Ana Beatriz Barbosa, autora do best-seller “Mentes Perigosas”, lança livro sobre bullying na escola

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, autora do livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas” (Editora Fontanar)
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A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, autora do livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas” (Editora Fontanar)
Após o sucesso de “Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado”, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa parte agora para o tenso universo escolar. Ela acaba de lançar o livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas” (Editora Fontanar), em que trata de um dos maiores dramas entre as crianças e jovens hoje em dia: o bullying, um comportamento agressivo e repetitivo cometido por um indivíduo (ou um grupo) com o objetivo de intimidar alguém. 

Em entrevista ao iG Delas, ela afirma que, além da mudança comportamental dos pais perante ao filhos, a escola também deve se impor contra o bullying, e alerta: para as vítimas, geralmente crianças e jovens com problemas de autoestima, as consequências psicológicas podem ser dramáticas e irreparáveis.

iG: Quais são os principais problemas que a vítima de bullying enfrenta?
Ana Beatriz: As consequências são as mais variadas e dependem muito de cada indivíduo, da sua estrutura, vivências, pré-disposição genética, da forma e da intensidade das agressões. Os agressores (bullies) sempre escolhem um aluno-alvo que se encontra em franca desigualdade de poder e que já apresenta baixa autoestima. É um ato covarde. Os problemas mais comuns que observo em consultório são: desinteresse pela escola, problemas psicossomáticos (desconforto abdominal, taquicardia, suores, dor de cabeça, doenças autoimunes, insônia, falta de concentração); problemas psíquicos e comportamentais, como transtorno do pânico, TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), TEPT (transtorno do estresse pós-traumático), depressão, anorexia e bulimia, fobia escolar (medo patológico de frequentar a escola), fobia social (timidez excessiva) e ansiedade generalizada. O bullying também pode agravar problemas pré-existentes, devido ao tempo prolongado de estresse que a vítima é submetida. Em casos mais graves, quadros de esquizofrenia, homicídio e suicídio.

iG: Em seu livro você cita diferentes formas de bullying, verbal, físico e até virtual. Existe uma que seja mais maléfica, que pode provocar danos ainda maiores à vítima?
Ana Beatriz: Todas as vítimas, sem exceção, sofrem com os ataques de bullying. Muitos levarão marcas profundas provenientes das agressões para vida adulta, e necessitarão de apoio psicológico para a superação do problema. Uma das formas mais agressivas de bullying, que vem ganhando espaços, é o ciberbullying ou bullying virtual. Os ataques ocorrem através de ferramentas tecnológicas como celulares, filmadoras, máquinas fotográficas, internet e seus recursos (e-mails, sites de relacionamentos, vídeos). Além da propagação das difamações serem praticamente instantâneas, o efeito multiplicador do sofrimento das vítimas é imensurável. O ciberbullying extrapola, em muito, os muros das escolas e expõe a vítima ao escárnio público. Os praticantes dessa modalidade se valem do anonimato e, sem qualquer constrangimento, atingem a vítima da forma mais vil possível.

iG: Por que o bullying ocorre? E como os pais podem interferir?
Ana Beatriz: O bullying escolar ocorre desde que existe a instituição de ensino. Porém, a partir da década de 80, passou a ser objeto de estudos e campanhas antibullying no mundo todo, em função da proporção gigantesca que vem alcançando. O individualismo, cultura dos tempos modernos, também propicia essa prática, com distorções absurdas de valores éticos. Vivemos em tempos velozes, com grandes mudanças em todas as esferas sociais. Nesse contexto, a educação se tornou rapidamente ultrapassada, confusa, sem parâmetros ou limites. Os pais passaram a ser permissivos em excesso e os filhos cada vez mais exigentes e egocêntricos. Para que os filhos sejam mais éticos é necessário primeiro rever o que ocorre dentro de casa. Os pais, muitas vezes, não questionam suas próprias condutas e valores, eximindo-se da responsabilidade de educadores. Por outro lado, este ambiente doméstico também pode ser extremamente hostil e desestruturado, e é ali que a criança está se desenvolvendo. O resultado disso tudo é bombástico: os filhos tendem a se comportar em sociedade de acordo com os modelos domésticos. Muitos deles não se preocupam com as regras sociais, não refletem sobre a necessidade delas no convívio coletivo e sequer se preocupam com as consequências dos seus atos. É obrigação de todos auxiliá-los e conduzi-los na construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.

iG: Quais são as principais características que uma criança agressora costuma demonstrar?
Ana Beatriz: Na escola, os bullies fazem brincadeiras de mau gosto, gozações, colocam apelidos pejorativos, difamam, ameaçam, constrangem e menosprezam alguns alunos. Perturbam e intimidam, por meio de violência física ou psicológica. Furtam ou roubam dinheiro, lanches e pertences de outros estudantes. Costumam ser populares na escola e estão sempre enturmados. Divertem-se à custa do sofrimento alheio. Já no ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas. São arrogantes ao agir, falar e se vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safar das confusões em que se envolveram. Costumam voltar da escola com objetos ou dinheiro que não possuíam. Muitos agressores mentem, de forma convincente, e negam as reclamações da escola, dos irmãos ou dos empregados domésticos.

Capa do livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas” (Editora Fontanar)
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Capa do livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas” (Editora Fontanar)
iG: O que os pais devem levar em consideração para evitar que uma criança cometa o bullying?
Ana Beatriz:
Os pais precisam primeiramente identificar que tipo de agressor ele é. A maioria se comporta assim por nítida falta de limites. Outros não têm um modelo educacional que associe autorrealização pessoal com atitudes socialmente produtivas e solidárias. O agressor também pode estar vivenciando momentos de dificuldades circunstanciais (como doenças na família, separação dos pais ou estar sofrendo bullying também). Uma minoria, porém, é composta por transgressores sociais com estrutura de personalidade genuinamente maldosa (chamada transtorno da conduta ou delinquência). Em todos dos casos, o problema requer uma postura atenta e proativa por parte dos pais.

iG: Qual o papel da escola para evitar o bullying?
Ana Beatriz:
A escola é corresponsável nos casos de bullying, pois é nela que os comportamentos agressivos e transgressores se evidenciam ou se agravam. É ali que os alunos deveriam aprender a conviver em grupo, respeitar as diferenças, entender o verdadeiro sentido da tolerância em seus relacionamentos interpessoais, que os norteiam para uma vida ética e responsável. Infelizmente, a instituição escolar é o cenário principal dessa tragédia endêmica, que por omissão ou conivência, facilita a sua disseminação. A direção da escola (como autoridade máxima da instituição) deve acionar os pais, o Conselho Tutelar, os órgãos de proteção à criança e ao adolescente etc. Admitir que o bullying ocorre em 100% das escolas do mundo todo (públicas ou privadas) é o primeiro passo para o sucesso contra essa prática indecorosa. Mudanças estruturais educacionais são imprescindíveis.

iG: Normalmente existem mais meninos ou meninas que cometem bullying?
Ana Beatriz:
Estudos revelam um pequeno predomínio dos meninos sobre as meninas. No entanto, por serem mais agressivos e utilizarem a força física, as atitudes dos meninos são mais visíveis. Já as meninas, costumam fazer bullying mais na base de intrigas, fofocas e isolamento das colegas. Podem, com isso, passar despercebidas, tanto na escola quanto no ambiente doméstico.

iG: Além das vítimas, que na maioria das vezes são crianças com baixa autoestima, é possível que os agressores também tenham este tipo de problema?
Ana Beatriz:
Sim. Alguns agressores foram ou ainda são vítimas de bullying e acabam por praticar os mesmo atos contra alunos mais frágeis do que eles, na tentativa de ganhar respeito ou por agressividade contida. Outros podem estar vivenciando momentos difíceis em seus próprios lares, descarregando essa frustração em seus pares. E existem aqueles que seguem os “mentores” das agressões por medo de serem as próximas vítimas ou ainda para se tornarem mais populares.

iG: Você cita em seu livro casos de algumas pessoas que foram vítimas do bullying, mas que superaram e obtiveram sucesso na vida adulta. Como os pais podem ajudar os filhos a superar o sofrimento?
Ana Beatriz:
A identificação precoce do bullying pelos responsáveis é de suma importância. As crianças normalmente não contam aos pais o sofrimento vivenciado na escola, por medo de represálias e por vergonha. A observação dos pais sobre o comportamento dos filhos é fundamental, bem como o diálogo franco entre eles. Se for necessário, buscar ajuda profissional, com psiquiatras e psicólogos, para superar traumas, marcas profundas e transtornos psíquicos. A percepção do talento inato desses jovens pode fazer grande diferença lá na frente. Os adultos devem sempre estimulá-los e procurar métodos eficazes para que esse dom seja exercido. Isso vale tanto para que se sintam melhores consigo mesmos quanto para que desenvolvam, com maior eficácia, toda a potencialidade que eles manifestam desde cedo.

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