bieber, e só quer ouvir isso no carro”. Melissa ainda acha cedo para tratá-la como uma pré-adolescente – mas reconhece a diferença na hora de falar com cada uma das filhas.

Segundo o hebiatra Maurício, os pais devem procurar entender que as crianças estão amadurecendo antes – especialmente as meninas. Mas isso não deve fazê-los questionar a própria autoridade. “Quando os pais estão frágeis, assumem uma postura autoritária demais, de uma rigidez desmedida, ou são extremamente permissivos. Assim as coisas se tornam difíceis para o jovem, que não terá tantos parâmetros de diálogo para prosseguir seu processo de amadurecimento”, termina Corbisier.

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